Um ano depois

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Um ano depois

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Gustavo Adolfo 2 - Lateral vertical - Final vertical

O cenário mudou. Há um ano, as principais ruas de Marques de Souza e Tra­vesseiro cobertas de lama, entulhos e troncos de árvores. Casas estavam destruídas, e centenas de moradores desabrigados passavam o dia limpando e recolhendo perten­ces espalhados pela enxurrada.

marquesHoje, as cidades do interior estão de volta ao ritmo tranquilo. Casas foram reconstruídas, ruas recupe­radas, e a destruição do dia 4 de janeiro aparece só em pequenos montes de entulhos espalhados pelas cidades, em alguns pontos ainda não recuperados, como o Cemitério Católico de Tamanduá, e na memória dos moradores.

A vida de quem teve perdas aos poucos volta ao normal. Darci Jaci Wink, que perdeu suas duas casas, é um exemplo. Ele morou nove me­ses de favor na casa de parentes e só em setembro finalizou a cons­trução de sua nova residência, lo­calizada no mesmo terreno da an­tiga. Wink lembra que perdeu tudo e ainda tem receio em investir nos terrenos. “O trauma ficará. Não é fácil perder tudo que conquistei em meia hora”, comenta.

marquesO local onde Wink mora, próxi­mo da ponte da BR-386, no centro de Marques de Souza, foi um dos pontos mais atingidos. Erni Berns­tein e sua esposa Ilga também per­deram tudo e hoje reconstruíram sua casa no mesmo local. Mas, o medo de uma nova enxurrada está presente. “Sempre que chove preciso tomar remédios para dor­mir”, afirma Ilga.

No bairro Cidade D´água ne­nhuma casa foi destruída, mas dezenas de moradores perderam praticamente todos os seus per­tences. É o caso de Henrique e Lo­rena Uldmeine, que vivem há 18 anos no local. Eles conseguiram recuperar apenas uma geladeira e calculam o prejuízo em mais de R$ 35 mil. “Perdi toda minha oficina e fiquei sem ter como trabalhar”, diz Henrique. Hoje, com apoio de amigos e de doações o casal reer­gueu-se. “No início sentia medo quando chovia, mas hoje vivemos tranquilos”, assegura Lorena.

Campings se recuperam aos poucos

Conhecida como a capital dos campings, Marques de Souza hoje vive outra realidade. Quase todos os balneários foram devastados pe­las águas, e alguns sequer abriram neste verão. Mas, muitos voltam aos poucos, como o Camping Palm Hepp. Instalado há 30 anos às margens do Rio Forqueta, o local foi um dos mais atingidos. Foram 45 casas de alvena­ria, banheiros, pertences, pinguela e outros itens levados pela água. Se­gundo o proprietário, Odécio Hepp, o prejuízo ultrapassou R$ 1 milhão. Ele confessa que pensou em fechar o local, mas que mudou de ideia devi­do aos insistentes pedidos dos antigos frequentadores.

Hoje, o local está aberto para que o público passe o dia. No entanto, não são permitidas pernoites nem insta­lação de barracas. “Estou plantando grama e árvores, talvez no futuro volte a liberar as barracas”, admite. Ele diz que não sente medo de uma nova enxurrada, mas afirma que se emociona quando lembra do fatídico dia 4 de janeiro. “Estávamos perple­xos assistindo à água levar tudo que construímos em 30 anos sem poder fazer nada”, lamenta. Além do Palm Hepp, estão funcionando no muni­cípio os campings Stackão, Riacho Doce, Irineu, Germano, Pedra.

Moradores ainda aguardam ajuda

Deficiente física e com dificul­dades de locomoção, Rosa Ma­ria Neinas não estava em casa, quando sua residência foi em­purrada pelas águas, parando no meio da estrada principal do Distrito de Tamanduá. Na épo­ca, ela estava em Santa Catarina recuperando-se de um derrame. “Foi sorte de Deus”, diz. Moran­do sozinha, ela clama por aju­da, pois perdeu todos os móveis e eletrodomésticos. Ela precisou fazer empréstimos para conse­guir construir uma casa. “Sobrou apenas minha cama, até minha cadeira de rodas elétrica perdi”, lamenta.

Moradores que tiveram suas casas destruídas reclamam dos poucos recursos enviados pelas administrações municipais. Erni Bernstein, de Marques de Souza, diz que recebeu R$ 4 mil, mas que o prejuízo foi superior a R$ 30 mil. “Se não fosse pelas doa­ções, minha nova casa estaria no chão ainda”, lamenta. Segundo o prefeito de Marques de Souza, Rubem Kremer, o município au­xiliou com R$ 36 mil, mais servi­ços de terraplenagem e projeto para as novas residências. “Ain­da estamos reconstruindo, o pior passou, mas há muito a fazer”, afirma.

Vida nova no cenário de horror

O local onde 3,3 mil suínos morre­ram, hoje é um retrato da recupera­ção de Travesseiro. A granja de War­ney Kunz foi destruída, e o prejuízo chegou a R$ 3 milhões. Na época, o proprietário chegou a afirmar que procuraria outro local para seguir trabalhando, mas preferiu continuar na área. Hoje, o local está reconstru­ído e tem 1,1 mil suínos. “Ficamos um ano sem ganhar dinheiro e tive­mos de reconstruir tudo com nosso esforço, sem ajuda de ninguém”, afirma Marli Kunz, mãe de Warney.

Ela conta, emocionada, que na penúltima semana, nasceu o primei­ro lote de leitões depois da tragédia. O parto foi realizado pela funcioná­ria da granja, Tânia Steffler, que não esconde a satisfação. “Bom ver vida aqui de novo”, diz. Gustavo Steffler, marido de Tânia, também trabalha na granja, e diz que a reconstrução mobilizou todos os funcionários. “Mi­nha vida está neste lugar”, emocio­na-se.

Gustavo relembra o desastre de janeiro. Ele e mais sete funcionários ficaram ilhados durante 11 horas en­tre o Rio Forqueta e a granja. “Fugi­mos com um trator de uma onda que levou árvores, plantas e chiqueirões”, relata. No local onde ficaram faltou pouco menos de 2 metros para serem atingidos pelas águas.

Raio X da tragédia

Travesseiro:

– cem residências atingidas (nove destruídas)

– três pinguelas destruídas

– 42 quilômetros de estradas danificadas

– três mil toneladas de silagem, milho e grãos perdidos

– três mil animais de grande porte mortos

– 30 mil aves mortas

– Prejuízo calculado de R$ 10 milhões

– R$ 90 mil recebidos do Daer (reconstrução de estradas)

– R$ 70 mil recebidos da Secretaria Estadual de Saúde (equi­pamentos e reformas)

– R$ 621 mil recebidos da Defesa Civil (reconstrução nove casas, estradas e pinguelas)

Marques de Souza

– 320 residências atingidas (nove destruídas)

– três pinguelas destruídas

– um pontilhão destruído

– 56,2 quilômetros de estradas danificadas

– Prejuízo calculado de R$ 15 milhões

– R$ 170 mil recebidos da Secretaria da Saúde (reformas no Posto de Tamanduá e Hospital)

– R$ 105 mil recebidos do Daer (reconstrução de estradas)

– R$ 600 mil do Ministério da Agricultura (compra de máquinas)

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