Projeto obriga pais a comparecer a escolas

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Projeto obriga pais a comparecer a escolas

Estabelecer uma relação construtiva entre família e escola é um dos desafios para transformar a educação no país. Professores são unânimes em afirmar que a participação dos pais nas atividades escolares influencia no desempenho escolar dos alunos

País – A padeira Suziclei Kuzma, 36, acompanha de perto o primeiro ano escolar da filha Emanuelle, 7. A mãe frequenta o colégio para receber orientações que ajudem no desenvolvimento pedagógico da menina, participa de todas reuniões e se preocupa com o desempenho nos estudos.

04Ela acredita que a participação da família é fundamental na educação das crianças. Lembra que Emanuelle tinha dificuldade para fazer deveres de casa no começo do ano. Em uma conversa com a professora, pediu dicas para ajudar a menina. “Coloquei em prática e deu certo.”

O exemplo de Suziclei é exceção, mas pode se tornar regra caso a proposta do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) se torne lei. Pelo texto, os pais seriam obrigados a participar de pelo menos uma reunião com os professores do filho a cada dois meses. A proposta teve parecer favorável da Comissão de Educação do Senado e deve ir à votação nas próximas semanas.

A ideia é controversa. Professores ponderam sobre a efetividade do projeto. Por outro lado, pesquisas comprovam que a participação da família na educação formal interfere no desempenho dos alunos.

Em meio à rotina cada vez mais intensa, muitos pais encontram dificuldade em separar tempo para ajudar o filho a ser um bom aluno. O excesso de trabalho surge como justificativa da falta de tempo às atividades escolares.

Pormenorizar o quanto o engajamento da família ajuda na nota é uma tarefa difícil, acredita a vice-diretora do Colégio Madre Bárbara, de Lajeado, Justine Thomas. “O aluno é um todo. É preciso observar diversos pontos, e a escola é só mais um deles.”

O desempenho nas atividades escolares é sensível a esses elementos, diz. Integra a qualidade dos professores, o ambiente em sala de aula, o uso de material didático, de onde a escola se localiza, das condições financeiras da família, grau de instrução, entre outros.

Para Justine, exigir participação é errado. “Não vejo como isso mudaria o cenário educacional. Penso que há outras formas de fazer com que aumente o comprometimento dos pais.” A escola onde atua é da rede privada. Na instituição, desenvolvem métodos para tentar a conscientização das famílias. “Procuramos incentivar os alunos para mostrar sobre a relevância de ter os pais presentes nas atividades.”

Como resultado, aponta, conta com uma presença massiva da maioria dos familiares. Quando os pais não conseguem participar de alguma reunião, abrem oportunidade para outras ocasiões, agendam horários alternativos.

Pela proposta do senador Buarque, o comparecimento pode se dar com participação em reuniões de pais e mestres ou diálogo individual com os professores, sempre atestados pela direção da instituição de ensino. Em caso de descumprimento, o pai ou responsável será proibido de se inscrever em concurso para cargo ou função pública; participar de concorrências públicas; obter empréstimos em bancos ou caixas econômicas federais ou estaduais; obter passaporte e carteira de identidade; renovar matrícula em escola pública ou privada. Todas reversíveis, desde que o familiar passe a cumprir a norma.

Prioridade familiar é o trabalho

A formação intelectual dos filhos perde em relevância se comparada com a composição do orçamento familiar, acredita a diretora da Escola Estadual Érico Veríssimo, de Lajeado, Denise Sandri Labres. “Quando percebemos que algum aluno está com um desempenho abaixo do esperado e chamamos os responsáveis, notamos que o trabalho dificulta esse encontro.”

Segundo ela, o ideal é o familiar vir à escola no horário em que o filho estuda. “O pai poderia conversar com a equipe que trabalha com o aluno. Saber do comportamento, ter mais detalhes sobre o desempenho. Porém o trabalho aparece como prioridade.”

Quando se trata de alunos com mais de 14 anos, e que já podem ingressar em atividades remuneradas, famílias tentam mudar os períodos das aulas para que o filho comece a trabalhar. “Os relatos que ouvimos é da necessidade de ajudar no orçamento familiar. A educação fica em segundo plano.”

Para a diretora, a participação das famílias é fundamental na formação dos estudantes.

Na opinião de Denise, o pouco comprometimento dos estudantes está vinculado à atenção depositada pelos pais nos estudos dos filhos. O distanciamento das famílias, diz, atrapalha o aprendizado. Como consequência, muitas vezes o professor precisa ser mais do que um mestre, assume papel de psicólogo. “Por vezes, os pais passam a responsabilidade, como se a educação dependesse apenas da escola.”

Para a coordenadora-adjunta da 3ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), Greicy Weschenfelder, a proposta do senador é positiva. “Sabemos que participação dos pais é crucial para o desempenho escolar. A escola que tem os pais presentes é uma escola de sucesso.”

Para ela, as instituições de ensino têm a responsabilidade da escolarização, enquanto os pais têm a tarefa de educar. “A omissão da família se reflete no aluno, nas atitudes descomprometidas com a escola.”

Tem de jogar fora os quadros-negros”

Por telefone, o senador Cristovam Buarque conversou com o A Hora nessa sexta-feira. Ex-ministro da Educação, no primeiro mandado do ex-presidente Lula, baseia sua vida pública no combate ao analfabetismo e à má qualidade da educação no país.

A Hora – De que maneira a obrigação dos pais participarem das reuniões nas escolas pode resultar em melhoria no ensino do país?

Cristovam Buarque – O projeto é sobre o colégio e a família. Não se educa criança só com escola. Temos de educar com a família. Os pais só comparecem nas escolas privadas. Só quando compra o serviço.

Na rede pública, como tem o ensino gratuito, eles não participam. Tratam as instituições como um lugar onde deixam a criança, e não como um local onde os filhos são educados. Na nossa lei, adolescentes com 16 anos ou mais são obrigados a votar, se não precisam pagar multa. Vamos exigir o mesmo dos pais que não comparecem na escola. Se a urna é importante, os colégios também são.

Com a proposta, queremos criar essa consciência. Os pais acompanhando os filhos na escola conhecerão a importância deles no processo.

Como essa pouca participação interfere na formação dos estudantes?

Cristovam Buarque – Veja só, vemos casos de alunos que saem de casa para ir ao colégio, mas não vão e o pai não fica nem sabendo. Se a família não vai até a escola, a escola não vai chegar na casa das famílias.

Quais outras medidas poderiam qualificar a educação?

Cristovam Buarque – Uma delas seria federalizar a educação básica. Oferecer salários atrativos aos professores, fazer com que os melhores se interessem pela docência. Concurso com salário de R$ 10 mil, como servidor federal.

Investir nas escolas. Fazer complexos bonitos, atuais e bem equipados, com aulas em turno integral. Tem de jogar fora os quadros-negros. Eles são uma carroça. Temos de substituir os métodos antiquados, levar tecnologia às escolas, fazer com que as crianças tenham gosto por estar nas salas de aula.

Esse é um processo longo, no mínimo 20 anos para fazer no país inteiro. Começar pelas cidades, naquelas onde os prefeitos não têm condições. Nestas duas décadas, se investirmos nos salários, nas escolas, isso vai custar 6,4% do PIB. Não é muito. Fica abaixo dos 10% estipulados no Plano Nacional da Educação.

Dicas de como participar da educação dos filhos

Por vezes, os pais se esforçam, mas não sabem como ajudar os filhos a aprender melhor. Confira cinco dicas para impulsionar o desenvolvimento escolar das crianças e adolescentes.

1. Estimular habilidades como a curiosidade, a perseverança e a resiliência. Comportamentos fundamentais para formar adultos de bem com a vida e com o aprendizado.

2. Priorizar a educação escolar no dia a dia. Conversar com o filho para saber o que ele aprendeu durante o dia. Perguntar sobre os amigos. Mostrar exemplos, falar sobre faculdade, formação, sobre o futuro.

3. Valorizar os professores, a aprendizagem e o conhecimento. Os jovens aprendem o valor da educação quando percebem a importância disso dentro da família.

4. Fazer do estudante um protagonista. Acreditar no potencial do filho. Faça ele acreditar que é capaz de realizar o que quiser, pois todos são capazes de aprender e fazer escolhas.

5. Incentivar a leitura. Ampliar o universo cultural e esportivo. Tirar momentos para ler com o filho. Dar atenção às atividades culturais que estimulem a curiosidade e o senso crítico.

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