Morte nas estradas

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Morte nas estradas

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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

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Fotografias espalhadas pela casa e um quarto intacto são as poucas marcas que restaram de Ezequiel Carlos Pretto, 28 anos, de Encantado. Eze, como era conhecido, morreu em abril deste ano em uma colisão entre um veículo e um caminhão, em Canoas.

História como a de Eze tornou-se dado estatístico e preocupação para as famílias. A cada 24 horas, cinco pessoas morrem em crimes de trânsito nas estradas gaúchas.

No Vale, os números também são alarmantes. Dados do Comando Regional de Polícia Ostensiva (CRPO-VT) e polícias rodoviárias Estadual e Federal revelam que 119 pessoas morreram neste ano nas estradas e ruas da região.

Na casa de Eze, aflita com a perda do filho, Marta Maria Pretto, 63 anos, mantém roupas, computador e até mesmo a cama com bonés e uma camiseta do Internacional da forma como o filho deixou.

Ela mantém tudo por amor ao filho e para que os amigos relembrem de Ezequiel a cada visita. Marta diz que hoje vê o quanto o filho era importante para os amigos, porque eles seguem procurando ela para ver os pertences de Ezequiel. “Toda a semana amigos vêm ver como estou e trazem presente e carinho”, conta.

Ezequiel foi um filho muito desejado por Marta e seu marido. Ela teve oito abortos espontâneos e após dez anos de tratamento engravidou. “Ele foi meu presente, meu diamante”, emociona-se.

A criança foi criada com amor pelos pais, mas aos 15 anos, perdeu o pai e aproximou-se mais da mãe. Os dois moravam sozinhos e compartilhavam suas histórias e emoções. “Sofri muito com a perda do meu marido”, diz a mãe. “Mas a dor de perder um filho, é muito maior.”

Adulto, Ezequiel apaixonou-se pela música e por publicidade e propaganda. As duas carreiras ele administrava aos seus 28 anos, quando se tornou um publicitário e vocalista e empresário da banca Luauê. Seu sonho era ser conhecido fora do país.

A mãe conta que na manhã do acidente o jovem saiu de casa feliz para trabalhar. Ele e mais quatro pessoas estavam no carro na hora do acidente. Eze era um dos caroneiros no banco traseiro e foi o único que morreu na tragédia.

A dor da perda, segundo a mãe é inexplicável. Ela diz que até poucos tempo contava os dias que o filho partiu. Agora ela diz que mudou. “É menos oito meses e cinco dias para eu encontrar com o Ezequiel.” Segundo ela, pensar dessa forma ameniza a dor.

Marta passa horas do dia no quarto olhando as roupas e o computador do filho. O quarto tornou-se um local seguro para ela. “É lá que me sinto mais perto dele”, conta.

Ezequiel fazia campanhas nas escolas e shows da banda pelo trânsito mais seguro. Para Marta, ele sempre alertava as pessoas para elas não aliassem bebida e direção, mas Eze tornando-se mais uma vítima da imprudência.

Conforme a mãe, os pais sempre têm medo de acidentes com os filhos e quando o fato se concretiza é inaceitável. “É natural que os filhos enterrem os pais, quando o fato vira, dói muito mais”, desabafa.

No dia do acidente, lembra a mãe, “levei meu filho até a porta, mas queria que ele tivesse voltado para casa”. Quando ligaram para Marta anunciando o acidente, ela não acreditou que o filho morreu, pensava apenas que tudo fosse um pesadelo. Nos próximos meses, Marta deverá doar as roupas do filho para alguma instituição carente. Mas, ela diz que o restante do quarto ficará como está.

Em julho aumento já era dobrado

Os números de mortes no trânsito nas rodovias estaduais em julho deste ano apresentavam crescimento de 50% em relação ao ano passado. Uma das causas indicadas pelos comandos das policias é o aumento anual de 6% na frota de veículos do estado.

Em Lajeado, maior cidade do Vale, no ano passado, foram adquiridos 12 mil novos carros. O capitão da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), Samaroni Teixeira Zappe, acrescenta que outro motivo é a imprudência de motoristas que insistem em dirigir alcoolizados. “No início da nova lei conseguimos diminuir o número de acidente e vítimas, lembra Zappe. “Logo depois o desrespeito voltou.”

Zappe complementa que os condutores precisam adquirir uma consciência coletiva de comportamento no volante. Ele explica que diariamente são feitas fiscalizações nas rodovias.

Aproximadamente 98% dos acidentes no trânsito são causados por imprudência dos condutores. A fiscalização e multa entram como inibidor destes números. Conforme Zappe, a educação no trânsito é fundamental para a mudança deste quadro.

O comandante salienta que a frota aumenta anualmente, mas a malha viária é a mesma de décadas atrás. Segundo ele, as estatísticas apontam que se em dez anos os números continuarem a crescer, a morte por crime de trânsito estará no topo da lista das causas de morte mais violentas, ganhando dos homicídios.

Na visão do comandante da PRE, a polícia é o único órgão visível do sistema empenhado em coibir e prevenir acidentes. “A educação para o trânsito há tempo está prevista nos currículos escolares, mas não está em execução”, afirma. Ele diz que a polícia, por mais que trabalhe e multe, não resolverá sozinha o problema. “Somos uma parte do processo”, diz.

Programa para evitar danos futuros

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que em dez anos o trânsito seja a terceira maior causa de mortes no mundo. A PRE coloca em prática o projeto piloto de um programa de educação no trânsito criada para mudar esta expectativa da OMS.

Cerca de 900 crianças da rede de ensino público de Porto Alegre tiveram incluídas nos seus currículos a disciplina de Educação no Trânsito, na qual professores são capacitados por policiais para ministrarem as aulas.

A previsão é de que até 2013 o projeto seja trabalhado em escolas da região. Uma lei que entrou em vigor dará amparo ao projeto. Ele prevê que os municípios devam investir 10% dos arrecadamentos do IPVA em educação no trânsito.

Segundo mês mais violento do ano

Dezembro é o segundo mês mais violento nas estradas gaúchas, perdendo apenas para abril, quando 168 pessoas morreram neste tipo de ocorrência. Até ontem, passava de 110 o número de mortos. No total, foram 1.622 mortes no estado neste ano.

Recomendações para uma viagem segura no fim de ano

1– Verificar a documentação pessoal e do veículo antes de sair de viagem;

2– Avaliar o estado do veículo, bem como todos os equipamentos obrigatórios;

3– Evite viajar à noite, principalmente se não conhecer a rodovia;

4– Saia com antecedência, sem pressa;

5– Todos os ocupantes adultos do veículo devem usar o cinto de segurança, e crianças em assentos especiais conforme o tamanho;

6– Ande dentro dos limites de velocidade;

7– Na dúvida não ultrapasse;

8– Mantenha uma distância segura do veículo que vai à sua frente. Caso esteja na frente de algum caminhão, jamais freie bruscamente, ele não para tão rapidamente como o seu carro;

9– Sob chuva o risco aumenta, a viagem deve ser evitada ou a cautela redobrada;

10– Jamais beber ou pegar carona com alguém que bebeu.