Menos alunos

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Menos alunos

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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Há menos alunos nas salas de aula. Dados do Censo Escolar mostram que em dez anos houve redução de 8,1 mil matrículas escolares nos ensinos Fundamental e Médio.

A mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e ex-coordenadora do curso de Letras da Univates, Renate Schreiner, associa a queda à diminuição da taxa de natalidade e afirma que com menos alunos é possível ensinar com mais qualidade.

eduA secretária de Educação de Lajeado, Rejane Ewald confirma o dado e diz que só em Lajeado a redução de nascimentos foi de 47% nos últimos dez anos. Em 1999, nasceram 1.043 crianças e em 2010, 552. Ela atribui uma pequena parcela da diminuição à desistência de alunos com reincidência nas reprovações.

A mestre em Letras e professora universitária, Maristela Juchum relata que a queda se deve à redução da população de até 17 anos no Brasil e no estado, entre 2000 e 2010, sendo que a gaúcha tem a menor taxa de crescimento populacional na década.

A queda gera consequências na estrutura educacional. Escolas são desativadas pelo número reduzido de estudantes. Na região, foram pelo menos 46 nos últimos anos.

Um exemplo é Sério. Em três anos foram fechadas oito escolas, pois havia no máximo 12 alunos em cada uma. Para atendê-los foi criada uma escola-polo no centro da cidade.

Os alunos precisam percorrer distâncias maiores e sair de suas comunidades. Em contrapartida recebem um atendimento mais qualificado. A nova escola tem telecentro, laboratório de informática e oferecerá oficinas no turno oposto ao das aulas. O que, segundo a secretária de Educação do município, Milena Rodrigues, era impossível quando havia oito.

“Era poucos estudantes em cada uma. Não tínhamos recursos para atender a todas e criar uma estrutura mais completa.” Ela diz que assim os alunos se sentem mais motivados a frequentar a escola. Sério é uma das cidades que não tem problemas com evasão escolar no Ensino Fundamental.

A coordenadora regional de Educação, Marisa Bastos acredita os alunos perdem com os fechamentos das escolas. “Nas comunidades interioranas os alunos aprendem a base agrícola, o que nas centralizadas se perde.” Contudo, admite que há dificuldades em manter estruturas com poucos alunos e cada vez mais as salas parecem mais vazias.

Maneiras de atrair os jovens aos estudos

Em Lajeado, a rede municipal de educação tem o Programa Definindo Caminhos – um trabalho que mostra a continuidade nos estudos com ofertas dos ensinos Médio e Profissionalizante e similares da rede privada e pública.

No Ensino Fundamental, está em execução pela Promotoria da Infância e da Juventude de Lajeado o acompanhamento de alunos infrequentes. O trabalho sistemático é realizado durante todo o ano, sob a coordenação do promotor Neidemar Fachinetto.

Ele procura comprometer o aluno com o retorno à escola e cria uma rede de apoio e uma consciência em favor da educação a partir da própria família. Em Lajeado, foi criado o Programa Pais Presentes, que está no 6º ano.

Nas escolas noturnas, o município serve merenda antes do início das aulas, considerando que muitos jovens vão do trabalho direto para a escola. Esta estratégia é uma forma de incentivar o aluno a frequentar a escola.

Os motives da redução

Natalidade: taxa de nascimento de crianças reduziu 47% em dez anos;

Base familiar: pais não estudaram e não incentivam os filhos;

Condições socioeconômicas: não estudam porque optam pelo trabalho, e tem dificuldades em conciliar ambos;

Reincidência na reprovação: alunos que reprovam diversas vezes e atinge idade superior a exigida.

Consequências

Fechamento de escolas;

Criação de sedes-polo;

Mais atenção e qualidade no ensino;

Maior investimento em tecnologias como informática;

Redução de custos para os governos.

A desistência do Ensino Médio

No Ensino Médio, a redução em matrículas é de 1,6%. Mas o que preocupa especialistas são as estatísticas da Secretaria Estadual de Educação. O Rio Grande do Sul é um dos estados brasileiros com maior número de jovens fora do Ensino Médio. Eles sequer se matricularam na escola e abandonam os estudos depois de concluírem a 8ª série.

Conforme a coordenadora regional Marisa, 84 mil pessoas entre 14 e 17 anos não buscaram continuidade nos estudos em 2009. Ela relata que nos próximos meses será feito um levantamento de quanto isso representa no Vale do Taquari.

A secretária Rejane afirma que o motivo da desistência está relacionado à família, que também não estudou e cria uma cultura semelhante e à condição socioeconômica, quando jovens precisam enfrentar o mercado de trabalho, sem condições para seguirem nos estudos.

Especialistas na educação falam como manter o jovem na escola

Secretária de Educação de Lajeado, Rejane Ewald

“Há precariedade de oferta de Ensino Médio e más condições de acesso às vagas na região. Na Educação Infantil, as matrículas tendem a crescer. O aumento está ligado à necessidade das mães trabalharem fora e deixarem os filhos em um abrigo, ou pela consciência da educação nessa fase da vida.

Na Educação Especial esses alunos encontram a dificuldade de vagas e pouca oferta. Lajeado mantém o EJA em duas escolas, mas esta realidade não é igual em outras cidades. Fator que também contribui para redução de matrículas.”


Mestre em Letras e professora Universitária, Maristela Juchum

“É preciso investir mais no Ciclo da Alfabetização, pois crianças mal alfabetizadas terão grandes chances de abandonar a escola mais cedo. É preciso desenvolver um currículo que contemple a formação de leitores e escritores competentes.

Desenvolver projetos de ensino e aprendizagem, em que a leitura e a escrita tenham uma função social, significa “simular”, no espaço da sala de aula, tarefas que acontecem na vida real.

É preciso mudar o olhar, reinventar a escola. Muitas escolas e professores da região já desenvolvem projetos que visam preparar o aluno para a compreensão da realidade a partir de tarefas que os desafiem a pensar, criar e inventar soluções para os problemas que lhes são apresentados.”

A mestre em Literatura Brasileira pela Ufrgs e ex-coordenadora do curso de Letras da Univates, Renate Schreiner

“As pessoas sabem que a boa formação escolar melhora as condições de trabalho e em geral também o nível salarial. A escola não pode ser sinônimo de perda de tempo. O aluno precisa sentir que se está crescendo no conhecimento e que está progredindo. Trabalho produtivo, sério e competente são atrativos para os jovens irem à escola.

Os professores estão desestimulados. Este não é um ambiente propício à aprendizagem. Deve haver um pacto de dedicação e carinho em prol da boa educação entre autoridades, pais e professores, ou seja, na sociedade em geral. Afinal, os pais deixam seus filhos, seu maior bem, nas mãos de professores.

Devem, portanto, contribuir para o sucesso deste empreendimento. Mas também os educadores devem receber condições de trabalho que lhes permitam o estudo e aperfeiçoamento permanente.