Você não é especial!

opinião

Jonas Ruckert

Jonas Ruckert

Diretor do Colégio Teutônia

Assuntos e temas do cotidiano

Você não é especial!

Por

Estado
Imec - Lateral vertical - Final vertical

Calma! Não reaja ao título sem ler a coluna de opinião. Vamos lá…
Na década de 60 desenvolver uma autoestima alta, ter uma boa autoimagem e sentir-se bem tornou-se um modismo, uma tendência buscada como um estilo de vida entre os norte americanos. Estudos concluíram que as pessoas que se sentiam admiradas tendiam a obter melhores resultados e ter menos problemas. Alguns estudiosos acreditavam que aumentar a autoestima da população geraria benefícios sociais tangíveis: redução da criminalidade, melhora de desempenho acadêmico, geração de novos empregos, diminuição de déficit orçamentário. A partir da década de 70 práticas relacionadas à autoestima começaram a ser ensinadas aos pais, reforçados por terapeutas e instrumentalizadas nas escolas, a exemplo de notas com baixo desempenho serem aumentadas falsamente, com o objetivo de que as crianças não se sentissem tão mal. Neste contexto afloraram os seminários empresariais e motivacionais entoando o mantra paradoxal de que cada um de nós pode ser excepcional e extremamente bem sucedido.

Todo este movimento não tardou a chegar por aqui e todo aquele que, assim como eu já está no mercado de trabalho há algum tempo, em algum momento deve ter vivenciado alguma formação ou treinamento nesta direção.
Passados alguns anos, temos os resultados para avaliar. Entendemos e aprendemos que toda nossa condição de excepcionalidade tem íntima relação com nossas limitações, aquelas que superamos, aquelas que aceitamos. O fato é que, no fim das contas, sentir-se bem consigo mesmo não significa nada ou pouco valor terá, a não ser que tenhamos criado motivos para isso. Motivos reais e verdadeiros. Ao tempo em que somos sabedores de que a adversidade e o fracasso são muito úteis e até mesmo necessários para o desenvolvimento de adultos determinados e bem sucedidos, sabemos que fazer as pessoas acreditarem que são excepcionais e sentirem-se bem consigo mesmas sem fundamento algum não cria uma sociedade proativa, crítica e transformadora. Neste sentido é preciso reconhecer que nos envolvemos e não reagimos a uma sociedade que permitiu a proliferação de gente arrogante que exala autoconfiança em níveis irreais. A arrogância é uma estratégia falha. É apenas mais uma forma de euforia. Não é felicidade.

É pouco provável que existam problemas únicos. Seu problema possivelmente seja o problema que centenas de pessoas já tenham passado, estão passando ou ainda irão passar. Isso não diminui o problema nem a dor. Essa condição não o torna especial! Contudo, essa constatação – de que os seus problemas não são os mais dolorosos ou graves do que o dos outros – e de que você não é, portanto, uma vítima das circunstâncias, é o primeiro passo, assim como o mais importante para resolvê-los. Autoconfiança, autoestima e todos os “autos” são bem-vindos se antecedidos de equilíbrio, determinação e comprometimento. Há muita oportunidade para Gente Especial assim. Mãos à obra!