Arlindo Baldo, uma referência empreendedora à frente da Baldo SA

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Arlindo Baldo, uma referência empreendedora à frente da Baldo SA

Empresário de 86 anos lidera a maior exportadora de erva-mate do Brasil

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Atualizado quinta-feira,
11 de Março de 2024 às 13:52

Arlindo Baldo, uma referência empreendedora à frente da Baldo SA
Ainda criança, Arlindo auxiliava o pai nas tarefas da propriedade, no interior de Vespasiano Corrêa (Foto: Diogo Fedrizzi)
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“Sou um cara comum, dei um pouco de sorte”. A frase sintetiza o comportamento humilde e discreto do empresário Arlindo Plácido Baldo, 86, presidente da Baldo SA, Comércio, Indústria e Exportação. A empresa, cuja matriz se localiza em Encantado, é a maior exportadora de erva-mate do Brasil.

A origem volta à década de 1920, quando os irmãos João (pai de Arlindo), Antônio e Luiz Baldo eram proprietários de uma fábrica de produção artesanal da folha no interior de Vespasiano Corrêa, na época distrito de Guaporé. “Desde jovem entendi o processo da erva-mate, sabia como fazia, o gosto que tinha, qual o tipo preferido nas diferentes regiões, os melhores locais para se comprar matéria-prima, a mescla que se deve fazer. É um know-how nosso de décadas”, explica Arlindo.

Passados mais de 100 anos, a Baldo administra unidades em Encantado, onde também atua na industrialização da soja, Canoinhas-SC, São Mateus do Sul-PR, onde opera a fabricação da linha Chá Mate, Prudentópolis-PR e Palmeira de Goiás-GO. São mais de 500 colaboradores diretos. A organização ainda tem o comando acionário da renomada marca Canárias, no Uruguai, um dos maiores mercados da Baldo. “Dos 30 milhões de quilos de erva-mate que o Uruguai compra, só nós vendemos 20 milhões”, destaca.

Com 3 anos, Arlindo perdeu a mãe

Caçula de uma família de 11 filhos, sete mulheres e quatro homens, Arlindo nasceu no dia 31 de julho de 1937 na comunidade de Linha Alegre, interior de Vespasiano Corrêa. A perda precoce da mãe, quando ele tinha 3 anos, transformou a rotina da casa. O pai e as irmãs assumiram a responsabilidade pela sua criação. “Eu chegava a dormir na cama do pai, que zelava por mim durante o sono”, relata. Aliás, embora não guarde lembranças da convivência com Dona Angelina Zílio, ao longo da vida Arlindo acostumou-se a ouvir relatos elogiosos a respeito do comportamento da mãe. “Ela era uma pessoa fantástica. Ia até a casa dos poloneses que colonizaram a região e ensinava-os a fazer casamento, o tipo de roupa usar, como preparar os doces”, conta.

João, o pai, era proprietário de um grande armazém, referência na localidade, pois vendia de tudo, desde balas, cachaça, roupas, sapatos, chapéus, tecidos, alimentos e até produtos farmacêuticos. “Ele era o empreendedor! Uma pessoa que apenas serviu o Exército, aprendeu a tocar trombone, e tinha uma verdadeira potência de terras, de negócios. A loja atendia o território onde hoje está o Viaduto 13. Famílias de poloneses, além de clientes, eram fornecedoras de produtos para o estabelecimento”, salienta Arlindo. A imponente casa de madeira, de dois pisos, também era ponto de parada para viajantes, que aproveitavam para almoçar com a família Baldo. “Tínhamos uma mesa enorme. Enchia de pessoas para comer. Na ponta ficava o pai, e eu sentava ao lado”.

De madrinheiro a caminhoneiro

Arlindo passou a ter uma relação cada vez mais próxima com Seu João, atitude que lhe serviu de inspiração para almejar um futuro de sucesso como empreendedor. Tão logo concluiu os estudos do ensino primário, recebeu algumas tarefas para auxiliar nos trabalhos da propriedade. “Com 10 anos, acompanhava um dos peões na condução da tropa de mulas. Eu era o madrinheiro, ia na frente com meu cavalinho. Descíamos a área do Viaduto 13 para carregar feijão-preto. Eram 20 mulas, uma presa na outra”, lembra.

Aliás, a lida com os cavalos era uma das paixões dos Baldo. “As corridas em linha reta eram nossas diversões. Eu era um bom cavaleiro. Mas meu irmão e o pai levavam a coisa com mais seriedade. O cavalo do pai, o Trípoli, era um animal grande, participava de corridas de alto nível na época”.

Arlindo brinca que a primeira promoção que recebeu do pai foi quando passou de madrinheiro para motorista de caminhão, um Ford 1946. “Era um guri de 12 anos, mas naquele tempo não havia risco de acidentes nas estradas. Pegava o caminhão e saía pelos matos com os peões para buscar lenha para secar a erva-mate ou produtos fornecidos pelos colonos”, lembra o empresário, que aprendeu a dirigir na camionete Dodge do Seu João. “Ela ficava estacionada no porão. Eu ligava a chave, trocava a marcha e andava ‘para frente, para trás’, até pegar o jeito”, recorda.

Além do armazém, a fábrica de erva-mate era outro negócio importante da família. E Arlindo, ainda adolescente, ia a Porto Alegre acompanhado de um motorista para comercializar o produto. Numa dessas viagens, vivenciou uma cena que levou como ensinamento de vida. “Estávamos descarregando o caminhão em um supermercado grande, chamado Paulo Feijó e Cia Ltda. Um frio danado. E o dono chegou até mim e disse: ‘você é o filho do João Baldo? Venha comigo’. Eu envergonhado. Ele me levou para seu escritório, me serviu café. Um sujeito educado, inteligente, um cara fenomenal. Até hoje não esqueço. Aquele gesto me inspirou e me fez ver como se deve tratar uma pessoa”, salienta.

A compra da fábrica do pai

Ao perceber que a fábrica não conseguia mais produzir o suficiente para atender a demanda dos clientes, que aumentava consideravelmente, Arlindo propôs ao pai investir na reforma da indústria com a aquisição de equipamentos novos. A resposta negativa de Seu João fez com que o filho colocasse uma condição. “Falei para ele, ‘ou o senhor vende a fábrica para mim e me dá um prazo para pagar, ou vou estudar e desisto da erva-mate’, provocou Arlindo, que chegou a visitar um colégio em Guaporé antes de o pai ceder e aceitar a proposta.

“Ele só me fez um alerta: ‘não coloca dinheiro fora’. Meu pai era duro, mas muito justo, consciente, ajudava as pessoas. Tentei herdar o melhor possível dele”, reconhece Arlindo, que na época não tinha idade para ser proprietário de empresa e por isso precisou ser emancipado. Com 17 anos, assumiu o comando da sua primeira firma individual, Arlindo Plácido Baldo. “Fabricava a erva-mate chamada pura folha. Logo reformulei as embalagens e fui tocando o negócio”.

Potencial de mercado na fronteira

Após um tempo, Arlindo transferiu a indústria de Linha Alegre para a área central de Vespasiano Corrêa, onde construiu uma estrutura nova. O segmento da erva-mate pura folha era mais promissor na fronteira do RS. Por indicação de um ervateiro conhecido da parte alta do Vale, Arlindo viajou a Bagé para se acertar com Martin Bento Alves para ser o representante da marca Baldo na região. “Saí de avião de Porto Alegre, um modelo Douglas, da Varig, até Alegrete. De lá, fui de ônibus para Quaraí, Artigas (Uruguai), Santana do Livramento até chegar a Bagé. Depois me desloquei a Pelotas, Rio Grande e Santa Vitória do Palmar. De uma só vez, fiz toda aquela região. Em Bagé, foi uma loucura o que vendemos de erva-mate! O Martin era muito respeitado, tinha fácil acesso”, afirma.

A exportação

Já com uma filial instalada em Carazinho, a dificuldade de encontrar matéria-prima no RS fez com que Arlindo buscasse os mercados de Santa Catarina e Paraná. Em território catarinense, adquiriu outra fábrica, que mandava a erva-mate pelo trem para o RS.

Arlindo começou a se interessar pela exportação e intensificou os negócios no Paraná, onde havia erva-mate de ótima qualidade. Porém, a comercialização para o RS era proibida. Inconformado, o jovem empresário contatou lideranças de entidades como a Federação das Cooperativas de Erva-Mate, em Curitiba-PR, e o Instituto Nacional do Mate, no Rio de Janeiro, onde conseguiu autorização para exportar apenas o produto industrializado do Paraná para o Uruguai. Mais tarde, já como presidente do Sindicato da Indústria do Mate (Sindimate-RS), ele também pleiteou com sucesso que a indústria gaúcha tivesse cota de exportação para o Uruguai. “Ali conseguimos entrar no mercado uruguaio”.

Sociedade Anônima

Na década de 1970, após avaliar a movimentação do mercado ervateiro, Arlindo mobilizou familiares e constituiu a Baldo Sociedade Anônima (SA), já com a sede principal da indústria em Encantado. “Começamos com sete acionistas. Hoje são 30. Temos uma harmonia fantástica, o que me deixa muito feliz”, diz o empresário, ao mesmo tempo em que revela três valiosas dicas para quem tem o sonho de empreender. “Não se endivide, não tenha pressa para aumentar o patrimônio e não sonegue impostos”, sugere.

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