O horror em primeira pessoa:  Los divinos, de Laura Restrepo

Opinião

Rosane Cardoso

Rosane Cardoso

Professora de literatura

O horror em primeira pessoa: Los divinos, de Laura Restrepo

Por

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A palavra “feminicídio” teria sido pronunciada pela primeira vez nos idos dos anos de 1970, por Diana Russel, no Tribunal Internacional de Crimes contra Mulheres, na Bélgica. Desde lá, o termo ganhou força com movimentos contra práticas sistemáticas de abusos físicos e psicológicos contra as mulheres por parte de seus parceiros ou de homens que sequer as conhecem.

Nos anos de 1990, a América Latina reforçou essa luta com denúncias sobre os frequentes desaparecimentos e assassinatos de mulheres na cidade de Juárez, no México. Este fato chamou atenção também pelo evidente descaso da polícia e consequente impunidade dos criminosos.

Embora a violência contra as mulheres não seja algo novo, surpreende dolorosamente perceber que, com o tempo e com as conquistas femininas, com os avanços dos direitos humanos, com a educação democratizada, tal truculência continua avançando em números assustadores.
E a literatura com isso?

O crítico literário Antônio Cândido (1917-2018) afirma que a literatura está intimamente relacionada com a luta pelos direitos humanos, pois é um instrumento de educação e de potencial intelectual e afetivo. Para ele, a literatura serve ao desmascaramento, já que traz à tona situações que mostram a restrição e/ou a negação dos direitos humanos, como a servidão, a miséria, a mutilação espiritual.

Com isso, chegamos ao último romance de Laura Restrepo, premiada escritora colombiana, traduzida em mais de 25 idiomas. Com Los divinos, de 2018, ela mantém sua linha crítica e atenta à realidade. A obra baseia-se em um caso de feminicídio que estremeceu a Colômbia em 2016, quando uma menina indígena de sete anos foi sequestrada, torturada, seviciada e morta por um arquiteto da alta sociedade de Bogotá.

Segundo depoimento da própria autora, o romance foi escrito em apenas quatro meses. Era impossível, para Restrepo, deixar passar tal horror. Em Los divinos, acompanhamos a história de cinco amigos (Hobbit, el Muñeco, Duque, Píldora e Tarabeo), os Tutti Frutti, rapazes ricos de Bogotá que, juntos, perpetram um crime muito semelhante ao do arquiteto que executou a menina.

Laura Restrepo vive na Espanha e, para escrever o livro, não enveredou por uma pesquisa extensa a respeito dos acontecimentos. “Conozco a mi gente”, disse a autora e, com isso, chama a atenção para a impunidade que existe em seu país em relação às pessoas da classe alta, a jovens que creem que tudo podem porque, por mais crimes que cometam, serão protegidos pela lei e pela família. Não foi o caso. Conforme percebem os críticos que acompanharam o caso, existe uma nova Colômbia que não se cala diante injustiças.

O crime é denunciado graças à irmã do narrador e o capítulo “La niña” funciona como o momento em que a voz da criança se impõe ao seu próprio algoz. É neste capítulo que Hobbit questiona: teria sido a entrada na escuridão um processo tão longo e tão lento que não nos demos conta? Não é simples nem fácil ler Los divinos.

Não é simples porque Restrepo, como grande escritora que é, ressignifica a palavra e faz uso de recursos narrativos que exigem intensa concentração do leitor. Não é fácil – ou, pelo menos, não foi para mim – porque o tema exige que se tome fôlego de vez em quando, na medida que, como leitores, vamos interagindo com os Tutti, ao mesmo tempo em que o horror começa a nos dominar: “conhecemos” esses sujeitos, essas pessoas que são gente e monstros ao mesmo tempo. O crime foi a suprema celebração de um longo ensaio. Não há como sair-se incólume disso.

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