70% dos trabalhadores se dizem mais nervosos e preocupados

Saúde Mental

70% dos trabalhadores se dizem mais nervosos e preocupados

Estudo aponta aceleração de sentimentos que desencadeiam problemas psicológicos entre o ano passado e metade de 2021. Manter o bem-estar no ambiente profissional, com espaços para diálogo e integração contribuem para evitar afastamentos, dizem especialistas

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70% dos trabalhadores se dizem mais nervosos e preocupados
(Foto: Renata Lohmann)
Brasil

A saúde mental dos trabalhadores no país em 15 meses pirou. É o que aponta o estudo inédito feito pelo movimento #MenteEmFoco, por meio do Instituto Brasileiro de Pequisa e Análise de Dados (Ibpad).

Pelo diagnóstico, 70% dos trabalhadores se dizem mais nervosos, preocupados e tristes. Ansiedade acentuada foi citada por 55%, além de estresse (51%) e tristeza (49%). O instituto chama atenção também ao fato de poucos terem procurado ajuda.

Destes, apenas 16% teriam ido a psicólogos ou psiquiatras, enquanto 57% não recorreram a qualquer profissional de saúde. O restante conversou sobre os episódios de sofrimento psíquico com amigos ou familiares.

Pela análise do executivo do Ibpad, Max Sabile, os percentuais preocupam, pois mostram que os trabalhadores naturalizam sentimentos que podem desencadear doenças, como síndrome do pânico, depressão e burnout.

O movimento #MenteEmFoco é promovido pela Rede Brasil do Pacto Global da Organização das Nações Unidas, e pela InPress Porter Novelli, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicologia. O programa conta com a adesão de 38 empresas que somam mais de 200 mil trabalhadores. A meta é superar mil empresas associadas e 10 milhões de pessoas até 2030.

Papel das empresas

Dos ouvidos na pesquisa, 62% disseram que a empresa onde trabalham não ofereceu suporte relacionado à saúde mental. “Já tínhamos um indicativo de que esses problemas estavam em crescimento. A pandemia acelerou os afastamentos”, diz a gerente do Centro de Inovação de Fatores Psicossociais do Sesi-RS, Letícia Lessa da Silva Silveira.

Conforme a Previdência Social, os transtornos mentais no país foram a terceira maior causa de afastamento do trabalho em 2020. Superou os 576 mil trabalhadores, um crescimento de 33% na comparação com 2019.

O mau do século são as doenças de ordem emocional e da mente, diz. Entender o contexto onde está ocorrendo esse adoecimento é um dos desafios. “Precisamos saber se está no indivíduo, no ambiente de trabalho ou nas relações sociais dessa pessoa.”

Nas pesquisas desenvolvidas no RS e no país, diz, a prevalência é de transtornos como ansiedade, síndrome do pânico e também depressão. Para ela, a empresa deve estar atenta a saúde mental dos funcionários. “Os líderes devem observar alguma mudança de comportamento. Se aquele trabalhador está se atrasando mais, se está faltando, se não consegue desempenhar as funções que fazia antes.”

De acordo com Letícia, o ambiente de trabalho precisa ser voltado ao bem-estar. “As empresas tem muitas possibilidades. É preciso pensar grande e começar pequeno”, ressalta. A partir disso, estabelecer momentos de escuta. “O trabalhador precisa ter segurança para conversar de forma aberta e transparente sobre suas preocupações.”

Junto com isso, promover palestras, momentos de integração e confraternização auxiliam para o sentimento de pertencimento do profissional. Tais ferramentas criam o engajamento necessário para manter o trabalhador na organização, acredita Letícia.

“Ansiedade se cura com planejamento”

O médico cardiologista e precursor da neurolinguística no país, Nelson Spritzer, analisa que o cenário de insegurança com a economia, com o trabalho e a perda de renda tem interferência sobre os sentimentos.

Compreender que há forças que vão além do indivíduo é fundamental, diz. “É preciso se concentrar no presente. A ansiedade é uma condição que sempre esteve na vida dos seres humanos. Podemos interpretar como o medo do futuro.”
Para sair do status de preocupação, o médico sugere: “ansiedade se cura com planejamento. Com o que podemos fazer no presente para nos preparamos para o que vem à frente.”

Consumo de álcool, remédios e drogas

O uso de substâncias psicoativas cresceu 35% no período de isolamento, aponta a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Conforme o psicólogo e psicanalista Sérgio Pezzi. O álcool, as drogas ilícitas e os remédios controlados se tornaram um “refúgio” para controlar sentimentos de angústia.

O excesso de álcool afeta diversos os órgãos do corpo. Enfraquece o sistema imunológico, causa danos no fígado e danificar o coração. Do ponto de vista das emoções, o efeito é inverso, explica Pezzi. “Quem exagera da bebida pensando que vai relaxar, na verdade ele aumenta a ansiedade.”
Na análise do psicanalista, as restrições da pandemia trouxeram mais do que preocupação, nervosismo e tristeza. Também interferiu sobre as relações. “As pessoas estão mais agressivas. A própria polarização política nos mostra isso. Não basta discordar de alguém, é como se eu precisasse eliminar o outro.”

De acordo com Pezzi, esses comportamentos trouxe sofrimento, acabou com amizades e afastou famílias. Os impactos serão sentidos ao longo dos anos, diz: “todos falhamos nesta pandemia. Ficamos paralisados e nos prejudicamos.”


FATORES PSICOSSOCIAIS

No país
• Desde 2018 o número de concessões de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez devido a transtornos mentais e comportamentais tem aumentado. Hoje já passa dos R$ 9 bilhões por ano;
• O Brasil é considerado o país mais ansioso e estressado da América Latina. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos últimos 10 anos o número de pessoas com depressão aumentou 18,4%;
• Segundo o boletim da Previdência Social, os transtornos mentais e comportamentais foram a terceira maior causa da concessão do auxílio-doença em 2020;
• A OMS acredita que hajam 300 milhões de pessoas com depressão no mundo. No Brasil são 10 milhões de casos.


“O Brasil é considerado o mais ansioso do mundo”

  • Graduada em Psicologia e Especialista em Psicologia Organizacional, Keidi Masera atua como Analista de Relações Humanas no SESI de Lajeado, conduzindo projetos e programas de inovação na temática dos Fatores Psicossociais e Saúde Mental no trabalho.

A Hora – Estudo mostra que 70% dos trabalhadores se dizem mais ansiosos, tristes e preocupados nós últimos 15 meses. Como isso interfere sobre a saúde mental?

Keidi Masera – Os dados traduzem um dos principais impactos da pandemia: a fragilização da saúde mental. Antes do período de pandemia, já havia motivos para se preocupar. O Brasil é considerado o mais ansioso do mundo e o quinto em relação a depressão, segundo a OMS.

Dados estes que aumentaram, trazendo uma preocupação sobre o impacto na saúde mental na nossa rotina. Estudos apontam que em decorrência disto houve mais casos de insônia, dificuldade de concentração, preocupações excessivas e fadiga. Tudo isso traz sofrimento e prejuízos significativos.

– Como esses problemas interferem sobre a produtividade?
Keidi – Ocasionam diversos impactos no ambiente laboral, tais como: afastamentos do trabalho, absenteísmo e presenteísmo. Contudo, um dos principais impactos se dá na perda de produtividade, a depressão e a ansiedade ocasionam prejuízos globais estimados em torno de um trilhão de dólares por ano.

Esses problemas impactam diretamente o profissional. Em virtude do sofrimento e dos prejuízos ocasionados, sendo comum algumas alterações comportamentais, tais como, a queda de desempenho, dificuldade para fazer as atividades e as entregas dentro do prazo. Além disso, o desgaste no relacionamento social com os colegas e gestores.

– De que maneira as empresas podem contribuir com a saúde mental dos funcionários?
Keidi – Acredito que seja necessário tratar a saúde mental como uma das prioridades da organização, tendo como diretriz o cuidado com as pessoas. Para isso é importante que sejam desenvolvidos projetos e ações neste sentido.

Na nossa região, temos resultados significativos com programas e ações continuadas nas empresas. A estratégia é pensar medidas conforme as necessidades da organização. Sendo assim, sugiro atendimento psicológico interno ou online, workshops, palestras, campanhas de saúde e bem-estar e desenvolvimento dos líderes com foco nos fatores psicossociais.

Temos de pensar os espaços de trabalho como ambientes que favoreçam a saúde e a qualidade de vida.

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