Invisibilidade e indiferença

Opinião

Filipe Faleiro

Filipe Faleiro

Jornalista

Invisibilidade e indiferença

Por

Gustavo Adolfo 2 - Lateral vertical - Final vertical

Mais de 8 horas. Esse foi o tempo em que um senhor com quase 70 anos ficou deitado no chão na Av. Benjamin Constant, em Lajeado, sem que ninguém lhe ajudasse. Passei por ele pouco depois das 14h da quarta-feira passada.

Parei alguns minutos para tentar entender a cena. Olhava aquele senhor e quem passava pela calçada. Alguns estavam fixos nas telas dos celulares, outros desviavam a visão para o outro lado. Na maioria, reações de indiferença.


Crédito: Filipe Faleiro

Dependência e vulnerabilidade

Percebi que ele estava alcoolizado. Pensei: “logo passa o porre e ele vai ir para algum lugar”. Segui meu caminho de repórter. Tinha agendada uma visita a uma escola, entrevistas e o compromisso de fazer fotos à edição do outro dia. Quem sabe até conseguir a imagem de capa.

Voltei depois das 17h. O senhor continuava lá. Parei de novo. Vi que estava dormindo. Do lado uma garrafa de cachaça. Na pressa de entregar os conteúdos para o jornal, retornei à redação. Fechamos a edição do dia seguinte após as 21h. Saí da empresa cerca de meia hora depois disso.

Passei pela avenida de novo. Ele estava lá. Noite escura já. Poucas pessoas na rua. Havia apenas um casal dentro de um carro. Fui até as proximidades da esquina com a Rua Tiradentes. Parei, olhei para trás e voltei. Não poderia deixar aquilo assim. Cheguei perto e o chamei.

Perguntei se ele não tinha para onde ir. Afirmei que não poderia continuar naquela condição. Ele me respondeu que não tinha onde ficar. Havia ganhado o direto à aposentadoria, mas não conseguia sacar por estar sem documentos. Tinha de esperar a nova carteira de identidade. Também por isso, por ter renda, não poderia retornar ao abrigo São Chico.


Cidadania também é se importar com o outro

Perguntei o nome dele. Ele disse e complementou: “todos me conhecem por Tomate”. Mandei uma mensagem para a secretária de Habitação, Ceci Gerlach. Em seguida liguei para dar mais detalhes. A equipe de plantão foi chamada.

Era por volta das 22h15min quando chegou uma assistente social. Ensaiei uma conversa com ela. O que ouvi foi um: “por que não nos chamou mais cedo?” É, fiquei sem resposta. Deveria mesmo.

Aquele senhor, de saúde debilitada, está faz 16 anos em situação de vulnerabilidade, dormindo na rua ou em abrigo. A assistente conferiu a situação e chamou uma ambulância e ele foi à UPA. Já era mais de 22h30min.

Tomate estava com a perna machucada e também não havia se alimentado direito. Mais de 8 horas no chão. Ninguém, nem mesmo eu, teve tempo. Antes tarde do que nunca. A assistência social e o abrigo São Chico fizeram um acordo para ele poder dormir lá até conseguir um aluguel social.

Abrigo São Chico dispõe de 44 vagas para pessoas em situação de rua. Eles têm alimentação e acompanhamento profissional. Crédito: Filipe Faleiro


Contate a assistência social

Lajeado dispõe de uma rede de amparo às pessoas em situação de rua. Comunicar esses canais é o mínimo que nós temos de fazer quando nos deparamos com fatos assim. Zelar pelo outro também é cidadania. Aqui está o telefone da Assistência Social: 3982 1092. Fora do expediente, o plantão: 51 9209-3115

Sejamos mais humanos, mais empáticos e solidários. Não cabe a nós julgar, apontar o dedo, recriminar, ou dizer o que o outro deveria fazer. Para questões complexas não existem respostas fáceis.

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