Sistema de alerta atual não contempla necessidade do Vale

PENSAR O VALE PÓS-ENCHENTE

Sistema de alerta atual não contempla necessidade do Vale

Sete meses após desastre, ferramenta do Estado para monitoramento das cheias não evoluiu, apontam gestores e MP. Alarmismo e desinformação preocupam municípios. Governo federal promete implementar tecnologia em âmbito nacional até o fim de maio

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Sistema de alerta atual não contempla necessidade do Vale
Mensagens recebidas nos últimos dias assustaram moradores sobre possíveis inundações na região. (FOTOS: Mateus Souza)
Vale do Taquari

Avanços tímidos e necessidade de uma leitura mais rápida e eficaz. O sistema de alerta e monitoramento de enchentes da Defesa Civil ainda está longe de ser considerado o ideal por gestores na região. Além disso, episódios recentes de mensagens alarmistas sobre inundações que não se confirmaram colocam em xeque o trabalho de conscientização.

Nos últimos dias, moradores de cidades do Vale receberam SMS encaminhadas pela Defesa Civil, onde foram informadas sobre um fenômeno de chuva que poderia resultar em alagamentos em cheias. No entanto, a mensagem não detalhava sobre quais os municípios e rios seriam atingidos.

A desinformação preocupa autoridades. O promotor Sérgio Diefenbach, da Promotoria de Justiça Regional do Meio Ambiente da Bacia Hidrográfica dos Rios Taquari e Antas, tem participado de sucessivas reuniões sobre o tema. E, desde a cheia histórica de setembro do ano passado, não percebe evoluções no sistema.

“É isso que nós estamos dizendo ao Estado. O sistema atual não nos satisfaz, e em alguns momentos, penso que não há a compreensão disso”, frisa o promotor. Para ele, a tecnologia existente hoje é capaz de fazer projeções mais assertivas sobre as enchentes.

Em nível estadual, a Defesa Civil tenta qualificar a informação às comunidades por meio das mensagens de celular. Um teste será feito em Muçum e Roca Sales, possivelmente em junho. Já, no país, o governo federal anuncia a implementação de um sistema de alerta nacional, com previsão de entrega até o fim de maio.

Documento norteador

Diefenbach compara a situação uma leitura de jornal, que pode ser feita de forma superficial, com ou sem óculos, ou uma leitura mais minuciosa com um óculos de qualidade. “É disponibilizar ferramentas que possam fazer a análise rápida e devolver para a base, que é a Defesa Civil local, regional, a imprensa e a comunidade. Na nossa modesta avaliação, o Estado está demorando”.

Dentro deste contexto, volta a defender agilidade na elaboração de um termo de referência, ainda sem previsão de ser entregue pelo governo gaúcho. “Esse documento vai apontar a importância da contratação de uma empresa que faça medição de pluviômetros, que instale e mantenha sistemas”.

Na reunião de segunda-feira passada, na Univates, Diefenbach cobrou o Estado – representado pelo secretário executivo do Gabinete de Crise Climática, Pablo Palma – sobre o plano. “Sabemos que não há má vontade de ninguém, mas um comitê de crise, depois do que ocorreu, ter se reunido apenas duas vezes é muito pouco”.

População desacreditada

Em Colinas, moradores relataram à Defesa Civil local o recebimento de mensagens, por parte de um instituto de meteorologia, em tom alarmista sobre uma possível enchente. O fato chamou atenção do prefeito Sandro Herrmann, que teme um descrédito nas pessoas em episódios futuros de cheias.

“Não sei por onde se basearam, mas isso causou alvoroço nas pessoas. Aí, acaba não acontecendo (a cheia) e desacreditam a informação. É um risco grande para episódios futuros. Não pode cair em descrédito”, pontua.

No caso de Colinas, Herrmann lembra que, por se tratar de uma cidade pequena, a população tem acesso mais facilitado à Defesa Civil. “Isso nos tranquiliza. Como fomos precisos nas informações das últimas cheias, as pessoas confiam mais”.

De cima para baixo

Defesa Civil mantém como referência dos níveis dos rios o site da CPRM

Enquanto não recebem do Estado sistemas ou materiais mais qualificados ou avançados para o monitoramento de cheias, as Defesas Civis dos municípios seguem dependentes das informações disponibilizadas pelo Serviço Geológico do Brasil, no site da CPRM.

“Entendemos que o monitoramento tem que partir do Estado, para que possamos replicar nas cidades e passar as informações com segurança. Não adianta eu ter algo muito sofisticado aqui e nos demais locais, não. É algo que vem de cima para baixo”, lembra o coordenador da Defesa Civil de Lajeado, Gilmar Queiroz.

Ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade de evolução, destaca movimentos isolados, como o de Lajeado, que firmou parceria com a agência norte-americana USAID para a capacitação de agentes e voluntários. “Quanto mais recursos tivermos para passar a população, melhor”.

Ações estaduais

  • Na segunda-feira, durante reunião na Univates, o governo do RS fez anúncios voltados a qualificação do serviço de monitoramento e mapeamento de enchentes. Uma das iniciativas é a compra de um radar meteorológico;
  • Já a Sala de Situação, órgão ligado à Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do RS (Sema), será ampliada. No entanto, não foram dados detalhes dos investimentos a serem feitos;
  • Ainda, foi informado sobre um teste com um novo modelo de sistema de alerta por SMS, que ocorrerá em Muçum e Roca Sales. A data ainda não foi definida, mas deve ocorrer em junho.

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