Família cercada pelo crack

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Família cercada pelo crack

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Uma mãe aflita com o envolvimento de seis familiares com o crack pro­curou na última semana ajuda do Ministério Público, pedindo trata­mento para os familiares. Moradora de um bairro carente de Lajeado, ela cria três netas adolescentes e um sobrinho de 2 anos que foram abandonados pelos pais usuários de drogas.

“Tenho 50 anos, mas me sinto com mais de 70 anos. Estou cansada e com medo”, diz. A mulher é viúva e trabalha de segunda-feira a sábado como empregada doméstica em famílias da cidade. Fora disso, sua rotina é cuidar das netas e mantê-las longe das drogas. Mérito que não conseguiu com filhos, sobrinhos, irmã e cunhados que se envolve­ram com o crack por influência de amigos. Ela diz que o único erro como mãe foi tentar dar tudo para os filhos.

crackA casa dela possui trancas em todas as aberturas e algumas foram isoladas para impedir a passagem. Os filhos e irmã roubaram a casa diversas vezes e o principal receio dela é que as netas sejam vítimas dos familiares. “Com elas estou sendo diferente. Não as deixo saí­rem de casa sozinhas e nem terem amigos drogados”, revela.

Na semana passada, sua filha de 30 anos sofreu tentativa de homi­cídio no centro da cidade. A moça roubou drogas de outros viciados e por vingança eles derramaram-na álcool para incendiá-la. “No desespero eles sempre vão para casa”, fala.

Com o auxílio da BM, a irmã e o cunhado foram resgatados e internados em leitos no Hospital Bruno Born de Lajeado. A filha foi encontrada uma semana de­pois. “Eles fogem, se escondem e dizem que não precisam de tratamento, porque nada importa e não possuem mais nada a perder”, conta. A mulher emocionada diz que sente saudades da filha, que ainda a chama carinhosamente de “nenê” e de como ela era antes do vício – comprometida com sua vida e atenciosa com as filhas. Lamen­tando a mãe explica que a filha era gordinha, bonita e até foi rainha do carnaval, hoje quando passa pela ciclovia de ônibus vê a filha magra e suja, pendida sob latas de lixo ,procurando algo para comer.

Abandonou as filhas por um amor que a levou ao crack

A filha de 30 anos hoje perambula pela cidade como uma mendiga. Sua casa é na rua e para conseguir dinheiro para o crack ela se prostitui. A mãe só tem contato com a jovem quando a mesma à procura desesperada, pedindo comida ou fugindo de ameaças de morte. As três filhas adolescentes (11, 12 e 15 anos) tem vergonha da viciada, porque na escola os colegas, as apontam como “filhas da craqueira”. Conforme a mulher as tentativas de internação foram um fracasso porque a jovem sempre diz que não quer ajuda e não tem nada a perder na vida. No início da semana, ela foi internada no Hospital Bruno Born e na sexta-feira será encaminhada para tratamento em uma Fazenda em Montenegro.

Sua história com as drogas começou há três anos, quando conheceu um rapaz de 18 anos e se apaixonou por ele. O jovem usava crack e ela começou a usar com ele. Suas filhas foram deixa­das sob os cuidados da avó. A mulher comenta que no início a filha ainda queria ficar em casa, mas roubava tudo da mãe para trocar por crack.

Filho pegou Aids por seringa

O filho de 31 anos começou a usar drogas com 14 anos. Ele inje­tava cocaína na veia até que descobriu que estava com o vírus HIV (Aids), transmitido pelo uso compartilhado de seringa. Dependente químico passou a con­sumir o crack na com­panhia dos tios, também viciados, assim que a droga chegou na cidade. Conforme a mãe, com o novo vício ele ficou agressivo e a vontade consumir a droga au­mentou. O jovem come­çou a roubar dentro da própria casa, até a mãe o expulsar. Morador de rua, sua alimentação são restos de comida no lixo e o crime tornou-se rotina.

Na semana passada a mãe ficou sabendo que o filho foi preso por roubo. “Prefiro ver ele preso que na rua roubando com perigo de ser morto”, relata.

Casal perdeu guarda da filha pelo vício

A irmã e o cunhado da mulher usam drogas desde a adolescência, mas antes de conhecerem o crack viviam com a família e tinham controle dos atos. Há dois anos por denúncia de moradores eles perderam a guarda da filha de 15 anos, porque fumavam perto da menina dentro de casa. Agora com mais um filho, um menino de 2 anos, continuam no vício e quase perderam a guarda dele também. A mulher pediu que o menino ficasse com ela, e o casal foi morar na rua. Na semana passada ambos foram internados no HBB. Mas há previsão de alta e retorno às ruas.

Pai incentivou o filho

O outro cunhado da mulher abando­nou o filho quando pequeno. Ele morou alguns anos com a mulher, mas aos 16 anos ao procurar o pai também se envolveu com o crack. O próprio pai foi o incentivador do uso. Agora pai e filho moram na rua e disputam o roubo para adquirir mais droga.

Secretário não acredita na cura de drogados

A 15 dias da inauguração de um Ambulatório AD (álcool e drogas) o secretário da Saúde de Lajeado Renato Specht confessa que não acredita na cura de drogados e que o tratamento apenas ameniza o problema da sociedade.

A prefeitura gastará por mês R$ 45 mil para manter o prédio, sete profissionais de nível superior e quatro de nível médio, medicamentos e alimentação fornecidos aos pacientes e uma equipe de apoio que será a mesma do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps). No entanto, para Specht esses gastos são excessivos para este ano. “Ninguém se preocupa com as drogas”, indaga. Na sua visão a cidade é a única que possui três Caps na região. O secretário manifesta que crack é um problema social e não de saúde pública.

O atendimento especializado em drogas foi solicitado pelo Fórum da Drogadição e executado depois da insis­tência dos organizadores com os gestores municipais. Contudo, Specht alega que o ambulatório é um projeto antigo do município e não cumprimento de tarefas do Plano Municipal de Enfrentamento às Drogas do qual participa.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que 10% dos habitantes das cidades sofrem com alco­olismo; 3 a 4% com drogas e desses 1% com o crack. Então, Lajeado que possui cerca de 70 mil habitantes, tem em média 700 usuários de crack. Esses números para Specht são relativos porque no total hoje são atendidas 750 pessoas no Caps. Ele ressalta que a demanda reprimida só poderá ser calculada quando o am­bulatório estiver em funcionamento e houver procura.

O objetivo do serviço é fazer o primeiro atendimento ao usuário de drogas, assistir sua família e encaminhá-lo para tratamento que ainda precisa de definições na cida­de. O secretário diz que existe uma lacuna de vagas na região e que a 16ª Coordenadoria Regional de Saúde deve indicar locais na região que possuem cobertura do estado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas conforme Specht isso não acontece porque ainda se tem dificuldades de credenciar clínicas ao sistema, visto que muitas ainda não estão adaptadas às exigências.