A feira que mudou Lajeado

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A feira que mudou Lajeado

A feira que mudou Lajeado
A Fenal deu nome ao Alto do Parque e foi o embrião da Expovale (Foto: arquivo)

Foi durante as comemorações do Jubileu de Diamante de Lajeado que a Feira Nacional de Laticínios e Exposição Agropecuária (Fenal) ocorreu. O ano era 1966 e o município completava 75 anos de emancipação. Na época, lideranças locais se uniram para organizar um evento marcante, realizado durante duas semanas, sob a direção de Nilo Rotta. Empresário em vários segmentos, Rotta foi o grande idealizador da feira e buscou investimentos federais e estaduais para o município.

Naquele tempo, a Laticínios e Cereais S.A. (Lacesa) era uma das maiores empresas de Lajeado e motivou o tema central da feira. No ano anterior, a área do atual Parque do Imigrante foi comprada pela administração municipal, na época, chefiada por Dalton de Bem Stumpf.

Um único pavilhão foi erguido no local. “Era uma obra de arte, a cúpula de madeira do pavilhão era o maior vão livre do gênero na América Latina”, recorda Carlos Alberto Martini, 72. Ele tinha 14 anos quando visitou a Fenal. “A feira tinha muitas empresas respeitadas, inclusive de fora da região, além de animais e até um parque, com carrossel. A Fenal projetou Lajeado para o Estado e deslumbrou toda a cidade”.

Rosa Maria Christ da Silva foi a Rainha da Fenal

A BR-386, à época chamada de Estrada da Produção, ainda estava em construção. “A rodovia não era pavimentada e nem o acesso ao parque. Choveu no primeiro dia de feira e a estrada virou um barral, então a Fenal recebeu o apelido de ‘Feira Nacional da Lama’”, recorda.

Mesmo com o sucesso da primeira edição, a Fenal nunca mais foi realizada. Um ano depois, em 1967, um tufão passou por Lajeado e destruiu o pavilhão. Foi somente em 1974 que a cidade sediou um novo evento do gênero, a Feira Agro-Industrial. Em conjunto, o Rodeio Crioulo, do CTG Bento Gonçalves, também passou a ser realizado. Em 1982, ocorreu a primeira edição da Expovale.

“A cada ano, a feira se tornou maior. Por muito tempo, a Expovale compartilhou o parque com o rodeio, mas, depois, os dois eventos ficaram muito grandes e exigiram uma separação”, lembra Martini. Ele foi Secretário Executivo da feira por cerca de 20 anos. No Governo de Lajeado, foi Secretário de Desenvolvimento Econômico e presidiu a Expovale em 1987.

“A maior diferença daquele tempo para cá é a projeção que a feira alcançou, com a modernização da estrutura do parque e o volume de negócios. O propósito inicial se manteve, de certa forma. A ideia sempre foi alavancar a economia regional e projetar as empresas, desde aquela primeira edição da Fenal”, comenta.

O parque nos fundos de casa

O bairro Alto do Parque ficou assim conhecido por causa do Parque do Imigrante. Às margens dessa área, a família de Nilo Roque Gerhard, 68, acompanhou de perto a transformação do bairro. “Meu avô tinha 35 hectares por aqui, as terras iam até a Avenida Alberto Pasqualini”, conta. O avô, Adão Ely Sobrinho, plantava cana de açúcar e mantinha um alambique na rua Otelo Rosa, ao lado do parque. “Fora a plantação, o resto era potreiro, com vários animais”, lembra.

Gerhard nasceu em Três Passos, para onde os pais lajeadenses se mudaram no casamento. Ele voltou ainda na juventude para o bairro e mora no Alto do Parque há 50 anos. “A Avenida Alberto Müller era chamada de Avenida da Fenal, e só era aberta até o parque, conectando à BR. Lembro que meu pai e meu tio doaram terras para o trecho seguinte da avenida”.

Para chegar ao bairro, conta Gerhard, o único acesso era pela rodovia ou passando pelos trilhos que iam para São Cristóvão ou Carneiros. “A avenida era uma estrada de chão com barro. Carros capotavam volta e meia e a gente, que morava aqui na redondeza, tinha que ajudar. Naquele tempo. quase não tinha morador além da minha família.”

A Escola Polivalente

Foto: arquivo

Não muito longe do Alto do Parque e prestes a completar meio século de história, a Escola Estadual Érico Veríssimo de Lajeado começou com uma proposta diferente da atual. À época que foi criada, no bairro São Cristóvão, era chamada de Escola Polivalente, um modelo educacional desenvolvido pelo Programa de Extensão e Melhoria do Ensino (Premen). Esses educandários só atendiam estudantes dos anos finais do fundamental e, no turno inverso ao escolar, ensinavam técnicas industriais, comerciais, agrícolas e domésticas.

A professora Neí Oliveira Araújo, 70, estava entre os primeiros docentes contratados para a escola. Vinda de São Francisco de Assis, chegou em Lajeado dias antes do Érico ser inaugurado, em 6 de setembro de 1976. Neí tinha 22 anos na época. “Passei no concurso estadual e fui enviada para cá. Eu nem conhecia Lajeado, nunca tinha ouvido falar”, lembra. Nesse começo, conta Neí, a maioria dos professores era de fora, concursados de outras cidades. O primeiro diretor, Geraldo Mallmann, e o vice, João Frederico Backes, eram de Lajeado.

Neí mora há 48 anos em Lajeado e, desses, passou 37 no Érico. “Quando cheguei, o prédio estava pronto, mas faltavam os materiais. Nem calçamento tinha na rua ainda”, conta. O ano letivo começou em 1977, com 400 alunos matriculados.

Neí se formou em Técnicas Domésticas na Universidade de Passo Fundo. No Érico, dava aulas de bordado, costura, cozinha. “A escola tinha uma estrutura completa para os cursos profissionalizantes. Nas Técnicas Agrícolas, os alunos cultivavam hortas no pátio e a área industrial tinha todo tipo de maquinário. Era muito moderno na época, as salas eram completas”, descreve.

Esse modelo de ensino continuou até os anos 2000 na escola, conta Neí. Depois que as Técnicas Domésticas foram retiradas do currículo, Neí deu aulas de Artes no Érico Veríssimo. Também ajudou a organizar a biblioteca da escola, onde trabalhou, assim como na vice-direção. Ela continuou na escola até depois da aposentadoria e deixou a sala de aula em 2013. “Nesses quase 40 anos que fiquei, a escola só cresceu. Sempre fui muito ligada ao Érico, gostava do que fazia e me preocupava com os alunos. Tenho muito amor pela escola.”

Do pré ao ensino médio

Quem também guarda um carinho pelo Érico é a ex-diretora Denise Sandri Labres, 60. Por mais de 20 anos, esteve envolvida com a escola. Formada em Letras pela Univates, chegou no Érico em março de 1996.

Dentro da Escola Polivalente, Neí ensinava Técnicas Domésticas, entre os conteúdos, estava a culinária

“Comecei com o pré, naquela época, a escola atendia desde o pré até o ensino médio. Ao longo dos anos, passei por todas as séries, onde ensinava Literatura e Português”, conta. Por ter surgido como Escola Polivalente, as salas de aula tiveram de ser adaptadas ao formato mais tradicional. “Os grandes espaços, voltados às técnicas industriais ou domésticas tiveram de ser remodelados em salas de aula normais”, lembra.

Em 2000, Denise assumiu a direção do Érico pela primeira vez. “Sempre achei o espaço do Érico incrível e, nesses quase 24 anos que fiquei lá, quando vejo tudo que foi feito, sinto que a missão foi cumprida”, destaca.

O nome atual foi definido ainda em 1979, por decisão da comunidade escolar. Uma homenagem ao escritor gaúcho Érico Veríssimo. Nesses quase 50 anos de história, a escola ensinou desde a pré-escola até a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Hoje, concentra apenas o ensino médio.

Para além do Érico Veríssimo, o bairro São Cristóvão também foi berço de outras muitas escolas, como o Colégio Gustavo Adolfo, a Apae Lajeado, a Escola Otília Corrêa de Lima, além do Senai.

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