Uma fraude que precisa ser esclarecida rapidamente

Opinião

Fernando Röhsig

Fernando Röhsig

Consultor empresarial

Uma fraude que precisa ser esclarecida rapidamente

Por

Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

O ano de 2023 começou com uma grande fraude no varejo brasileiro comunicada pelo ex-CEO da Americanas, Sérgio Rial. Uma semana após assumir o principal cargo da companhia, em janeiro de 2023, o executivo renunciou. O motivo? A descoberta de práticas contábeis com as quais discordava. 

Considerada um dos grandes exemplos de gestão eficaz do varejo brasileiro, a Americanas tinha história, aparentava solidez e apresentava números impressionantes. Fundada em 1929, contava com 45 mil profissionais diretos (e 55 mil indiretos), 3,6 mil lojas em 900 cidades brasileiras e atendia 53 milhões de clientes em seus canais de vendas – com um e-commerce pujante copiado país afora. No Ranking Ibevar-FIA, era a quinta maior varejista do Brasil (em setembro de 2022) com faturamento anual de R$ 32,2 bilhões. 

Desde 1982 era controlada pelo “trio maravilha” da 3G Capital – os bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. O grupo também controla empresas como AB InBev (fabricante da Brahma e da Budweiser, entre outras), Kraft Heinz (do ketchup Heinz), Hunter Douglas (de produtos para arquitetura) e Restaurant Brands International (do Burger King). Os controladores adotam em suas empresas uma cultura de obsessão ilimitada por resultados superiores e lucro crescente. Coincidência ou não, o lucro das Americanas em 2022 foi o maior da sua história, alcançando R$ 731 milhões. Os números recebiam desde 2019 o aval da PWC, uma das maiores empresas de auditoria do mundo, que sempre certificou os demonstrativos econômicos e financeiros da Americanas “sem ressalvas”. 

Foco das investigações, a alta administração das Americanas vem sendo fortemente questionada nas últimas semanas pelos agentes do mercado. O valor exato do rombo deixado pela fraude junto aos bancos e fornecedores está sendo apurado, e poderá ultrapassar os R$ 40 bilhões. A empresa entrou com um processo de recuperação judicial poucos dias após a saída de Rial. A principal linha de investigação para se chegar aos responsáveis pelas más práticas de contabilidade está no acesso a e-mails, dos últimos 10 anos, de diretores, conselheiros, membros do comitê fiscal, funcionários das áreas de contabilidade e de administração.

O que se espera de uma situação dessa magnitude é que se apure a responsabilidade dos proprietários e de todos os envolvidos na fraude. Um crime desse tamanho tem que ser enfrentado com o uso de toda tecnologia disponível para se chegar aos verdadeiros culpados. Houve sérias falhas nos mecanismos de controle da governança da Americanas, e é preciso descobrir quem decidiu que um novo tipo de “contabilidade criativa“ seria uma boa opção para a companhia. 

O caso da Americanas expõe uma cultura que não respeitou nenhum limite nem enfrentou obstáculos que impedissem a obtenção de lucros cada vez maiores, independentemente da forma de obtê-los – e provavelmente às custas de empresas menores e menos aptas a sobreviver a um baque deste tamanho. Uma insanidade corporativa e uma afronta à ética empresarial que se deseja no mundo contemporâneo.

Conhecendo o modus operandi dos principais credores – os bancos – e sendo eles especialistas em cobrança, farão de tudo a seu alcance para recuperar o dinheiro emprestado. Deverão ainda tentar imputar a responsabilidade aos controladores bilionários. Se há alguém com um problema grande para resolver são Lemann, Telles e Sicupira. Se de um lado o maior lucro da história da companhia significou empresas com dívidas gigantes não pagas do outro lado, alguma coisa está muito errada. Que o “trio maravilha” resolva rápido. Tem muita gente precisando.

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