Real completa três décadas de estabilidade

do papel ao digital

Real completa três décadas de estabilidade

Moeda entrou em circulação em 1994, deu fim aos anos de hiperinflação e criou condições para o desenvolvimento da economia

Real completa três décadas de estabilidade
Colecionador de moedas, Adriano Schossler também inclui em sua coleção as notas que fizeram parte da história do Real. (FOTOS: THIAGO MAURIQUE )
Brasil

O dia 1º de julho de 1994 ficou marcado na história do desenvolvimento do Brasil. Naquela data, os brasileiros começaram a receber em mãos as notas coloridas e moedas que, com algumas exceções, continuam a habitar as carteiras da população.

De forma mais profunda, o país testemunhava o fim de um período de hiperinflação que corroía o poder de compra dos trabalhadores ao mesmo tempo em que tornava impeditivo o investimento do setor empresarial.

Nos 20 anos anteriores, a moeda havia sido trocada seis vezes, na tentativa de conter a escalada desenfreada de preços iniciada ainda na década de 1970. O Cruzeiro, em circulação desde 15 de maio de 1970, foi substituído por Cruzado (1986), Cruzado Novo (1989), Cruzeiro (1990) e Cruzeiro Real (1993). Todas as mudanças vinham acompanhadas de cortes no número de zero e planos fracassados para conter o chamado “Dragão da Inflação”.

Empresário contábil e consultor, Valmor Kappler afirma que as mudanças constantes, além de não resolverem os problemas da economia, ainda dificultavam o trabalho dos contadores e, consequentemente, das empresas. “Trabalhar nos períodos que precederam o Plano Real ra literalmente produzir informação permanentemente desatualizada.”

Lembra que, no período de 1986 a 1994 o Brasil teve seis planos econômicos, chegando ao ápice de IPCA de 2.500% em 1993. “Qualquer plano econômico proposto pelo governo nascia desacreditado. Rodízio de ministros e apostas mirabolantes construíam o ceticismo total quanto a possibilidade do Brasil acertar o passo e controlar a inflação.”

Transição entre o Cruzeiro Real e o Real incluiu o CRV – unidade monetária virtual que convertia o dinheiro antigo. As tabelas de conversão eram encontradas em bancos e demais instituições financeiras

Foi com essa desconfiança que o governo do Presidente Itamar Franco colocou em curso o plano capitaneado por Fernando Henrique Cardoso, nomeado Ministro da Fazenda em maio de 1993. A mudança da moeda foi acompanhada por uma série de ajustes estruturais, incluindo privatizações de empresas estatais e reformas no sistema financeiro.

O plano resultou na queda significativa da inflação e estabilizou o ambiente econômico. Conforme Valmor Kappler, mesmo que a ainda exista inflação, os índices seguem até hoje em patamares alinhados com as demais economias de diferentes blocos da economia mundial. O monstro da hiperinflação ficou no passado e, apesar do descrédito, o Plano Real vingou.

Negócios na transição

Com 30 anos de história completados dia 27 de junho, A Mobília Imóveis foi criada três dias antes do início da circulação do Real

Diretor da A Mobília Móveis, Vandro Kunzler decidiu empreender em meio a transição provocada pelo Plano Real. As primeiras lojas abriram no dia 27 de junho de 1994, quatro dias antes do início da circulação do Real.

“Nós estávamos na época da URV e não podia guardar dinheiro em casa que no outro dia valia menos”, lembra. Em junho de 1994, a inflação acumulada nos 12 meses anteriores chegou a impressionantes 4.992%. Diante desse situação, os empresários tinham que enviar o dinheiro recebido no dia ao banco para uma aplicação que ficou famosa por render juros diários: o overnight.

Outra situação comum era a compra e venda de dólares, assim como o uso da moeda americana para compras de imóveis, veículos, máquinas e demais bens de maior valor agregado. “Não existia comprar de um fornecedor a prazo e nem mesmo facilidades na hora de vender. Era vantajoso apenas para quem tinha muito dinheiro e podia comprar grande quantidade de produtos para manter em estoque.”

Como essa dinâmica favorecia as grandes empresas situadas nas capitais, a mudança na moeda também favoreceu o desenvolvimento das empresas do interior. “A economia cresceu muito e para o comércio foi o grande divisor de águas.”

Condição para crescer

Presidente da Sorvebom, Martin Eckhardt lembra das dificuldades de empreender em uma época marcada por aumento de preços constantes. A empresa de sorvetes foi fundada em 1983, em meio as enormes turbulências econômicas do período que antecedeu o Plano Real.

“Os preços mudavam tão rapidamente que nossas tabelas eram em um quadro com os nomes pintados, mas os preços marcados por giz. O valor era trocado duas a três vezes por mês”, lembra. Segundo ele, era preciso ficar atento às tabelas dos fornecedores para comprar os insumos antes das viradas de preços para minimizar as elevações ao consumidor.

Antes da estabilização, a Sorvebom não tinha venda em escala, mas duas lojas em Lajeado e uma em Estrela. Na época, era comum pessoas andarem com grandes volumes de dinheiro, que serviam para comprar poucos produtos. Conforme o empresário, mesmo quem guardava dinheiro nos bancos acabava prejudicado, porque as correções eram menores que os aumentos da inflação.

“Em 41 anos de empresa, passei por muitos planos e governos, mas o Plano Real foi a melhor coisa que aconteceu para o Brasil”, aponta. Com a inflação controlado, foram criadas as condições para os investimentos que resultaram no crescimento da empresa. Para Eckhart, o principal mérito do pano econômico foi dar a segurança necessária para os investimentos do setor privado.

Gestão dos números

Essencial para a saúde financeira das empresas, o setor contábil ainda sofre com a complicada e burocrática malha tributária do país. Porém, as complicações eram ainda maiores antes da estabilização financeira. Valmor Kappler afirma que a informação contábil perdia completamente a essência diante da hiperinflação.

“Contas como bens do imobilizado e patrimônio líquido eram corrigidas mensalmente pelos índices oficiais de inflação na tentativa de manter o valor”, lembra. As grandes companhias dolarizavam a escrituração contábil, de forma a apresentar uma base sem inflação, comparável e utilizável no planejamento empresas

“Instalava-se um verdadeiro caos para processar essa informação nos registros contábeis, com os parcos recursos de informática que se dispunha na época”, destaca. Conforme Kappler, partir do plano real, gradativamente, a informação contábil passou a ocupar um espaço relevante como base de dados para tomada de decisão de todas as empresas.

Valor colecionável

Os 30 anos do Plano Real também trazem reflexo para o universo dos colecionadores, os chamados numismáticos. As notas e moedas com pouca circulação podem valer milhares de reais a depender da raridade e do estado de conservação.

Colecionador a mais de 30 anos, André Schossler afirma que no meio numismático, nada no plano real é, de fato, raro – termo sado somente em peças muito específicas. “Temos algumas unidades escassas. A principal delas é a moeda de R$ 1 dos Direitos Humanos, cunhada em 1998.”

Também tem valor relevante no mercado a moeda de R$ 1 da Bandeira Olímpica, cunhada em 2012, a cédula de R$ 10 de plástico, comemorativa aos 500 anos do descobrimento, que circulou entre 2000 e 2006 e as notas de R$ 1, que saíram de circulação em 2003.

Ainda despertam interesse dos colecionadores as moeda de R$ 1 de Inox e as de R$ 0,10 e R$ 0,25 comemorativas da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). “O valor de mercado de uma moeda colecionável varia conforme o metal utilizado, a quantidade fabricada, a procura e a qualidade”, explica.

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