Falta de interesse ameaça setor calçadista

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Falta de interesse ameaça setor calçadista

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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Vale do Taquari -Um dos ramos que mais empregava pessoas na região, hoje enfrenta difi­culdades de encontrar mão de obra para suprir as vagas. Fá­bricas de calçados procuram mais de 500 funcionários em pelo menos seis cidades do Vale. No entanto, há poucos interessados devido aos bai­xos salários e benefícios e à instabilidade do setor. trabalho

Exemplo é a Calçados Beira Rio S/A que adquiriu parte dos prédios da Calçados Andreza, em Santa Clara do Sul, e firmou compromisso de absorver os 300 empregados demitidos. No entanto, está com dificuldades de contra­tar 200 pessoas. A Calçados Bottero, que negocia a com­pra dos prédios da Calçados Majolo, no bairro São Cae­tano em Arroio do Meio, fará nos próximos dias um pré-recrutamento para selecionar cem pessoas e verificar se há mão de obra qualificada para a empresa instalar-se na ci­dade. A mesma empresa tem uma unidade em Travesseiro, onde foram abertas mais cem vagas, e para preenchê-las es­tão contratando funcionários de cidades como Forquetinha e Pouso Novo.

A secretária da Indústria e Comércio de Arroio do Meio, Jaqueline Kuhn conta que mais de 80 pessoas da cidade que trabalhavam na Calçados Majolo conseguiram empre­go em fábricas de Muçum e Roca Sales. Ela entrou em contato com alguns para que voltassem a trabalhar na cidade. O presidente do Sindicato dos Calçadistas, Gerson Valdir Brackmann, desacredita no retorno dos empregados e diz que a nova fábrica enfrentará problemas para encontrar mão de obra na cidade.

Em Lajeado, foi registrada uma queda de 65% no núme­ro de trabalhadores do ramo calçadista, em relação aos últimos quatro anos. Estão instaladas na cidade 16 fábri­cas do setor, que empregam juntas cerca de 900 pessoas. Conforme o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias e Ateliers do Calçado e do Vestuário, Mar­cos Signori, a instabilidade do setor e a baix
a remuneração fazem com que os emprega­dos migrem entre os setores. “A troca mais comum é para o ramo alimentício. Em que as exigências são semelhan­tes”, conta. Marcos relata que as fábricas de alimentos são mais estáveis e pagam mais. O piso inicial para o trabalhador da alimentação é de R$ 570, ou seja, R$ 40 a mais que o do calçado.

Em Teutônia, a sobra de vagas repete-se. As quatro empresas de calçados existen­tes na cidade sempre têm mais de dez vagas disponíveis, e conforme o gerente do Sis­tema Nacional de Emprego (Sine) local todas as pessoas que procuram emprego no segmento são admitidos ime­diatamente.

Fábricas favorecem arrecadação

Se para os trabalhadores as indústrias calçadistas deixaram de ser atrativas, prefeitos da região come­moram suas instalações nos municípios, pois visam o crescimento econômico.

Em Travesseiro, confor­me a auxiliar administrativa do município, Carla Henz, a Bottero recebe um incen­tivo de R$ 10 mil mensais, durante 12 meses, para cus­tear o aluguel do prédio da Calçados Majolo. Em con­trapartida a empresa estima gerar 74% da arrecadação no setor industrial, o que em um ano equivalerá a R$ 10 mi­lhões em valor adicionado.

Em Santa Clara do Sul, município e empresa ante­ciparam suas tratativas em um protocolo de intenções. A prefeitura não cobrará o Imposto sobre Transmissão de Bens e Imóveis (ITBI); reduzirá 50% sobre o in­cremento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), cedeu a terraplenagem, instala­ção telefônica, luz, água, licenças como ambientais e de construção, vagas para creche e participação de limpeza no prédio antes das novas instalações. Em contrapartida a empresa deverá gerar em oito anos R$ 115 milhões em valor adicionado para o municí­pio e ser responsável pela empregabilidade de 10% da população local. O prefeito Paulo Kohlrausch pretende tornar a cidade um grande parque industrial.

Dos calçados para a construção civil

Marcelo Legamanti, 25 anos, trabalhava na Calçados Majolo de Travesseiro e quando a empresa faliu ficou desempregado. A primeira oportunidade que surgiu o foi na construção civil. Hoje, ele teria como voltar a trabalhar com calçados, mas prefere a profissão de servente de pedreiro porque o salário é maior.

Os casos repetem-se para o pedreiro Eliseu Heck, 44 anos, e para o azulejista Maico Rodrigo Wickert, 29 anos, que trabalharam durante nove e sete anos, respectiva­mente, no ramo calçadista. Heck comenta que além de ser financeiramente mais vantajoso, o trabalho com cons­trução civil, comparado com o calçadista, é melhor.