Os desafios de ser pai em qualquer idade

ESPECIAL

Os desafios de ser pai em qualquer idade

Seja aos 60 ou aos 19 anos, ser pai é um grande desafio. As responsabilidades e alegrias que surgem com o nascimento de um filho revelam novas experiências e dão um novo sentido para a vida

Por

Os desafios de ser pai em qualquer idade
Pai aos 60 anos, Odilo Olívio Piuller aprende com o filho Joaquim todos os dias. “Eu pensei que agora, aposentado, eu teria mais tempo disponível para acompanhar o crescimento. Crédito: Bibiana Faleiro
Vale do Taquari
Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Ser pai nunca esteve nos planos de Odilo Olívio Piuller, 68. Em seu primeiro casamento, algo sempre o impedia. Não fosse o trabalho, eram as questões financeiras. Foi somente aos 60 anos que um novo relacionamento fez o morador de Estrela pensar melhor no assunto e considerar encarar o desafio.

Natural de Cachoeira do Sul, Odilo mudou-se para o Vale do Taquari há 22 anos. Dono de uma empresa de transporte, os problemas de saúde fizeram com que ele parasse de trabalhar. “Até eu me aposentar eu não tinha filhos. Em determinado momento conheci a mãe do meu filho, começamos um relacionamento e ela falou sobre o desejo de ser mãe novamente. Eu pensei que agora, aposentado, eu teria mais tempo disponível para acompanhar o crescimento de uma criança”, lembra Odilo.

Desde o primeiro dia em que Joaquim chegou ao mundo, há oito anos, a vida de Odilo mudou completamente. A falta de experiência com recém-nascidos não foi um problema para o novo pai, que rapidamente se apoderou das novas tarefas: dar banhos, fazer mamadeiras, por para dormir.

No primeiro banho do filho, Odilo participou como espectador e aprendiz, mas, a partir do terceiro dia, já conseguia dominar o momento sozinho. “É uma sensação incrível. Algo totalmente novo, principalmente para minha idade, era imprevisível para mim”, conta.

Como a mãe do pequeno trabalhava durante todo o dia, Odilo era responsável por cuidar de Joaquim em tempo integral. O laço de amizade que surgiu naquele momento se mantém forte até hoje. Entre as atividades preferidas da dupla, está o futebol. Toda sexta-feira, o pai acompanha os treinos do pequeno.

Hoje, o casal não está mais junto. Os primeiros dias de guarda compartilhada foram difíceis, mas, agora, tudo funciona de forma que a criança se sinta mais confortável e segura. “A diferença de idade não influencia em nada. É vida normal. Claro, eu não tenho mais a condição física de um pai de vinte e poucos anos. Eu brinco de tudo com ele, acompanho nos torneios de futebol, sempre estou junto”, garante Odilo.

 

Pai e melhor amigo

Apesar da vontade de ter filhos, a paternidade veio antes que o esperado para Fabiano Martins da Silva, 42. Ele tinha 19 anos, e a esposa, 17. A notícia foi um susto, e trouxe com ela muitas inseguranças. Mas, com o tempo, o medo deu lugar ao desejo de conhecer o Gabriel, hoje com 22 anos, e logo começaram a organizar o enxoval.

Muito novos e com pouca experiência, o início não foi fácil, mas as dificuldades fortaleceram o casal. “Quando meu filho nasceu, ficou os primeiros seis meses com a minha esposa, morando com os pais dela. Só que daí eu ia todo dia ver. Na verdade nosso relacionamento ficou mais forte”, conta.

Fabiano Martins da Silva teve o primeiro filho com 19 anos. Gabriel acompanha o pai nas festas e shows

Depois do primeiro filho, o casal foi morar junto, primeiro no terreno do pai de Fabiano. Depois em um apartamento. “Em cinco anos, amadureci uns 20 de responsabilidade”, recorda. Assim, as festas ficaram de lado, e algumas metas foram estabelecidas para deixar a moradia mobiliada e confortável para o bebê. Quando Gabriel completou três meses, o casal voltou a frequentar as jantas e viagens à praia com os amigos, sempre com o filho nos braços.

“Agora, mais velho, eu noto que os meus amigos daquela época estão tendo filhos. Nós começamos em outra fase. Hoje vamos juntos pras festas, ele vai junto tocar, é muito massa isso”, conta Fabiano, que é integrante da Banda Jon&Rock.

Mais tarde, o casal teve o Bruno, 16, que completou a família. A proximidade de gerações entre pai e filhos também permite discussões de assuntos que Fabiano não conversava com o pai. Desde a bebida ao cuidado com drogas, ele prefere que os meninos sejam honestos. Se estiverem com os amigos em casa, melhor. Assim ele está tranquilo. “Eu acho que temos que dar orientação e dar o melhor que a gente pode”, finaliza.


Crédito: Arquivo Pessoal

ENTREVISTA – Gustavo Wickert, psicólogo 

“Um filho sempre traz um olhar novo sobre a vida”

Existe faixa etária ideal para a paternidade?

Entendo que não. O que se espera é que o sujeito que pretenda exercer a paternidade seja suficientemente maduro emocionalmente para que possa dar conta das demandas que envolvem a criação de um filho.

Pelo que observo, em todas as faixas etárias existem bons pais e outros não tão bons assim. Penso que a diferença está na disposição interna para exercer a paternidade, o que, repito, tem pouca relação com a idade cronológica.

Como os pais de faixas etárias tão diferentes podem lidar com a paternidade na atualidade?

Certamente a paternidade aos 19 será diferente da paternidade aos 60 anos em muitos aspectos. Aos 19, digamos assim, temos toda a vida pela frente. A perspectiva em relação à vida é de quem está ainda num período de descoberta, afinal, tecnicamente aos 19 anos ainda se é adolescente.

Neste cenário temos um pai que está aprendendo a ser adulto, o que pode ser uma experiência muito rica. Tem uma música em que o Marcelo D2 diz: “eu me desenvolvo e evoluo com meu filho” e seu filho responde “eu me desenvolvo e evoluo com meu pai”. Embora essa ideia valha para todas as idades, penso que, para um pai jovem, esse processo de evolução mútua fique ainda mais evidente.

Já um pai de 60 enxerga a vida sob uma perspectiva diferente, e isso traz outra riqueza ao processo. A pessoa traz para a paternidade toda uma bagagem de experiências.

Por outro lado, ter um filho nesta idade pode ser uma experiência rejuvenescedora, já que um filho sempre traz um olhar novo sobre a vida. De qualquer forma, entendo que, independentemente da idade, a paternidade pode ser uma experiência riquíssima quando se está disposto a exercê-la com amor e dedicação.

Quais impactos nos filhos da idade e da vivência dos pais mais jovens e mais velhos?

Acho que essa pergunta eu já respondi acima. Poderia complementar dizendo que o fator “idade” por si só não é o mais determinante. O senso comum tende a identificar uma idade ideal para ser pai ou mãe.

No entanto, entendo que a idade ideal é aquela em que a pessoa se sente apta, em que o desejo de ser pai, de cuidar, de prover e de auxiliar no desenvolvimento esteja presente.


Acompanhe nossas redes sociais: WhatsApp Instagram / Facebook

Acompanhe
nossas
redes sociais