O progresso de Lajeado como um dos municípios mais pujantes do interior do Rio Grande do Sul tem explicação nas suas vocações e origens. E o desenvolvimento local foi acompanhado de perto por uma entidade que chega hoje ao seu centenário. Há exatos cem anos, era criada a Associação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil).
Um grupo de visionários, liderados à época por Carlos Fett Filho, deram o pontapé inicial na atuação da associação empresarial. De um início marcado por dificuldades e percalços, a entidade se consolidou com o passar do tempo. Tornou-se conhecida e respeitada não só em Lajeado, mas fora do Vale, por conta de sua atuação.
Além de defender os interesses dos empresários, a Acil assumiu papel importante em demandas que visam melhorar a qualidade de vida da comunidade. E o desafio para os próximos anos é manter este protagonismo no desenvolvimento regional, com atenção especial à inovação.
O voluntariado, neste sentido, faz toda a diferença, conforme o atual presidente, Cristian Bergesch. Para ele, é o grande legado da Acil nestes cem anos de atuação. “Qualidade de vida é onde as pessoas se doam. Quando um faz pelo outro, temos qualidade de vida”, frisa.
Aprendizados da pandemia
Bergesch assumiu o comando da Acil num contexto inédito. Com a pandemia da covid-19, o tradicional evento de posse foi substituído por uma solenidade virtual. Ao longo dos últimos dois anos, foram centenas de reuniões, que debateram os impactos econômicos e possíveis soluções.
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Sede da Acil foi inaugurada em 1951. Já são 70 anos no mesmo endereço. (Foto: Divulgação)
“O ano de 2020 foi de incertezas. À medida em que as coisas se desenrolavam, nós aprendíamos como lidar com a pandemia. E 2021 também tem se mostrado um ano muito difícil, com as reações, a falta de matéria-prima, aumento nos custos nunca antes vistos e inflação que corrói o poder aquisitivo das pessoas e impacta nas empresas”, avalia.
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Casarão Jaeger foi a primeira sede da Acil, na esquina das ruas Borges de Medeiros e Julio de Castilhos. (Foto: Renata Lohmann)
Por outro lado, Bergesch entende que ficam lições e aprendizados da pandemia. “O que fica são esses novos modelos de comunicação, mas rápidos e assertivos. Já nos programávamos para fazer isso e tivemos de acelerar o processo. A comunicação com nosso associado melhorou”, frisa.
Toque feminino
Em 2018, Aline Eggers Bagatini se tornou a primeira mulher a presidir a Acil. Entrou numa lista de quase 60 ex-presidentes. Em 2022, mais uma representante do sexo feminino deve comandar a associação. Graciela Black, hoje vice-presidente de Administração, encabeça a única chapa apresentada para a sucessão até o momento.
Caso se confirme seu nome na presidência, Graciela assumirá a Acil num ano histórico: o da retomada dos grandes eventos. O destaque fica por conta da edição conjunta da Expovale e Construmóbil. “Será um ano desafiador. Precisamos de uma retomada forte, sem nos acuar. Nosso objetivo é fazer uma feira melhor do que todas que já ocorreram, pois a cidade merece”, comenta.
Outro desafio, conforme Graciela, será o de buscar novos associados. Hoje, são cerca de 350 empresas. “A ideia é ir atrás, aumentar esse número. Explicar o que a Acil faz, como podemos representá-los”, comenta.
A intenção é que a entidade siga em sua linha de atuação, em auxiliar empresários e representá-los perante aos órgãos públicos. Ainda, conforme Graciela, dar mais voz às pequenas empresas. “Os grandes tem mais voz, mas as pequenas precisam ser representadas. Brigo muito por elas”.
“Vale a pena”
Em 1980, Nelson Eggers assumiu a presidência da Acil. Hoje é um dos ex-presidentes mais velhos ainda vivos. E recorda com carinho do tempo em que liderou um time que rejuvenesceu o comando e mudou a cara da entidade, com empresários na faixa dos 40 anos.
Na época, o mandato era de apenas um ano. Mas não impediu Eggers de ter uma atuação marcante. Um dos feitos à época foi a criação do Banco de Dados. “Funcionou durante vários anos. Empresas de Lajeado prestavam informações todo mês, sobre o movimento referente ao mês anterior, o acumulado do ano. O município se valeu muito daquelas informações. Hoje se fala em inovação, tecnologia, mas tínhamos isso naquele período”, garante.
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Carlos Fett Filho, primeiro presidente da Acil
Para Eggers, se envolver em uma entidade como a Acil é de suma importância para empresários que buscam fortalecer seus negócios. “Vale a pena. É um aprendizado muito importante, pois as portas se abrem. Facilita o relacionamento com autoridades e outras entidades”, garante.
Quem faz acontecer
Hoje, a Acil conta com 14 funcionários. Dois estão na entidade há mais de 15 anos. Antônio Juarez da Silva, gerente, e Loiva Regina Wildner, coordenadora de feiras e eventos corporativos, tem uma importante atuação nos bastidores da entidade.
Loiva ingressou na Acil como estagiária na Expovale de 2004. Se destacou e cresceu dentro da associação. “Era para ser temporário e fui ficando. Passei por outras funções aqui, mas sempre na parte de eventos. E nunca paramos. São muitas atividades pré-evento, coisas que devem ser pensadas e levam semanas, meses até que sejam resolvidas”, comenta.
Silva entrou na Acil um ano depois. Chegou para estruturar a assessoria de comunicação. Na época, o trabalho era terceirizado. “Vim como jornalista com a função de fazer isso. Aí, o então gerente da época estava com data de saída marcada. Disse que eu iria para o lugar dele após esta estruturação”, lembra.
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Silva e Loiva têm importante atuação nos bastidores da Acil
Comprometimento
O prefeito Marcelo Caumo destaca que uma entidade como a Acil chegar ao centenário é fruto de dedicação e comprometimento. “Desde o início da nossa história, pessoas trabalhadoras e visionárias ajudaram a construir empresas e negócios que fizeram da cidade uma das mais pujantes. Com a troca de ideias, parcerias e projetos executados em conjunto, podemos continuar nossa caminhada e criar um futuro ainda melhor para as próximas gerações”, afirma.
MOMENTOS MARCANTES
Ponte Lajeado-Estrela
As primeiras conversas sobre a construção de uma ponte entre Lajeado e Estrela surgiram na década de 50, quando Olavo Gonçalves presidia a entidade. O então prefeito Bruno Born fez a provocação. Foi uma das primeiras grandes campanhas da Acil. Em 1958, um jantar foi oferecido ao então governador Leonel Brizola no ato de assinatura da concorrência pública para a obra. A inauguração ocorreu quatro anos depois.
Conselho e Fórum
No fim dos anos 80, numa tentativa de unificar esforços e discursos, entidades, lideradas pela Acil, criaram o Conselho de Entidades Empresariais. Reunia as associações comerciais e industriais do Vale do Taquari. O movimento seria o precursor do Fórum das Entidades de Lajeado, retomado em 2016, com apoio da OAB Subseção Lajeado, e do Sincovat.
Embrião da Expovale
Em 1966, nas comemorações dos 75 anos de Lajeado, foi promovida a 1ª Feira Nacional de Laticínios e Exposição Agropecuária (Fenal). O evento ocorreu no recém construído Parque do Imigrante. A feira, idealizada por Nilo Rotta, é tida como o “embrião” da Expovale, principal evento do Vale do Taquari.
Duplicação da BR-386
Inaugurada nos anos 60 a BR-386 começava a apresentar tráfego intenso em direção a Porto Alegre já na década seguinte. A duplicação da rodovia, no trecho Lajeado-Estrela, entrou na pauta da Acil. Foi a primeira manifestação formal pela obra. Décadas depois, também se somou a outras lideranças empresariais e políticas nas campanhas pela duplicação do trecho Estrela-Tabaí (concluída em 2018) e, posteriormente, Lajeado-Carazinho (iniciada este ano).
Criação de entidades
A Acil teve papel importante no surgimento de outras entidades de classe na região. Em 1966, surgiu a Câmara de Dirigentes Lojistas de Lajeado (CDL), criada com o objetivo de fortalecer o lojista. Ela funcionou no mesmo prédio da Acil inicialmente. Em 2005, a partir da vice-presidência de Integração Regional, é fundada a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT). Hoje, desempenha importante protagonismo na defesa de pautas de interesse regional.
Viva o Taquari Vivo
Em 2007, é promovida a primeira edição do Viva o Taquari Vivo, ação organizada em conjunto com a Unidade Parceiros Voluntários. O mutirão de limpeza das margens e leito do rio, com o passar do tempo, se expandiu para outros municípios. Também teve desdobramentos, com outras iniciativas voltadas ao meio ambiente.