Mudança. É assim que Aline Valandro, 35, e Veridiana Santos, 37, definem o esporte na vida delas. Motivadas pelo movimento, descobriram a corrida há poucos anos e esse foi o impulso para voltarem a estudar, desta vez, Educação Física, além de criarem o projeto “Mãe que corre”.
Mais do que um benefício para a saúde, a prática de exercícios físicos na vida delas trouxe mudanças. A partir dessa rotina, dizem se sentirem melhores mães e profissionais. E, agora, também incentivam outras mulheres a iniciarem essa transformação. O “Mãe que corre” estreia no dia 11 de maio, às 9h, no Parque Princesa do Vale, em Estrela. Com apoio da prefeitura, a ideia é reunir, em um domingo do mês, mulheres que correm ou querem começar a correr para se exercitar.
“O nome foi pensado na rotina de uma mãe, que é exaustiva e muitas vezes a prática de exercícios físicos acaba ficando em último plano”, destaca Veridiana. Ela afirma que o exercício físico traz a melhora da autoestima, a autoconfiança, não só a saúde física, mas também mental. “Além da mãe se tornar um exemplo também para os filhos, que é a nossa futura geração”. Apesar do público-alvo serem mães, todas as mulheres podem participar, de forma gratuita.
Farmacêutica, Veridiana é mãe de dois filhos. Ela afirma que a corrida trouxe transformação para a vida e a fez iniciar os estudos em Educação Física. As mudanças também foram pessoais. “Desde criança sempre fui uma pessoa muito tímida. Consegui desenvolver muito mais a minha personalidade depois que eu me envolvi com a corrida”.
Aline também iniciou o curso de Educação Física, no caso dela, com a intenção de se tornar treinadora de corrida, com planilhas e acompanhamento dos alunos. Natural de Doutor Ricardo e moradora de Estrela, ela já faz alguns aulões. A manicure é mãe de duas meninas e se sente, hoje, mais segura em todas as funções que desempenha.
“A corrida muda vidas. Ela foi um ponto muito forte na minha evolução pessoal. Como pessoa, como mãe, me trouxe mais coragem e disciplina”.
Prevenção
Os benefícios da atividade física são estudados e reconhecidos pela ciência, equiparando-se, em muitos casos, às vantagens oferecidas por fármacos. De acordo com o professor e coordenador do curso de Educação Física da Univates, Leonardo De Ross Rosa, “a atividade física tem um impacto significativo na prevenção e tratamento de diversas doenças, além de ser economicamente mais acessível e sem efeitos colaterais comparados aos medicamentos”.
Segundo o profissional, o sedentarismo é uma grande preocupação de saúde pública. Estudos indicam que a inatividade está diretamente ligada a pelo menos 26 doenças, incluindo cardiopatias, diabetes e obesidade. Apenas 90 minutos semanais de atividade física podem reduzir em 20% o risco de morte prematura, conforme explica Rosa.
O educador físico destaca que, embora a motivação pessoal seja essencial, a promoção da atividade física precisa de um esforço coletivo. “Não pode depender apenas da iniciativa individual. O poder público deve atuar na criação de ambientes que favoreçam a prática”, reforça. Ruas caminháveis, espaços verdes acessíveis e infraestrutura adequada estimulam a população a se movimentar mais. Rosa afirma que a estrutura das cidades influencia diretamente os níveis de atividade física da população. Na tese de doutorado, ele analisou o impacto dos espaços públicos na prática esportiva em alguns municípios da região.
Segundo a pesquisa, a realidade da região é positiva. Em Lajeado, por exemplo, dois terços da população é ativa, enquanto em Roca Sales, 81% dos idosos mantêm uma rotina de exercícios.
Empresas que incentivam a prática esportiva entre seus colaboradores também registram menor afastamento por doenças e maior produtividade. “A liberação de neurotransmissores melhora o humor e a cognição, tornando os profissionais mais eficientes e motivados”, observa.
Esporte e socialização
A prática deve começar na infância e perdurar, sendo prioridade também na terceira idade. Com ou sem adaptações, esportes também podem ser praticados e viram um espaço de socialização. No grupo de câmbio de Lajeado, iniciativa, hoje, da prefeitura, é assim.
Luís Antônio Sulzbach, 55, é o professor do grupo. Ele explica que o câmbio é uma adaptação do vôlei, em que é permitido segurar a bola para jogá-la ao outro lado da rede. A iniciativa é gratuita. Os encontros ocorrem todas as terças-feiras, das 14h às 16h.
Para o professor, esse é um esporte benéfico para a saúde, para o bem-estar físico e mental. “Qualquer tipo de modalidade esportiva traz benefícios para a saúde. E nessa atividade não há tanto impacto, a dinâmica é mais lenta”, destaca.
O grupo surgiu há 14 anos e teve como uma das primeiras integrantes, Fátima Pereira, 68. Ela conta que o time foi criado no Sesc. Depois, passou a ser um grupo particular até a prefeitura assumir. Com atletas de diferentes idades, os integrantes também vêm de outros municípios para participar.
“Toda terça-feira estamos aqui. É uma tarde descontraída. O esporte em si, a amizade, a turma é muito legal, sempre foi assim o companheirismo do pessoal. O que me faz continuar são as amizades”, conta.
Tornar hábito
O educador físico do Sesc, Cássio Rauber, destaca benefícios do exercício físico, como a melhora da função cardiovascular, fortalecimento dos músculos, além de auxiliar no controle do peso, na redução dos riscos de doenças crônicas e melhora da saúde mental.
A construção do hábito de se exercitar começa cedo. “A educação física escolar é fundamental para incentivar a atividade desde a infância e mantê-la ao longo da vida”, destaca Cássio. Para crianças, a melhor estratégia é associar o exercício à brincadeira, permitindo que elas desenvolvam suas habilidades motoras e cognitivas de forma natural. Na adolescência, atividades em grupo são uma excelente opção para manter o interesse e a adesão, reforça.
De acordo com ele, não existe um único tipo de exercício ideal. A melhor opção é aquela que proporciona prazer e que pode ser mantida a longo prazo.
ENTREVISTA
Dr. Jamil Barghouti, médico ortopedista, especialista em joelho e traumatologia do esporte
“O exercício melhora a qualidade de vida e a longevidade da população”
Qual é o papel do exercício físico na prevenção?
A prevenção é muito mais barata do que o tratamento. Como profissionais da saúde, nosso papel é tanto curar quanto prevenir, mas prevenir é fundamental. A medicina tem avançado na cura de doenças como câncer, diabetes e hipertensão, mas muitas dessas doenças poderiam ser evitadas com mais orientação e incentivo à prática de atividades físicas. A atividade física melhora a condição do músculo cardíaco, a capacidade respiratória, a função renal e a densidade óssea. Isso reduz o risco de fraturas, fortalece os órgãos e melhora sua funcionalidade. Além disso, aumenta a produção de citocinas e linfócitos, fortalecendo o sistema imunológico.
O incentivo aos exercícios pode impactar o sistema de saúde pública?
Em países que incentivam a atividade física, observamos menos internações hospitalares e uma redução nos custos com saúde. O exercício melhora a qualidade de vida e a longevidade da população. A obesidade pode afetar a autoestima, levando a menor produtividade. Por outro lado, quem pratica exercício tem mais energia, busca desafios e leva essa atitude para o trabalho.
Como iniciar uma rotina de atividades físicas com segurança?
O ideal é começar de forma gradual. Pessoas obesas, por exemplo, devem iniciar com caminhada, academia ou natação antes de tentar corridas longas. Também é fundamental utilizar calçado adequado e escolher terrenos apropriados. Para quem tem alguma limitação, é possível adaptar a atividade. Procurar a natação para ter menos impacto, por exemplo.