A baleia

Opinião

Jandiro Koch

Jandiro Koch

Escritor

Colunista do Caderno Você

A baleia

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Sempre em Porto Alegre. Para assistir a um filme que valha a pena, raramente é possível em Lajeado. Há muitos anos, argumentaram que as películas eram distribuídas conforme o perfil da população. Resposta a um questionamento feito por e-mail. Uma provocação aos vale-taquarienses? Passei a pensar em mediocridade, porque a grade sempre estava preenchida com infantis e terror.

Mas tem como sentir o prazer de estar em uma sala com boas escolhas não tão longe daqui. Recentemente, acompanhei dois dos registros cinematográficos mais marcantes na minha trajetória de cinéfilo na capital gaúcha. “Close”, dirigido por Lukas Dhont, é um clássico incomoda-ultradireita. Tratar de temas sensíveis a partir do olhar de crianças e adolescentes não é novidade. “Minha vida em cor de rosa”, de Alain Berliner; “Tomboy”, de Céline Sciamma; e “Encantadora de baleias”, de Niki Caro, já o fizeram.  Mas a abordagem pode ser. Não sem razões, foi indicado ao Oscar 2023 na categoria de Melhor Filme Internacional. Concorre com outras joias. Para o horror dos conservadores, deveria ser obrigatório nas escolas.

O outro é “A baleia”. O ator Brendan Fraser, indicado ao Oscar como Melhor Ator, encarna Charlie, um professor de inglês, que tem duzentos e setenta quilos. A dor pela perda do companheiro, as agruras decorrentes do sobrepeso, frustrações transmitidas pelo olhar. Mais do que suficiente para alimentar a empatia. Personagens secundários tomam vulto com nuances inesperadas: uma (des)cuidadora; um missionário fake; a ex-mulher; e, finalmente, a filha – Ellie.

Apesar dos pontos positivos, o trabalho vem sendo acossado por acusações de homofobia e gordofobia, com o que eu não poderia concordar menos. Para os indignados, há um rol de inadequações. Que a plateia concluiria que as pessoas obesas não cheiram bem, chegaram a sugerir em algumas críticas. Mas quem chama Charlie de fedido é Ellie, a filha com a qual perdeu o contato após a separação da esposa, quando ele foi viver um relacionamento homoafetivo. A pirralha, não fosse embrutecida pela vida, é quase a vilã da história. Não lhe cabe dizer coisas más?

Quanto à homofobia, fidedigna ao que vemos no cotidiano, é amarrada à religiosidade e a ressentimentos. Preconceito incentivado? Onde? A não ser que um didatismo infanto-juvenil seja requisito para produções contemporâneas, a criação é instigante. Há momentos de catarse, corrosivos. O cérebro fervilha. Chegaram às plataformas digitais? Anotem: “Close” e “A baleia”.

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