Azeite gaúcho conquista o mundo

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Azeite gaúcho conquista o mundo

Rio Grande é o maior produtor de azeite de oliva do Brasil e cidades como Encruzilhada do Sul se destacam com investidores da região. No Vale do Taquari, condições do solo e clima dificultam, mas não inviabilizam o cultivo

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Atualizado sábado,
17 de Fevereiro de 2024 às 09:22

Azeite gaúcho conquista o mundo
Encruzilhada do Sul incentiva a olivicultura e é lá que fica a fazenda da família Giovanella, que produz a Olivas da Lua. (Fotos: André villeroy e luana giovanella/divulgação
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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Na Cordilheira de Encruzilhada do Sul, pai e filha criaram uma fazenda de oliveiras que vem ganhando destaque no estado. Darci Giovanella e Luana Giovanella têm raízes no Vale do Taquari, mas fizeram crescer seu olival na Serra do Sudeste do estado, onde encontraram clima propício. A primeira safra foi em 2019 e, depois de cinco anos, o azeite produzido sob o rótulo de Olivas da Lua, foi premiado entre os 100 melhores azeites de oliva do mundo.

O rótulo ficou entre os maiores produtores do setor, que se destacam na Espanha, Itália e Grécia. No Brasil, a cultura se encontra 10 mil hectares de área plantada, tendo o Rio Grande do Sul como maior produtor.

Luana conta que o negócio surgiu anos antes da primeira muda ser plantada. Foi em 2015, durante uma viagem ao Uruguai. “Nós vimos um plantio de oliveiras e aquilo me tocou de uma maneira que eu não esperava. Aquelas árvores balançando. Eu disse: Está aí uma coisa que faria na minha vida. Meu pai respondeu: Eu também. Me aposentaria fazendo azeite de oliva”.

Além do plantio, a extração do azeite também é feita na fazenda de Darci e Luana Giovanella (foto à direita) em Encruzilhada do Sul

Luana ficou curiosa e decidiu se aprofundar no assunto. Cada nova descoberta, compartilhava com o pai. “Como era uma coisa muito nova e como meu pai tem uma ligação com a agricultura muito forte desde criança, a gente se conectou com o projeto”, conta.

Na época, o estado já tinha alguns produtores e a família trouxe um consultor da Itália para avaliar as melhores terras para a produção. A ideia era iniciar o plantio em Tamanduazinho, na propriedade onde Darci nasceu. A condição do solo e do clima, no entanto, deixou pai e filha inseguros. Optaram, então, por Encruzilhada do Sul, que incentiva a olivicultura.

“Encontramos lá um lugar no estado com muitos fatores positivos, um solo mais bem drenado, com boa altitude e mais horas de frio intenso no inverno, os quais são aspectos primordiais na produção de azeitonas”.

Variedade nos sabores

Existem mais de 2 mil variedades de azeitonas no mundo e cada uma tem seu sabor. Entre o que difere cada espécie, estão características como amargor, frutado, herbáceo, picância, doçura entre outros.

Nos quase 300 hectares que compõem a fazenda da família Giovanella, são plantadas 13 variedades de olivas, entre italianas, portuguesas e espanholas. As mais comuns são a Frantoio (Italiana), Koroneiki (grega), Picual (espanhola) e a Arbequina (espanhola).

Além do plantio, a extração também é feita na fazenda, dentro do lagar – local onde se separa a parte líquida e sólida do fruto. Luana destaca que o ponto certo de colheita e a extração imediata são essenciais para a qualidade do azeite.

O controle de pragas como as formigas são alguns dos desafios que a família enfrenta na produção, mas Luana diz que as oliveiras são plantas resilientes. Em função do excesso de chuvas durante a floração, as árvores perderam muitas flores e a safra deste ano pode não ser tão farta quanto o esperado para a maioria dos produtores do estado. Mesmo assim, Luana e o pai comemoram a colheita de uma safra recorde em uma das fazendas.

Região com menos atrativos

Engenheiro agrônomo e especialista da Emater-RS/Ascar, Marcos Schafer destaca que apesar das dificuldades, a região possui solos variados e muitos deles podem ser adaptados para o cultivo de oliveiras. “A característica principal do solo para olivicultura é o pH que deve ser corrigido, pois nossos solos são ácidos naturalmente”, afirma.

Além disso, o solo precisa ser bem drenado. “As oliveiras são oriundas de terras secas e assim se adaptaram a estas características não suportando solos mal drenados”, reforça Schaefer.

Em relação ao clima, o técnico destaca que o Vale do Taquari está em uma região pouco ideal ao cultivo, em função da alta umidade relativa do ar e tempo muito úmido no período de florescimento.

Ainda, como a oliveira tem polinização pelo vento e não por insetos, o tempo seco é importante para transportar o pólen das flores de uma árvore para a outra. “Mesmo assim, os microclimas de diversas localidades permitem a produção, especialmente em anos de tempo mais seco na floração”.

Desafios no solo

A produção de oliveiras é pequena na região, baseada em iniciativas empresariais em alguns municípios. Um exemplo é a fazenda de Marco Antonio Fontana e da esposa Vera Lucia Fontana, em Teutônia. O produtor tem uma pequena propriedade no bairro Boa Vista, onde testa o cultivo de oliveiras para fins de produção de azeite extra virgem. A experiência já completa uma década.

“Estamos experimentando, aprendendo e insistindo neste cultivo. Sabemos que geograficamente estamos fora do mapa indicado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) para tal fim”, diz Fontana.

O produtor conta que só a partir do 7º ano de cultivo obteve as primeiras frutas e a frutificação aumenta gradativamente. Mesmo assim, abaixo do que o necessário para a produção. “Acabamos de colher a safra de 2023, que em função das alterações climáticas, entre outras questões, resultou em poucas frutas”, lamenta.

Produção de oliveiras é pequena na região, baseada em iniciativas empresariais como a fazenda de Marco Antonio Fontana no bairro Boa Vista, em Teutônia. (DIVULGAÇÃO)

Sem o volume mínimo de frutos para sustentar o negócio, ainda não há vendas do azeite produzido na fazenda. “Até aqui tem sido uma atividade terapêutica. Esperamos que nos próximos anos se consolide a expectativa de volume. Quanto à qualidade, está satisfatória”, garante.

Estado é o maior produtor do Brasil

A abertura oficial da colheita de olivas no Rio Grande do Sul ocorreu na sexta-feira, 16, no Parque Olivas de Gramado. O estado se destaca por abrigar a maior área plantada de oliveira e ser o principal produtor de azeite de oliva do Brasil. Já a destinação das azeitonas produzidas em solo gaúcho para conserva ainda não é uma atividade significativa entre os produtores.

Segundo o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), o RS possui 6,5 mil hectares de área plantada, abrangendo 112 municípios, 360 produtores e 102 marcas. Na safra 2021/2022, o Estado produziu 448 mil litros de azeite.

A área plantada com oliveira no estado tem crescido a cada ano. Embora a oliveira tenha se adaptado bem às condições do solo e do clima gaúcho, e mesmo com a produção expressiva nos últimos anos, o Brasil ainda é dependente desse produto e, entre 2019 e 2020, importou 104.179 toneladas de azeite de oliva.

Produção em números

  • O RS tem 6,5 mil hectares de oliveiras em 112 municípios e 360 produtores.
  • As principais variedades são Arbequina (espanhola) e Koroneiki (grega).
  • Há 102 marcas registradas, 20 lagares (locais para extração do azeite) e 16 deles recebendo turistas.
  • O setor investiu cerca de R$ 500 milhões nos últimos anos e gera 2 mil empregos diretos no RS.

Entrevista
Paulo Lipp • Coordenador do Programa Estadual de Desenvolvimento da Olivicultura (Pró-Oliva) da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi)

“É uma atividade que pode durar 100, 150 ou 200 anos”

Como você avalia a produção no estado?

O crescimento da olivicultura no estado realmente foi impressionante. Dentro da fruticultura, nos últimos 15, 18 anos, foi a espécie frutífera que mais foi plantada aqui no Rio Grande do Sul. A gente começou do zero, praticamente, ali por 2005, e hoje estamos aí com 6,5 mil hectares aproximadamente. Então, um crescimento realmente espantoso. Feito, na grande maioria, por empresários, investidores, que muitas vezes não eram do ramo da agricultura, mas viram na olivicultura uma alternativa de investimento, porque o mercado existe. O Brasil é um grande importador de azeite de oliva, nós importamos em torno de 100 milhões de litros de azeite por ano e não estávamos produzindo nada. Também se pensa muito na ligação da olivicultura com o turismo receptivo, já visto na serra.

Qual a sua avaliação sobre a safra deste ano em relação aos anos anteriores?

A nossa primeira produção comercial de azeite foi ali por 2010, depois de 2012, que teve um pouco mais de produção. Ela ainda é pequena, mas cresceu. No ano passado, nós chegamos no melhor ano aqui no Rio Grande Sul, com 580 mil litros de azeite. Foi um ano recorde. Esse ano já as condições climáticas, El Niño, muita chuva na primavera, umidade, pouco frio no inverno e muitos ventos faz com que a produção caia em relação ao ano passado, como em outras frutas também.

Como iniciar uma produção?

É uma atividade que não é pra todo mundo, já que exige muito tempo de retorno financeiro, 10 anos ou mais para conseguir retirar o seu capital, então a pessoa tem que estar consciente disso. Por outro lado, é uma atividade que pode durar 100, 150 ou 200 anos, porque as árvores das oliveiras têm esse tipo de duração no pomar. Também tem que ser muito bem planejada a questão da implantação, porque a oliveira exige um terreno muito bem preparado em termos de correção de acidez com calcário, adubação. As variedades que você vai plantar, que são de origem espanhola, grega ou italiana. Depende da região, a maior região do estado, hoje, com oliveiras é a Serra do Sudeste. O RS também tem viveiros que produzem as plantas. A Secretaria da Agricultura tem um portal com técnicas que podem auxiliar o produtor.

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