Virei uma máquina sexual”. É assim que Márcio descreve as experiências após ter tomado Viagra. O morador de Estrela de 28 anos usou o azulzinho seis vezes. “Foi muito bom”. Perguntado se tomaria de novo, nem pensa: “Sem dúvida.”
Em uma reunião de amigos, depois do futebol ou mesmo no bar, as performances sexuais após a ajuda do Viagra dominam as conversas. Os casos reais são narrados em tom de brincadeira, e fica evidente que o remédio contra a impotência deixou de ser um tabu, pelo menos em ambientes de descontração.
No momento da entrevista, a desinibição perde espaço e os depoimentos são autorizados apenas com o uso de nome fictício – nesse caso, Márcio. “Esse é o tipo de assunto que nunca conversei com a minha mulher. Só tomei quando ainda era solteiro”, conta.
Na primeira vez, tinha 20 anos. “Tomei a metade e namorei durante horas.” Com histórico de pressão alta, faz o alerta: “Eu tive reações desagradáveis. Meu coração disparou, senti dores de cabeça. Por isso, não tomo de forma regular.”
Apesar do que a maioria pensa quando ouve notícias de homens que morreram em motéis, o médico clínico Luis Lermen afirma que o Viagra não tem relação direta com infarto em pacientes que não sofrem de doenças cardíacas. O risco de desenvolver males do coração em função do uso de estimulantes, segundo ele, é uma “cultura popular generalizada”.
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Quanto ao uso por parte de jovens, Lermen acredita que ocorra um efeito placebo. “A pessoa acredita que aquela ação de tomar o remédio dá resultado de melhora, o que não acontece se, por natureza, já há boa função.”
O aposentado Dilnei (nome fictício), 67, morador do bairro Moinhos D’Água, em Lajeado, integra as estatísticas da Pfizer, empresa que fabrica o Viagra. Apesar de não ter orientação médica, ele recorre ao azulzinho quando necessário. O uso trouxe mais vitalidade após o fim do primeiro casamento. “Depois choveu namorada”, conta, em meio a gargalhadas.
Até o ano passado, a marca comercializou cerca de 130 milhões de comprimidos no Brasil, e chegou a vender 16 unidades por minuto. Mesmo disputando a preferência dos brasileiros com outros 33 medicamentos, o Viagra abrange uma fatia de 10,4% do mercado, o que representa R$ 50 milhões ao ano.
E se toda a freguesia tiver a mesma satisfação de Dilnei, os números devem se manter. “Depois de uma noite de amor, teve uma que me encheu de presentes”, lembra.

Comprimido a R$ 3,99
Apesar de a embalagem de tarja vermelha alertar para “venda sob prescrição médica”, no país de frenesi sexual é tão fácil comprar um remédio que ajuda na hora H quanto qualquer produto de mercearia.
A reportagem visitou cinco farmácias de diferentes redes no centro de Lajeado. Em uma delas, uma promoção (informada pela vendedora) incentiva a compra de duas caixas, totalizando quatro comprimidos genéricos, por R$ 19,90.
Uma idosa ouviu a repórter consultando valores do Viagra em um estabelecimento e ficou curiosa. “É para mulher?”, quis saber. Após responder que não, a funcionária brincou: “Se fosse, não ia ter comprimidos que chega. E agora que vem o Carnaval, então…”.
O preço máximo do valor unitário do Viagra nas farmácias consultadas é de R$ 25. Já genéricos e similares são bem mais em conta. Por R$ 3,99 a reportagem comprou um comprimido de 50 mg de citrato de sildenafila, mesmo princípio ativo da marca pioneira.
Segunda informações da bula, mais de 10% dos pacientes que usam o remédio têm dor de cabeça. Entre 1% e 10% ficam com tontura, visão embaçada, distúrbios visuais, cianopsia (enxergar tudo em azul), ondas de calor, congestão nasal, má digestão e enjoo. Menos de 1% apresenta rinite, sonolência, intolerância à luz, aceleração dos batimentos cardíacos, hipotensão e sangramento nasal.
Além disso, antifúngicos, antibióticos, diuréticos, medicamentos que controlam o ritmo do coração e aqueles usados no tratamento do HIV podem ter seus resultados alterados ou, ainda, alterar o efeito da sildenafila. A bula também alerta para a suspensão do uso em caso de perda repentina de audição ou de visão.
Alerta
O urologista Ernany Bender confirma a possibilidade de efeitos colaterais previstos na bula: dificuldade na respiração, mudanças nas luzes, vermelhidão na pele, especialmente nas orelhas, e dor muscular. O profissional ainda alerta sobre o uso por parte de pacientes cardíacos. “Pacientes que utilizam medicamentos para angina, que por si só já são vasodilatadores, acentuam o efeito do Viagra e pode provocar morte.”
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Ele explica que a disfunção erétil pode ser causada por diabetes, colesterol alto, medicamentos para hipertensão, envelhecimento e estresse, além da própria ansiedade por desempenho, entre outras causas. Segundo o médico, o maior risco do uso precoce é a possibilidade de dependência psíquica. “Todas as vezes que for ter relações, o homem pode ser tentado a ingerir o medicamento.”
Saiba mais
Dados da Pfizer, fabricante do Viagra, indicam que no Brasil
– Desde seu lançamento, em 1998, até a entrada de novos medicamentos do tipo, em 2003, o Viagra representou o mercado de comprimidos para disfunção erétil com uma média de 12 comprimidos comercializados por minuto.
– De 1998 a 2017, cerca de 130 milhões de comprimidos foram vendidos.
– No período de 2003 a 2010, mesmo com a chegada da concorrência, as vendas aumentaram para 16 comprimidos por minuto.
– Hoje, mesmo com 33 concorrentes no mercado, o Viagra mantém um market share de 10,4% do mercado em reais, o que representa R$ 50 milhões ao ano.
– Em 2017 foram vendidos 2.761.945 comprimidos
Gesiele Lordes: gesiele@jornalahora.inf.br | Filipe Faleiro: filipe@jornalahora.inf.br