Proposta para dragagem de rios divide opiniões

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Proposta para dragagem de rios divide opiniões

Instituto de pesquisas da UFRGS condiciona eficácia da retirada de materiais do leito do rio após grandes inundações. Grupo alerta que medida pode contribuir desde que embasada em estudos técnicos

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Proposta para dragagem de rios divide opiniões
Inundações provocam erosão e assoreamento. Pesquisador adverte que dragagem em rios de grande porte precisa de laudo técnico antes da execução. (Foto: Filipe Faleiro)
Estado
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O projeto apresentado na Assembleia Legislativa, pelo deputado Guilherme Pasin (PP), pretende criar uma política estadual de desassoreamento de grandes rios. O texto inicial insere medidas como recomposição da mata ciliar e formas de aproveitar os materiais retirados.

Na prática, a proposta pretende dividir com Estado, municípios e iniciativa privada os trabalhos para limpeza dos leitos de mananciais onde aconteceram as inundações dos últimos oito meses.

Conforme o parlamentar, a apresentação da matéria tem como objetivo ampliar o debate acerca dos investimentos para dragagem dos rios. Para ele, há espaço para melhorar o texto.

Pasin pretende chamar grupos de cientistas, ambientalistas e pesquisadores das universidades para analisar o projeto e fazer ajustes e ampliações. O projeto está em fase de análise nas comissões parlamentares.

Risco de desperdício de dinheiro

Professor da Universidade Federal do RS (UFRGS), integrante do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), e doutor em Hidrologia, Walter Collischonn ressalta a importância de estudos técnicos antes da retirada de materiais dos leitos dos grandes rios, como na bacia Taquari\Antas, Jacuí e Guaíba.

Pelo alto custo dos serviços, esclarece que, se feito de maneira inapropriada, não cumpre a função de garantir mais vazão dos mananciais hídricos, o que representa desperdício de dinheiro.

“Não somos contra a dragagem. Mas entendemos que para ser uma das soluções, é preciso conhecer como a inundação interferiu no leito do rio. Dizer que o desassoreamento é inquestionável não é verdade”, ressalta.

De acordo com o pesquisador, o tamanho da inundação de maio causa dois fenômenos nos rios: erosão e assoreamento (acúmulo de material no fundo). Com o primeiro, a margem aumenta de tamanho e pontos onde havia represamentos no leito são levados pela força da água. “Os dois efeitos são diferentes. Na erosão, é possível que tenha mudanças, com aumento de profundidade. Ou seja, o próprio rio pode fazer o desassoreamento.”

Os locais com acúmulo, explica, costumam ficar onde a correnteza perde velocidade.

Preocupação econômica

Antes de qualquer intervenção, Collischonn destaca a necessidade da batimetria (uso de sonar para mapear os trechos inundados e identificar onde há acúmulo de materiais) e a simulação de hidrodinâmica (modelo capaz de verificar a retirada de cargas do leito e o impacto no nível da água em cidades próximas).

“Vamos dizer que a retirada de dois metros de detrito em Bom Retiro diminui o rio em dois metros em Estrela. Neste caso, o desassoreamento é muito positivo. Agora, se o mesmo tiver impacto de 20 centímetros, será que o custo compensa?”, questiona.

Para ele, essas são as perguntas que a sociedade deve responder. No Porto de Rio Grande, o desassoreamento para a hidrovia custou R$ 500 milhões. “Nossa preocupação é econômica. Precisamos reconstruir pontes, estradas, casas. Será que o desassoreamento deveria ser uma prioridade agora?”, questiona.

Na visão de Collischonn, antes de destinar recursos para medidas estruturantes (construções de diques, barragens, dragagem e outras obras de infraestrutura) é preciso uma atuação de base, nas chamadas medidas não-estruturantes (planos diretos com regras mais claras sobre áreas de inundação, programas de ensino e conscientização, zoneamento de riscos, além de melhorias nos sistemas de previsão, monitoramento e alarmes).

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