Endividamento cresce entre famílias com menor renda

Pesquisa da FGV

Endividamento cresce entre famílias com menor renda

Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que 22,3% das pessoas com renda de até R$ 2,1 mil estão com contas em atraso. Percentual é o mesmo de 2016, o pior patamar da série histórica

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Atualizado sábado,
16 de Maio de 2021 às 08:36

Endividamento cresce entre famílias com menor renda
Foto: Filipe Faleiro/Arquivo A Hora
Vale do Taquari

A parcela da população com menor renda é a mais atingida pela instabilidade econômica nacional. É o que afirma estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Pela análise dos especialistas, o endividamento para pessoas com renda mensal de até R$ 2,1 foi de 22,3% em abril.

O índice verificado pelos pesquisadores é o maior desde abril de 2016, ano em que o país vivia o auge da crise política e econômica que resultou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Os motivos para este resultado têm relação com a instabilidade do mercado de trabalho, com o aumento do desemprego, bem como a redução no valor do Auxílio Emergencial. No ano passado, as parcelas eram de R$ 600 destinados para autônomos e famílias atendidas por política de transferência de renda. Esse repasse garantiu as condições para gastos básicos.

A última parcela do valor total foi paga pelo governo federal em dezembro. Depois disso, houve um lapso até a aprovação do novo formato do auxílio, que começou a ser depositado em abril.

Nos três meses de vácuo, houve um crescimento tanto no endividamento quanto no empobrecimento da população mais vulnerável. Hoje, o auxílio governamental é de no máximo R$ 250 por mês. A título de comparação, o orçamento da política em 2020 era de quase R$ 300 bilhões, enquanto neste ano, está estipulado em R$ 44 bilhões.

Perfil do consumidor

As contas em atraso vão em diversas linhas. O mais comum recaí sobre o cartão de crédito, mas também há casos de débitos básicos, como contas de água e de luz. Conforme o economista e professor da Univates, Eloni Salvi, o tipo de gasto do cartão de crédito não é possível conhecer para termos estatísticos. “Pode ter sido em um sapato ou no rancho do mês”, diz Salvi.

Uma das características do consumidor brasileiro é a compra a prazo. Essa análise corrobora com os dados vistos na região. Conforme a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Lajeado, a partir dos dados apurados no banco de dados da Boa Vista Serviços, contabiliza mais de 15,5 mil pessoas com dívidas no comércio local. Significa 24,1% dos consumidores cadastrados.

Quanto ao perfil, a maioria dos inadimplentes são homens (51,2%), na faixa etária dos 30 a 34 anos (16,3%) que recebem entre um e dois salários mínimos (55%). Já no RS, a maior concentração de devedores está nas mulheres (50,9%) idosas com mais de 65 anos (13,9%) e adultas entre 35 e 39 anos (13,8%), com renda entre um e dois salários (51,2%).

Entrevista

“Não há mais tempo para salvar o ano”

Eloni Salvi – economista e professor. Retorno de restrições às atividades e demora no programa de vacinação fazem com que a perspectiva seja de um ano mais difícil do que foi 2020, avalia o professor e economista.

• Os dados com relação ao endividamento das famílias apontam para dificuldades no emprego e na renda. Como o senhor avalia esse quadro?

No ano passado, o Auxílio Emergencial de R$ 600 ajudou a atenuar a crise. Não tivemos crescimento econômico, mas a queda poderia ter sido maior. Agora, estamos pior do que em 2020 no que diz respeito ao consumo e a economia.

Além disso, o recrudescimento da pandemia e a demora na vacinação interferem sobre o consumo básico das famílias, pois há menos dinheiro e dificuldade no mercado de trabalho.

• Diante da incerteza com relação ao futuro da pandemia, analistas apontam para a dificuldade em fazer estimativas para a economia. Ainda assim, há alguns indícios, como a taxa de desemprego e a redução do consumo. A partir destes sinais, qual sua análise sobre a economia do país em 2021?

Tudo depende do ritmo da vacinação. Vemos pelo mundo que países com maior percentual de imunização estão se recuperando mais rapidamente. Para nós, mesmo que tenhamos a partir de agora uma alta taxa de vacinação, não há mais tempo para salvar o ano.

Mesmo que a economia volte a acelerar, a retomada dos índices de emprego são mais lentas. Será mais um ano de cinto apertado. De controle das despesas.

As empresas só voltam a contratar quando não conseguirem mais tocar com a mão de obra que tem. Primeiro temos de ter um crescimento na demanda do mercado para depois haver impacto sobre a renda das pessoas.

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