O Teatro Univates ficou lotado nesta noite, 23, para ouvir o físico e astrônomo Marcelo Gleiser, professor no Dartmouth College (EUA), escritor e vencedor do Prêmio Templeton.
Pela primeira vez no Vale do Taquari, ele apresentou a palestra “Reconstruir e Reencantar: Ciência, Consciência e o Cuidado com a Vida”. Durante quase duas horas, a plateia de quase mil pessoas acompanhou conceitos que cruzaram ciência, espiritualidade, história da humanidade e futuro do planeta.
“Só se preserva aquilo que se ama. Precisamos voltar a amar a natureza para que possamos preservá-la.” Para o cientista, as tragédias climáticas vividas pelo Vale em 2023 e 2024 são expressão local de uma crise global.
“Não são eventos isolados, mas sintomas de uma ruptura. Crescemos acreditando que somos mais poderosos que a natureza. Mas não somos. A natureza não é inimiga, é nossa casa.”
Pluralidade de saberes
Gleiser percorreu a história do conhecimento humano. Recordou a tradição do iluminismo europeu, que consagrou a razão como único caminho para a verdade, mas também lembrou de culturas que associavam saber ao sagrado.
“Há muitos caminhos de conhecimento. Os maoris, os povos indígenas, os construtores de Stonehenge e das pirâmides do Egito nos mostram que o saber não é apenas racional. O telescópio Hubble é outro extremo dessa busca, que transformou nossa forma de olhar o universo. E quando olhamos para o cosmos, descobrimos mais sobre nós mesmos.”
Ele destacou o impacto dessa visão
“Somos feitos da poeira das estrelas. Os átomos que formam nossos corpos existem há bilhões de anos, antes mesmo da Terra. Essa é uma metáfora poética e comprovada pela ciência. A conexão com o universo deveria inspirar reverência e humildade.”
“Para nossos antepassados, a natureza era sagrada. A Mãe Natureza, os espíritos das árvores, dos animais. Os rios eram força vital. A sobrevivência dependia da natureza. Hoje, nos distanciamos. Separou-se o sagrado do humano, e a Terra virou objeto.”
Com a agricultura, a mudança
“Plantar foi uma forma de controlar a natureza. O homem domesticou animais, sementes, rios. Mudou a religião também: o Deus que estava na terra passou a habitar o céu. A Terra virou propriedade. Em dez mil anos, transformamos o mundo com feitos grandiosos, mas também com destruição. A pergunta é: como chegamos até aqui? E podemos mudar ou já é irreversível?”
Crescimento infinito
Gleiser citou o aumento populacional como fator crítico. “Em 1918, durante a gripe espanhola, éramos dois bilhões de pessoas. Hoje, somos mais de oito bilhões. Em apenas 100 anos, quadruplicamos. E cada pessoa precisa de alimento, água, energia, transporte. Esse crescimento acelerado trouxe conforto, mas também uma pressão ambiental gigantesca.”
Com o avanço das cidades, do modelo de produção, Gleiser advertiu sobre a impossibilidade do modelo atual. “É impossível crescer infinitamente em um planeta finito. Estamos nesse ponto de transição: ou revemos o modelo de desenvolvimento ou comprometemos as próximas gerações.”
O mito de Marte
O astrofísico também ironizou as propostas de colonizar outros planetas. “Marte é um deserto gelado. Sua atmosfera tem 12% da densidade da Terra. Não há vida lá. A ideia de terraformar Marte é um projeto de milhares de anos, um delírio científico. E mesmo que fosse possível, quantos poderiam ir? Cem, mil, talvez um milhão? E os outros oito bilhões ficariam aqui. Não vamos resolver nossos problemas fugindo para o espaço. Temos que resolvê-los aqui, porque são escolhas éticas que precisam ser feitas agora.

