“Só se preserva aquilo que se ama”, afirma Marcelo Gleiser em Lajeado

Reconstrução do Vale

“Só se preserva aquilo que se ama”, afirma Marcelo Gleiser em Lajeado

Astrofísico de renome internacional palestra pela primeira vez no Vale do Taquari e provoca para mudança ética e comportamental diante da crise climática

“Só se preserva aquilo que se ama”, afirma Marcelo Gleiser em Lajeado
Foto: JÉSSICA MALLMANN
Vale do Taquari

O Teatro Univates ficou lotado nesta noite, 23, para ouvir o físico e astrônomo Marcelo Gleiser, professor no Dartmouth College (EUA), escritor e vencedor do Prêmio Templeton.

Pela primeira vez no Vale do Taquari, ele apresentou a palestra “Reconstruir e Reencantar: Ciência, Consciência e o Cuidado com a Vida”. Durante quase duas horas, a plateia de quase mil pessoas acompanhou conceitos que cruzaram ciência, espiritualidade, história da humanidade e futuro do planeta.

“Só se preserva aquilo que se ama. Precisamos voltar a amar a natureza para que possamos preservá-la.” Para o cientista, as tragédias climáticas vividas pelo Vale em 2023 e 2024 são expressão local de uma crise global.

“Não são eventos isolados, mas sintomas de uma ruptura. Crescemos acreditando que somos mais poderosos que a natureza. Mas não somos. A natureza não é inimiga, é nossa casa.”

Pluralidade de saberes

Gleiser percorreu a história do conhecimento humano. Recordou a tradição do iluminismo europeu, que consagrou a razão como único caminho para a verdade, mas também lembrou de culturas que associavam saber ao sagrado.

“Há muitos caminhos de conhecimento. Os maoris, os povos indígenas, os construtores de Stonehenge e das pirâmides do Egito nos mostram que o saber não é apenas racional. O telescópio Hubble é outro extremo dessa busca, que transformou nossa forma de olhar o universo. E quando olhamos para o cosmos, descobrimos mais sobre nós mesmos.”

Ele destacou o impacto dessa visão

“Somos feitos da poeira das estrelas. Os átomos que formam nossos corpos existem há bilhões de anos, antes mesmo da Terra. Essa é uma metáfora poética e comprovada pela ciência. A conexão com o universo deveria inspirar reverência e humildade.”

“Para nossos antepassados, a natureza era sagrada. A Mãe Natureza, os espíritos das árvores, dos animais. Os rios eram força vital. A sobrevivência dependia da natureza. Hoje, nos distanciamos. Separou-se o sagrado do humano, e a Terra virou objeto.”

Com a agricultura, a mudança

“Plantar foi uma forma de controlar a natureza. O homem domesticou animais, sementes, rios. Mudou a religião também: o Deus que estava na terra passou a habitar o céu. A Terra virou propriedade. Em dez mil anos, transformamos o mundo com feitos grandiosos, mas também com destruição. A pergunta é: como chegamos até aqui? E podemos mudar ou já é irreversível?”

Crescimento infinito

Foto: JÉSSICA MALLMANN

Gleiser citou o aumento populacional como fator crítico. “Em 1918, durante a gripe espanhola, éramos dois bilhões de pessoas. Hoje, somos mais de oito bilhões. Em apenas 100 anos, quadruplicamos. E cada pessoa precisa de alimento, água, energia, transporte. Esse crescimento acelerado trouxe conforto, mas também uma pressão ambiental gigantesca.”

Com o avanço das cidades, do modelo de produção, Gleiser advertiu sobre a impossibilidade do modelo atual. “É impossível crescer infinitamente em um planeta finito. Estamos nesse ponto de transição: ou revemos o modelo de desenvolvimento ou comprometemos as próximas gerações.”

O mito de Marte

O astrofísico também ironizou as propostas de colonizar outros planetas. “Marte é um deserto gelado. Sua atmosfera tem 12% da densidade da Terra. Não há vida lá. A ideia de terraformar Marte é um projeto de milhares de anos, um delírio científico. E mesmo que fosse possível, quantos poderiam ir? Cem, mil, talvez um milhão? E os outros oito bilhões ficariam aqui. Não vamos resolver nossos problemas fugindo para o espaço. Temos que resolvê-los aqui, porque são escolhas éticas que precisam ser feitas agora.

Receba notícias
em primeira mão

Acompanhe
nossas
redes sociais