Caos logístico faz mobilidade regional regredir aos tempos de “colônia”

COLAPSO NO VALE

Caos logístico faz mobilidade regional regredir aos tempos de “colônia”

Problemas em rodovias resultam em desvios e longas rotas alternativas, elevam custos ao setor e abalam economia local. Desafio é reconstruir pontes e acessos em um curto tempo para restabelecer ligações e projetar investimentos futuros para diminuir dependência de trechos como a BR-386

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Caos logístico faz mobilidade regional regredir aos tempos de “colônia”
Queda na ponte da ERS-130 entre Lajeado e Arroio do Meio colapsa o acesso com cidades da região alta FOTO - ALDO LOPES
Vale do Taquari
Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Pontes destruídas. Ruas e estradas danificadas. Asfalto arrancado de trechos pavimentados. Ferrovias impactadas. Dentre os efeitos devastadores da enchente histórica do começo deste mês, o caos logístico é um dos que mais impressiona e dificulta a retomada do Vale do Taquari. É como se a região tivesse regredido aos tempos de “colônia” em determinadas localidades.

Um dos grandes desafios às autoridades públicas e privadas neste pós-catástrofe se apresenta na reconexão entre cidades. Muitas ligações, hoje, estão comprometidas ou nem existem mais. Caso da ponte da ERS-130, entre Lajeado e Arroio do Meio. Nada restou da estrutura, arrastada pela força das águas do Rio Forqueta, no dia 2 de maio.

Da Ponte de Ferro, histórica estrutura e cartão-postal da região, sobrou uma pequena parte. Ao menos a travessia de pedestres foi amenizada nos últimos dias. Primeiro, com barcos, balsa e botes do Exército. Mais recentemente, a construção de uma passadeira facilitou a passagem por terra das pessoas entre um município e outro.

O estrago poderia ter sido ainda maior. A ponte sobre o Rio Taquari, na BR-386, resistiu e virou símbolo da força da região e sinônimo de esperança de dias melhores. Ainda que o fluxo de veículos não esteja normalizado na rodovia, as perspectivas são de uma liberação total nas próximas semanas, a depender também de avaliações técnicas.

Transtornos e custos elevados

Uma viagem de menos de 15 minutos, mas que hoje leva quase duas horas. Ir de Lajeado a Arroio do Meio (e vice-versa) nunca pareceu tão desafiador após a queda da ponte da 130. Esse é um dos vários problemas decorrentes do caos logístico dos últimos dias no Vale do Taquari e no RS.

Diretor de logística da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT) e vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logística do RS (Setcergs), Diego Tomasi, estima um aumento de 30% no custo das transportadoras nas últimas semanas, em virtude dos problemas logísticos no Estado.

Cita dois problemas que o setor enfrenta, sendo o mais impactante a questão das rodovias. “Os bloqueios nas principais estradas do RS aumentaram muito a distância percorrida, devido aos desvios de rota. Além disso tem os congestionamentos, como ocorre na ponte do RIo Taquari. O custo logístico está muito maior devido a essa situação”, frisa.

Volume menor

O outro problema apontado por Tomasi é o impacto das cheias sobre clientes das transportadoras. “O volume de cargas disponíveis para serem transportados no RS teve uma redução significativa e importante. Ou seja, ao mesmo tempo em que o custo aumenta, as cargas diminuem. Isso é muito negativo para o setor”.

Como alternativa, neste primeiro momento, destaca a existência das rotas alternativas – embora o custo seja maior –. E, principalmente, a movimentação da Setcergs junto à classe política para que as ligações destruídas ou parcialmente afetadas sejam restabelecidas o mais rápido possível.

“Entendemos o motivo de catástrofe, mas agora não podemos perder para a burocracia. Uma ponte que poderia ser recuperada em um mês não pode demorar meio ano, um ano. Precisamos de ações efetivas e rápidas”.

Diego Tomasi afirma que o volume de cargas disponiveis para serem transportadas no RS teve um redução significativa

Estruturas elevadas

Um debate necessário em meio ao caos logístico é sobre as novas pontes que serão planejadas, ou das estruturas a serem reconstruídas. A perspectiva é de que, com a enchente histórica de maio, as futuras travessias tenham uma elevação.

“Essa grande catástrofe mostra a importância de termos estruturas e obras viárias bem resistentes. Essa ponte entre Lajeado e Arroio do Meio jamais poderia ter caído. É preciso investimentos mais consistentes, pois podemos ter novas enchentes como essa”.

A engenheira civil e especialista em pontes, Rebeca Schmitz, aponta para a necessidade de projetos bem elaborados que considerem o impacto da cheia histórica. Em Lajeado, o nível do Rio Taquari chegou a 33,35 metros na tarde do dia 2 de maio, a maior marca em 150 anos.

“Quando se faz projeto de uma ponte, é preciso considerar a cota de cheia do rio. A partir disso, se faz uma análise de todo o histórico desse rio. E a ideia é que se trabalhe com uma enchente com probabilidade de ocorrer uma vez em 100 anos”, afirma.

Alternativas

As imagens da ponte sobre o Rio Taquari praticamente submersa assustaram a comunidade. Ainda que a estrutura tenha se mantido em pé, mostrou que o Vale não pode continuar dependente de apenas uma travessia no trecho de maior movimento de veículos de toda a região. É preciso pensar em alternativas.

A construção de uma segunda ponte entre Lajeado e Estrela, algo há anos, de voltar ao centro das discussões. Seja entre os gestores públicos ou em representantes da iniciativa privada e da sociedade civil, as conversas existem.

“Aqui está a prova. Quem chega a região hoje, se chegar pela BR-386, não dá. Se nós quisermos continuar falando em Vale do Taquari, temos que olhar para a frente”, afirma o prefeito de Estrela, Elmar Schneider.

Segundo ele, Lajeado e Estrela devem se unir para liderar um projeto junto ao governo federal. “No mínimo vamos começar com o projeto. Não estou dizendo que os municípios precisam pagar ele, mas temos que começar a definir algumas prioridades. Uma delas é a necessidade clara de termos mais uma opção”.

Seis meses

A Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) projeta entregar a ponte da ERS-130, entre Lajeado e Arroio do Meio, em seis meses. A partir de novas análises a estatal reduziu a estimativa, que antes era de oito meses. A autarquia está em fase final de preparação para publicar a licitação para reconstrução da estrutura.

Mais detalhes sobre a obra devem ser anunciados pelo governador Eduardo Leite, que cumpre agenda no Vale do Taquari neste sábado, 18. Um dos locais a serem visitados é justamente o ponto onde houve a queda da estrutura.

Há exemplos bem sucedidos de pontes construídas em tempo recorde no RS. Em janeiro de 2010, a ponte sobre o rio Jacuí na RSC-287, em Agudo, veio abaixo após um período de sucessivas chuvas e elevação do nível do rio. A obra da nova estrutura iniciou três meses depois e a conclusão ocorreu em dezembro daquele ano.

Prefeito de Estrela, Elmar Schneider, afirma que é necessário pensar em ligações e rotas alternativas ao Vale do Taquari

Outros modais

Não foi só a malha rodoviária da região que acabou castigada pela enchente. O imponente Porto de Estrela, em um momento de avanços nas tratativas pela municipalização, foi devastado. Pouco sobrou da estrutura que também sedia eventos como a Multifeira. O Aeródromo Regional de Estrela também sofreu danos profundos.

Para Diego Tomasi, o cenário de destruição nestes espaços não pode enfraquecer a discussão sobre o fortalecimento de outros modais no Vale do Taquari. Por isso, entende que é possível alternativas para as duas situações.

“O alerta é que esses modais precisam ser projetados para suportar enchentes. O Aeródromo pode ser trocado de endereço, mas o Porto talvez necessite de uma estrutura de contenção que o faça resistir. Não dá para desistir deles”.

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