Criança solitária torna-se estressada

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Criança solitária torna-se estressada

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O Brasil é um dos países mais estressados do mundo. Os resultados do estudo da psicóloga Cláudia Rosi Sbaraini, realizado com 883 estudantes da 4ª série do Ensino Fundamental das escolas de Lajeado em 2007 – na média de 10 anos de idade –, indicou que 18,24% das crianças sofriam de estresse. Segundo ela, há forte associação do problema com o vínculo social frágil. As crianças estressadas tinham poucos amigos, não se relacionavam com os colegas ou vivam afastadas de vizinhos, eram isoladas. A pesquisa foi realizada por meio de questionários aplicados aos pais e as crianças. A dinâmica familiar é outro fator que influencia no comportamento dos filhos. “A criança aprende por modelo e não por instrução”, explica. Isso inclui a maneira que os pais lidam com os problemas diários e como o resolvem ou discutem eventos estressantes em casa. Pais atarefados também implicam no aparecimento dos sintomas. “As crianças hoje estão muito sozinhas”, nota. Faz parte ainda de situações geradoras de estresse brigas entre pais ou com irmãos, separação conjugal, atividade em excesso, hospitalização, perdas, mudanças constantes na rotina e abandono materno ou paterno.

Como perceber

Cláudia alerta que criança estressada não é necessariamente a que é nervosa, irritada ou intolerante, mas também a que não quer brincar, bagunçar – porque peraltice faz parte da infância –, quer ficar sozinha e quieta no seu canto. Possivelmente se está quieta é porque não consegue extravasar. “No limite de sua exaustão ela não consegue fazer nada, nem brincar, nem estudar, nem ser feliz”, adverte. Os pais e professores podem se atentar a sinais, como mudança de comportamento, quando a criança se isola dos demais, sente medo, sente-se insegura para dormir sozinha ou apresenta sintomas físicos. A primeira queixa é dor de cabeça, depois dor de estômago e cansaço porque o corpo não aguenta mais lidar com o fator estressante. A psicóloga diz que é mais fácil para a escola perceber essas mudanças de comportamento no aluno. O isolamento, a conduta perante os outros e o desinteresse nos estudos indicam o problema. Nesse caso, a escola tem o papel de alertar os pais.

Meninas sofrem mais do que meninos

Cláudia descobriu que a prevalência de estresse no sexo feminino é maior, sendo 20,9% contra 15,4% no sexo masculino. Isso se deve ao amadurecimento das meninas, que se dá geralmente dois anos antes. “Aos 10 anos elas estão num período de cisão entre a infância e a pré-adolescência. Ocorrem mudanças fisiológicas e emocionais”, cita. Elas têm ainda, como define a psicóloga, uma carga social mais exigida do que eles, pois em muitos casos cuidam de irmãos e têm que ajudar nas tarefas domésticas.

Livre da agressividadebruna

Quando estava na 4ª série, Bruna dos Santos foi uma das crianças que participaram da pesquisa. Agressiva, ela se irritava facilmente e não pensava antes de agir. Hoje, aos 15 anos, a menina ainda se diz impaciente, mas sabe se controlar e não bate mais nos colegas. “Eu era bem estressada. Qualquer coisa que acontecia partia para a agressão e nem me importava”, relata. A agressividade no ambiente escolar muitas vezes era resultado de irritações que acumulava dentro de casa. Segundo Bruna, querer algo e não ganhar ou ser repreendida pela mãe influenciavam muito no seu estresse. “Eu tinha que descontar a minha fúria em alguém, tinha que bater nos colegas”, completa. A jovem não fez tratamento para reduzir a irritação e atribui seu modo mais tolerante à passagem do tempo. “Quando participei da pesquisa nem dei bola, continuei sendo do mesmo jeito, mas quando fui para a 5ª e a 6ª série mudei”, afirma. Bruna sabe que melhorou seu modo de viver e sente-se feliz por pensar nas conseqüências antes de agir.

Tratamento caseiro

Há situações em que sequer é preciso o tratamento médico. Basta os pais perceberem a situação e manter o diálogo com os filhos, pois o agravante é a criança não ser percebida, é ninguém ver que há sofrimento ali. “Ela perde muito da infância nessa situação”, observa. Cláudia lembra que durante a pesquisa algumas contavam que se sentiam à parte da vida dos pais, denotando a solidão. Outra medida desestressante é a criança realizar atividades que lhes dêem prazer, pois dessa forma relaxa. Em casos mais complexos será necessário a consulta com um psicólogo ou psiquiatra e a prescrição de medicamentos. Se não for tratado, o estresse pode seguir para a vida adulta, acarretando problemas, como depressão, hipertensão, doenças cardíacas e doenças de pele.