Onde o tempo parece parado…

Opinião

Rodrigo Martini

Rodrigo Martini

Jornalista

Coluna aborda os bastidores da política regional e discussão de temas polêmicos

Onde o tempo parece parado…

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Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Ontem foi mais um dia de muita conversa com moradores atingidos pela tragédia. Percorremos ruas, estradas, avenidas e ruelas ainda cobertas de entulhos, lixo, lama e escombros. E o mais triste. Em alguns pontos das cidades mais impactadas, o tempo parece parado. O silêncio e a solidão imperam entre paralelepípedos e pedaços de asfalto arrancados pela fúria inédita do Rio Taquari, e o cheiro de desesperança e lodo afasta até os inevitáveis turistas e curiosos. É fato. Ainda é muito dura a realidade em diversas localidades de Muçum, Roca Sales, Encantado, Lajeado, Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Bom Retiro do Sul, Colinas e Venâncio Aires. Muita dura, mesmo. Há muitas pessoas precisando de ajuda para limpeza, para reabrir empreendimentos, ou para simplesmente garantir um prato de comida digna ou um teto próprio aos filhos. Há muitos empresários sem condições de honrar com salários e fornecedores. E há muita tensão e desconfiança no ar. Os últimos 30 dias foram de intensas reformas, limpezas e reconstruções, é bem verdade. Mas a sensação, em alguns pontos do Vale, é de que a enchente ocorreu ontem.

Traumas às crianças

Um pai de dois filhos, morador do bairro Carneiros, em Lajeado, está preocupado com a saúde mental das crianças. Uma delas tem 10 anos. A outra tem sete. Ambas passaram uma madrugada inteira em cima do telhado, com a casa mista de madeira e alvenaria sacudindo com a força da correnteza do Rio Taquari. Chovia muito naquelas angustiantes horas. O pai, junto da esposa, foi obrigado a confiar a vida dos filhos a um grupo de voluntários que chegou até o local em uma lancha. E, entre a entrega das crianças aos resgatadores e o posterior resgate dos pais, foram pouco mais de três horas. Três intermináveis horas até o emocionante reencontro. Uma sequência de fatos inimagináveis para qualquer adulto. Imagem, então, para quem tem 10 e sete anos. Não por menos, as crianças se desesperaram na noite de terça-feira passada, quando uma chuva torrencial voltou a cair sobre o Vale do Taquari. Uma reação que, infelizmente, pode se repetir em outros tantos lares.

As vítimas da enchente (e da burocracia)

No dia 14 de setembro, nos ambientes da prefeitura de Encantado, e diante de prefeitos, secretários estaduais, líderes regionais e representantes de diversos órgãos estaduais, federais e municipais, o governador Eduardo Leite (PSDB) foi enfático. “Nós não podemos permitir que essas pessoas sejam vítimas duas vezes, vítimas da enchente e da desassistência do poder público. Precisamos fazer tudo o que está ao nosso alcance e evitar a burocracia desnecessária para que possamos atender quem teve prejuízos.” Pois bem. Já se passaram 20 dias daquela bem elaborada frase proferida pelo chefe do Executivo estadual, e a tão temida burocracia tem prosperado diante do empenho de muitos agentes públicos e privados. O principal caso é a demora na liberação daquele R$ 1 bilhão em empréstimos via BNDES, anunciado pelo presidente Lula no dia 12 de setembro.

Os vereadores e o aborto

Muitos vereadores do Vale do Taquari estão preocupados com a legalização judicial do aborto no Brasil, que pode vir a ocorrer por meio da tal “Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442”, proposta pelo PSOL em 2017, e ainda sob análise e julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF). E, diante da possibilidade do STF autorizar o procedimento até a 12ª semana de gestação, os parlamentares da região se mobilizam por meio de Moções de Apoio ao Congresso Nacional, “a fim de garantir as prerrogativas constitucionais e republicanas das competências do Poder Legislativo e de se evitar um possível ativismo judicial por parte do STF”. Em Lajeado, o documento foi assinado por Deolí Gräff (PP), Alex Schmitt (PP) e Heitor Hoppe (PP). Em Estrela, a moção é proposta por Silas Alves (PL) (foto). E na cidade de Encantado, a mesma medida foi assinada por Cris Costa (PSDB), Diego Pretto (PP) e Sandra Buf-fon (PSDB).

MP avalia a Rodovia Aleixo Rocha

O promotor de justiça André Prediger tem experiência com rodovias estaduais. E ele costuma ter êxito em ações contra as mantenedoras dessas estradas. Há uma década, por exemplo, ele comprou a briga da região alta do Vale do Taquari e iniciou uma insistente jornada contra a inoperância da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) junto à ERS-129. Entre suspensões temporárias e redução da tarifa, o agente do Ministério Público (MP) movimentou aquela praça de pedágio. Desta vez, e agora à frente do MP de Taquari, ele instaurou um inquérito civil para verificar as condições da RS-436 (Rodovia Aleixo Rocha) e acompanhar os serviços da 11ª Superintendência Regional do Daer.

Tiro curto

• O governo de Lajeado lançou edital para a construção da ampliação do Ginásio do Bairro Floresta.

• Administrada pela Comercial Zaffari Ltda, a rede supermercadista Stock Center segue desenvolvendo o projeto para se instalar às margens da BR-386, em Lajeado. O espaço escolhido fica na mesma área da antiga Brasfrio, no acesso ao bairro Santo André.

• A semifinal da Taça Libertadores da América mexeu com a agenda de muitos moradores do Vale do Taquari. Entre eles, o prefeito Marcelo Caumo (PP), que foi cedo até o estádio Beira-Rio.

• Prefeito de Encantado, Jonas Calvi (PSDB) ficou incomodado com as críticas públicas de uma conhecida articulista da capital gaúcha, publicada ontem. E, nesta quinta-feira, o governo dele lança o programa “Recomeça Encantado”. O ato de lançamento ocorre às 10h, na prefeitura.

• Aliás, é o terceiro movimento anunciado no Vale do Taquari. O primeiro foi o “Renasce Estrela”. Na sequência, o “Recupera Muçum”.

• O governo de Blumenau (SC) está sob alerta para enchente. E vale a pena analisar como serão executados os planos de contingência e evacuação naquela já calejada cidade catarinense.

• Prefeitos do Vale do Taquari devem participar de uma audiência pública em Brasília, na próxima terça-feira, dia 17 de outubro. O encontro será com parlamentares da bancada gaúcha no Congresso Nacional. Em pauta, claro, a tragédia que assolou boa parte do Vale do Taquari.

• O governo federal promete liberar os empréstimos via BNDES em até 15 dias para as cidades gaúchas atingidas pelo ciclone extra- tropical. E serão 15 intermináveis dias.

• Sobre isso, aliás, é bom os representantes do governo Lula se mexerem com mais agilidade. Afinal, se os recursos não forem liberados até o dia 19 de novembro, a paciência de muitos – independente de lados, siglas, ideologias ou crenças – pode ir para as cucuias.

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