Terror no Rio assusta parentes no Vale

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Terror no Rio assusta parentes no Vale

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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

As imagens impres­sionantes de con­flitos urbanos não são novidades aos cariocas. Mas, a transmissão em tempo real de um confronto dessa porte é iné­dita. Os movimentos de ocupa­ção da favela denominada Vila Cruzeiro foram transmitidos ao meio-dia de quinta-feira para todo o país ao vivo pela televi­são.

“Se deslocam carros blindados da Marinha, modelos usados em guerras, assim como os fuzis que estão em poder dos soldados dos dois lados”, relata o corres­pondente da Veja Online direta­mente do local da invasão.

Até as 23h de quinta-feira, pelo menos 25 pessoas morre­ram. Entre eles um inocente morto por uma bala perdida na Vila Cruzeiro. A reação violenta dos narcotraficantes contabili­za mais de 70 veículos incen­diados.

violenciaPara reforçar a segurança, o Ministério da Defesa enviou ao Rio de Janeiro 800 militares do Exército para auxiliar a polícia local no combate à violência na capital e nas cidades vizinhas. Eles somam-se aos outros 750 policiais que atuam nos locais.

A comissária de bordo lajea­dense Vanessa Beuren mora na Ilha do Governador há cerca de dois anos. Ela relata que na noi­te de quarta-feira, após chegar de uma viagem precisou dormir em um hotel em Copacabana por ter sido impedida de se des­locar pela Linha Vermelha.

A principal via de circulação na capital carioca foi isolada pela polícia com barricadas a fim de evitar que os bandidos se deslocassem para o centro da cidade. Segundo ela, que na tarde de quinta-feira se encontrava em casa, a situação na cidade é de medo, independente da dis­tância da favela Vila Cruzeiro, onde ocorre a invasão das for­ças policiais e militares.

“No momento vejo pela te­levisão a cobertura ao vivo da invasão da favela pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) e da fuga dos marginais para a o Complexo do Alemão. Essa é considerada uma das maiores do Rio com cerca de 400 mil ha­bitantes”, relata.

Vanessa acredita que a atua­ção das Unidades Pacificadoras da Polícia Militar que afetou o comando do narcotráfico nessas áreas forçou a reação dos trafi­cantes que atacaram o chama­do asfalto, queimando diversos ônibus.

“Esse tipo de ação havia acon­tecido antes, mas penso que des­sa vez o poder público resolveu enfrentar de fato esses crimino­sos”, afirma. Mesmo morando longe das áreas de conflito, ela se diz assustada.

Seus pais, Roque e Inês Maria Beuren, moradores do bairro Conventos, em Lajeado, contam que estão apreensivos com a violência que têm acompanha­do pelos meios de comunicação. Mesmo que Vanessa more longe das favelas, a fuga dos margi­nais para as áreas do centro é o que mais os pais.

“Com as armas de grosso ca­libre que perfuram paredes a quilômetros de distância, nunca se está completamente seguro”, reclama Inês. Ela e o marido con­tam que ligam frequentemente para a filha a fim de lhe transmi­tir tranquilidade. Eles dizem que rezam para que a situação volte ao normal nem tão normal.

“Nos sentimos prisioneiros”

A arroio-meense Núbia Bolkenha­gen, que mora no bairro Laranjei­ras, no Rio de Janeiro, há cerca de 20 anos, relata que a situação nos locais de confronto, que se locali­zam há pouco mais de quatro qui­lômetros de sua residência, é assus­tadora. “Nos sentimos prisioneiros em casa”, desabafa.

Ela relata ter visto a movimen­tação dos caveirões do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e blinda­dos da marinha nacional e diz que sente a apreensão da população, quando observa as ruas vazias e os estudantes deixando de irem à escola. Segundo dados do portal G1, só no município são mais de 12 mil alunos que tiveram as aulas inter­rompidas.

O secretário de Segurança disse à emissora de televisão que a popula­ção precisa seguir sua rotina. “Mas, depois de cinco dias de ataque dos soldados do tráfico e a tomada da fa­vela é impossível agir como se nada estivesse acontecendo”, reclama.

Núbia é casada com um médico natural do Rio de Janeiro e ele preci­sa se deslocar constantemente pela cidade por motivos profissionais, deixando-a apreensiva. “Ainda mais agora”, completa.

O casal tem dois filhos, um de 10 e outro de 4 anos, e procura focar-se no trabalho e na rotina, evitando o assunto na presença das crianças para não assustá-las.

Sua irmã Lori Franz, moradora do Distrito de Forqueta, em Arroio do Meio, preocupa-se com o casal e os sobrinhos. “É de assustar saber que o Rio passa por isso e que tenho parentes tão perto de uma zona de guerra”, conta.

Ela acompanha a situação pela imprensa e afirma que tenta conta­tá-los sempre que possível.

Conforme o coronel Mário Sérgio Duarte, comandante-geral da PM, este é, até o momento, o conflito mais sangrento da história das operações em favelas. A diferença entre aquela ação e a de hoje, é a declaração das autoridades que pretendem dar continuidade à ocu­pação.

Para Irineu Wickert, empresário lajeadense que tem um irmão, Celso, residente no bairro Laranjeiras na capital carioca, a situação é grave, mas localizada. Ele acredita que a polícia cumpre o seu dever e que para morar no Rio é necessário “sa­ber muito bem onde se pisa”.

Ele revela que nos contatos recen­tes, o irmão relatou a sensação de in­segurança em locais, como a Linha Vermelha e a Av. Régis Bittencourt, próximas das favelas ocupadas.

“Mesmo assim, o local onde meus familiares moram não é um alvo tí­pico desses bandidos. Ficamos com o coração na mão, acompanhando tudo pela televisão e torcendo para que termine logo e da melhor for­ma”, conclui.

Números até 23h de quinta-feira

750 policiais civis e militares atuam na operação. Mais 800 soldados do exército.

188 pessoas presas ou detidas

72 veículos foram queimados

25 mortos