Duas geografias

Opinião

Jandiro Koch

Jandiro Koch

Escritor

Colunista do Caderno Você

Duas geografias

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Atualizado segunda-feira,
11 de Julho de 2022 às 16:03

Gustavo Adolfo 1 - Lateral vertical - Final vertical

Das muitas qualidades atribuíveis ao Vale do Taquari, a geografia natural merece grifo. Faz pouco, dei mais alguns giros, no corsa velhinho, pelas vias sinuosas, cortando morros, por despenhadeiros, acessando estradas de chão, seguindo de Estrela, por Lajeado, Forquetinha, Sério até as proximidades de Boqueirão do Leão, passando por Progresso na volta.

Quando a pressa não é caroneira, grandes e pequenas maravilhas ficam visíveis, as áreas com mata nativa, as quedas de água, os mirantes. Alcancei a cascata do Moinho, pelo sítio dos Campiol, que, no outono, costuma se apresentar com um volume generoso.

Outro dia, acompanhado por um amigo da época da faculdade de História, na Univates, do lado oposto, alcançamos o Johannes Fells em Imigrante. Um pequeno belvedere no pico de uma elevação.

Enseja a língua de fora durante a escalada, mas recompensa pelo panorama. Fica próximo à Lagoa da Harmonia. Não distante dali, ainda passamos pelo Morro da Cruz, onde há um crucifixo fincado em meio a um grande potreiro, também com direito a uma paisagem que induz um sentimento de paz.

Embora muito se fale sobre a exploração turística, que facilmente recai no abuso, observo esses e outros lugares como recantos para a gente, não precisa ser um turista de fora. Excelentes locos para pensar na vida, nas escolhas, na sustentabilidade, no meio ambiente, na saúde, na alimentação, no bem-estar. O entorno, no Vale, ainda é um grande hospital, uma grande escola – que eu prefiro que sejam públicos e bem administrados. Compras e consumo são outras coisas. Todo o privado, afinal, faz um afunilamento e exclui.

Chegando desses encantadores refúgios, torno à sociedade e olho a geografia humana, que contrasta bastante com o que inspira a natureza. Enxergo menos a beleza, rara tranquilidade, muita farmácia. E pouquíssimo de horizonte. De vez em quando, reanimo. Foi o que aconteceu ao saber que alguém, rebento desses pagos, vai produzir a versão em português de um livro de um escritor francês, autor de romances policiais, de ensaios e novelas, Didier Daeninckx.

O título em vista é “Papa, pourquoi t’as voté Hitler?” (Papai, por que você votou no Hitler?). Uma boa pergunta que, talvez, nos faça mais merecedores de morar em um lugar naturalmente tão lindo, com cachoeiras, a fauna, a flora, as escarpas (que já me alertaram que, em bom gauchês, devem ser chamadas de perau).


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