R$ 600 nas mãos erradas

Opinião

Adair Weiss

Adair Weiss

Diretor Executivo do Grupo A Hora

Coluna com visão empreendedora, de posicionamento e questionadora sobre as esferas públicas e privadas.

R$ 600 nas mãos erradas

O governo federal foi rápido na concessão dos R$ 600 a milhões de brasileiros atingidos pela crise da covid-19. Méritos pela eficiência.

O problema é o desvio. Em muitos casos, o dinheiro foi para mãos erradas. Pessoas sem necessidade e, até falecidas, tiveram depositado o benefício em suas contas bancárias, em detrimento a muitas famílias que esperam pelo auxílio até agora.

Na reportagem do A Hora, na página 9, a história de Liziane Matias, 31, é apenas um dos tristes exemplos. No lugar dela, muitos outros brasileiros preferiram o silêncio e embolsaram o valor destinado a quem, de fato, deveria ser.

O comportamento espelha uma triste realidade: a corrupção está entranhada também na população, onde o “jeitinho brasileiro” não tem etnia, idade e nem classe social.

Ainda que outros tantos devolveram o recurso, muitos preferiram ficar quietos e embolsaram o dinheiro sob as mais ridículas justificativas. É típico de quem pensa em si e não quer distinguir caráter ou honestidade de hipocrisia.

A educação e ética dos brasileiros nunca foi uma virtude. A exploração e os meios ilícitos nos acompanham desde a colonização. Cobramos retidão dos políticos, mas somos incapazes de praticar no quintal de nossa casa.

O coro dos que esbravejam contra os governos ou políticos corruptos, muitas vezes, sai da mesma boca dos que agora embolsaram o auxílio. Não raras vezes, são os mesmos que reclamam das irregularidades cotidianas quando estas não lhes convém.

Enquanto nossa cultura for do “jeitinho” não evoluiremos como nação. Podemos até crescer econômica ou socialmente, mas continuaremos pobres e falidos como cidadãos. É, realmente, uma questão de educação e caráter.

Para não parecer falso moralismo em meio ao tsunami de oportunistas, basta invocar os inúmeros exemplos de pessoas humildes que devolvem pertences encontrados ou designados por engano. Repito, não é uma questão de classe ou etnia. Honestidade tem haver com dignidade, consciência sobre o que é certo.

Quando me pego na história da mãe Liziane, reflito sobre a realidade desta senhora e sua família, então, fica impossível não se comover. Se ainda assim a insensatez persiste, então me revelo um insensível, estúpido sem caráter ou um completo hipócrita que apenas consegue pensar em levar vantagem.

Falar sobre isso é importante, sempre é tempo. Sou de opinião que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Espero que as futuras gerações possam testemunhar tempos melhores que os atuais.

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