A magia do Litoral Norte

Opinião

Ardêmio Heineck

Ardêmio Heineck

Empresário e consultor

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A magia do Litoral Norte

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Gustavo Adolfo 2 - Lateral vertical - Final vertical

Sexta passada, calor senegalês e estiagem de prejuízos e penúria, peguei o carro e parti rumo ao Litoral. Como milhares de gaúchos, fui buscar alívio, ao menos por um fim de semana. Percorrendo o trajeto, deixava para trás nossos flagelos do verão, em direção a um oásis, seu ar, sabores e prazeres.

Curto nosso litoral há décadas e sempre sou acometido da mesma mágica ao passar o pedágio de Santo Antônio. Transpasso uma cortina naquela ponta da Serra do Mar e ingresso em outro mundo. Brisa marinha no rosto, a lagoa à direita, os morros recobertos com mato, à esquerda. Tudo processa em nós uma transformação fantástica. A magia do litoral.

Lá chegando, tal qual tantos outros me despojei da armadura do dia-a-dia daqui e, pés descalços na grama, sorvi a primeira lata de cerveja, quase que num só gole. Enchi o peito de ar marinho, elevando os índices de oxigenação do sangue, para desespero da variante Ômicron, derrocada do Covid. Uma corridinha na areia, mergulho no mar e um bem sorvido mate ao entardecer. Junto com milhares de veranistas, sou uma pessoa reciclada.

Nem sempre foi assim. Nos anos 50/60 nosso litoral era distante, fora de alcance. Viagem de 6 a 7 horas, rodovias complicadas, o clima litorâneo era mais buscado para curar doenças respiratórias, em ambiente pouco confortável. A moda da época eram as praias do Rio Guaíba e as casas de veraneio na Zona Sul de Porto Alegre.

Com a Free Way nos anos 70 e a Estrada do Mar logo após (logística, sempre a logística!) o litoral norte transformou-se radicalmente, até o estágio atual.

Conheço a região há décadas. Pelos veraneios e, profissionalmente, como executivo da Superintendência Estadual do Banco do Brasil, quando buscou-se fazer trabalhos estruturantes, de apoio a um desenvolvimento de sustentação econômica, social e de segurança o ano inteiro. De derrubada do estigma histórico de o litoral ser primeiro mundo de novembro a março e, terceiro mundo o resto do ano, quando tudo esvazia. Trabalhadores, comerciantes, produtores rurais, prestadores de serviços que lá vivem, passam a nível remuneratório muito baixo.

Não souberam – e ainda não sabem – aproveitar sua localização (privilegiada), a topografia (das melhores para a instalação de indústrias), o microclima (próprio para atividade agropecuária, principalmente a familiar) e, seu atrativo turístico mágico, o qual, por si só, permitiria o desenvolvimento de um cluster fantástico. Teriam economia estável, de sustentação de uma boa renda, o ano todo. Penso faltarem políticas públicas condizentes, com a parceria do setor privado, sob o manto de uma organização regional efetiva. Defendo a atenção especial do Governo do Estado para aquela região, patrocinando a discussão e a condução de plano de desenvolvimento e de funcionamento orientado e uníssono, pelo potencial econômico que embute para a economia estadual e o lazer dos gaúchos.

Passado o fim de semana, iniciei o retorno para o nosso Vale do Taquari, gostoso, diferenciado, a Canaã contemporânea, onde também “emana leite e mel”. Só que assaltado por preocupações próprias da introspecção que viagem de três horas nos proporciona. Estamos nos estruturando para sustentar o atual momento favorável, econômica e socialmente? Aproveitando os predicados que Deus nos legou: topografia e miscigenação de raças excepcionais?

Daremos às nossas empresas o ganho de rentabilidade imprescindível (estrutural e logisticamente) para enfrentarem os players do mercado, a fim de que não nos deixem e outras aqui se instalem? E nossa organização regional? Já não foi melhor e mais coesa para estes enfrentamentos? Também temos nossa magia local a preservar e fazer prosperar.


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