Me perdoa, primavera!

Opinião

Ardêmio Heineck

Ardêmio Heineck

Empresário e consultor

Assuntos e temas do cotidiano

Me perdoa, primavera!

Por

Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Me perdoa, primavera! Afinal, estás conosco desde 22 de setembro último e não te dediquei, nem ao menos, uma linha. Isto que, das 4 estações, és a mais bela: a do renascer, do início de um novo ciclo. E aí o pecadinho original que cometi: mergulhado em assuntos de política e de economia, apenas deles me ocupei, como se fossem a razão de tudo quando, na realidade, também eles dependem de ti. Afinal, com a tua chegada é que o produtor rural pode iniciar o plantio da safra do ano, a fim de que continuemos a ter nosso alimento e, com seus produtos, a realimentar sucessivos ciclos econômicos ascendentes, permitindo que economia e política existam.

Quanto mais reflito, mais aumenta o sentimento de culpa deste teu usuário ingrato. Afinal, primavera, nos libertas do frio opressivo e depressivo a nos aprisionar dentro dos ambientes e que, no final do dia, nos faz correr para dentro das casas, a fim nos abrigarmos. E assim, por meses o inverno nos submete a uma vida de encarangados, pesadas roupas e semblantes sisudos, reclusos nos muros que erguemos ao nosso redor, inexpugnáveis para os que nos cercam e nos querem bem.

Mas eis que tu vens, devagarinho, te reinstalas e nos abraças. E os sinais da tua chegada, vêm de onde? Da natureza: a árvore que rebrota; o sabiá que passa a nos acordar com seu canto; o bando de araquãs com seu gralhar ainda mais escandaloso; a festa do bem-te-vi; o joão-de-barro, a plenos pulmões, feliz por iniciar a construção de um novo ninho; o sobrevoo do gavião, de soslaio à espreita de alguma presa incauta; as abelhas que ressurgem, levando-me de volta ao frondoso pé de guabiju em flor, para ouvir seu zumbido alegre pelo néctar que colhem. E nós, com roupas mais leves, podendo apreciar o inebriante nascer do sol mais cedo, na expectativa da retomada do chopinho, do mate mais frouxo, dos pés descalços no gramado. Sem nos apercebermos que, neste processo embevecedor, derrubamos nossos muros, indo além deles para nos flagrarmos de que há outro mundo lá fora.

Neste feriadão de 20 de setembro minha esposa e eu fizemos uma viagem diferente, sem sair de casa.

“Alugamos”, com exclusividade, uma pousada: nossa casa, inclusa a natureza e a paisagem que a cercam. Uma experiência única: intimista, de autoajuda, de renovação espiritual, de refazer de forças, de redescoberta do otimismo e do sentimento de que nós podemos muito, mas eretos, semblantes abertos, ao invés de curvados e sisudos pelas pressões do dia-a-dia. Ela e eu nos olhamos como há horas o corre-corre diário impedia que nos olhássemos. Nos falamos, abraçamos e nos amamos com a entrega que há tempos a mídia não permitia, com suas notícias catastróficas e aflitivas.

Sem que nos apercebêssemos, abrimos nosso ser para que a natureza nos mostrasse, singela, que a primavera estava às portas, proporcionando um renascer, no meio ambiente e em nós.

Terminado o feriadão voltamos ao mundo que nos cerca, vendo que não é feito só de infortúnios, mas que contém facetas gostosas ao nosso alcance, bastando querer tocá-las.

Estamos sob pressão crescente, vítimas de pessoas, agentes, entidades, hackers, enfim, de diversos atores que buscam servir-se de nós, da nossa instabilidade, muito por eles provocada. A luta pelo pão de cada dia, pelo conhecimento, pela proteção dos nossos, pelo sobreviver, é inexorável e sempre nos cercará. Imprescindível percebermos as armas que pessoas, natureza e fé nos alcançam para construirmos a couraça do bem indispensável, a nos proteger. Basta abrirmos nosso espírito, nosso coração e derrubarmos nossos tantos muros fictícios, permitindo que nossa sensibilidade nos deixe sentir epidermicamente tudo isto, entranhando nosso ser.