Lições de matemática, física e solidariedade

Opinião

Gilberto Soares

Gilberto Soares

Coluna aborda temas do cotidiano, política e economia. Escreve duas vezes por mês, sempre aos sábados.

Lições de matemática, física e solidariedade

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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

“Só me sinto brasileiro quando o escrete ganha”
O entendido, crônica do livro Pátria de Chuteiras, de Nelson Rodrigues
Volta e meia o humor ideológico – à direita e a esquerda – define o futebol como “ópio do povo”, equivalência “patropi” para panem et circenses* da Roma dos gladiadores. Prefiro vê-lo como o esporte de acesso universal, coletivo e diferenciado por magias individuais. Também gosto dos paralelos imagináveis que possibilitam a combinação de física e matemática exercitada por mestre de pouca ou quase nenhuma luz – salvo as exceções da regra.
SÍMBOLOS. Campo e bola nada mais são do que quadrilátero e esfera, figuras essenciais para a geometria. A partida e suas variações podem ser compreendidas como a teoria aplicada à prática, uma vez observado o paradoxo capaz de mudar tudo: o talento exponencial que faz o corpo preponderar sobre a capacidade intelectual. Pensada com essa liberdade, repleta de lances improváveis e ornada por retas e curvas, uma partida de futebol de qualidade é ciência que se faz e arte que se vê.
MESTRES. Jogadores tornam-se mestres em matemática e física “batendo uma bolinha”. Começam pelo contato imediato com a esfera dentro de casa, no pátio e na rua. Calculam velocidade, distância e força. Logo após as primeira provas, quase sempre avaliadas por familiares, estão prontos para os exercícios no quadrilátero do bairro. Intelecto e bagagem cultural são acessórios no campo do talento onde pode brilhar o gênio de poucas luzes. Perigo: muitas escolinhas impõem a tática ao improviso. São negócios e massificam o óbvio para encaixar peças nos padrões dos clubes. Inibem a brincadeira. Futebol é ludopédio – do latim ludus, jogo, divertimento + pedis, pés.
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CIÊNCIA APLICADA. Lançamentos de 40 ou 50 metros são habituais em uma partida com jogadores de qualidade. A jogada em si une matemática e física. Vejamos. Cálculo da distância ao ponto a ser atingido, da velocidade do companheiro e do adversário. Princípio da Ação e Reação para determinar a quantidade de força a ser empregada no chute. E a batida tangencial na bola para produzir o efeito que desdobrará a parábola desejada. Sem esquecer as variáveis do vento contrário (resistência) ou a favor. Uma complexidade entendida pela espontaneidade singular do craque, cujos resultados parecem tão simples quanto brincadeiras de criança.
AULA. Cada campo de futebol varzeano deste imenso país de pouco estudo, conforme repetia a ponderação da minha avó, é uma sala de ciência para “aprende brincando”. Do goleiro ao atacante. A folha-seca inventada por mestre Didi é a descoberta dos efeitos inesperados produzidos por uma batida na lateral da bola (na tangente). Gol olímpico é o resultado da soma de força, curva, velocidade. E a conta que se faz para evitar o adversário que “vem bufando” quando nos exibimos, chama-se Movimento Uniforme – MU.
GENIAL. Penso neste texto faz tempo. E nem foi a conquista continental do Grêmio que me fez escrevê-la. Decorre da preocupação com enclausuramento de crianças e adolescentes, prisioneiros da genialidade dos jogos e conversas virtuais – autismo tecnológico, como tão bem definiu o pediatra Sérgio Knipoff em uma palestra. Triste. Afinal, geniais são as pessoas.
LIÇÃO FINAL. Neste domingo – ou no próximo, se chover amanhã –, A Hora entrega 150 mil reais para várias instituições da região voltadas ao atendimento de crianças da região. Como coordenador do Comitê Solidário criado para acompanhar o projeto, agradeço aos companheiros que o integram, aos parceiros do projeto Assinante Solidário e ao jornal. A lição final está além da matemática e da física: é solidariedade.
*Do latim “pão e circo”

Forçam a disciplina e inibem a brincadeira. Futebol é ludopédio – do latim ludus, jogo, divertimento + pedis, pés

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