E depois da abolição?

134 anos da lei áurea

E depois da abolição?

O Brasil foi o último país do Ocidente a pôr fim à escravidão, fato que completa hoje 134 anos. Região mantém comunidades quilombolas que, junto a movimentos sociais, preservam a história dos antepassados e enaltecem o papel do povo negro no processo de libertação. Encontro na noite de hoje, em Lajeado, debate o tema e busca ressignificar a data

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E depois da abolição?
A Fazenda Pedreira, em Bom Retiro do Sul, um dia serviu para a comercialização de escravizados. Hoje, ainda restam algumas paredes e escombros da construção (Foto: Júlia Amaral)
Vale do Taquari
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“Vim morar aqui quando eu tinha uns cinco anos. Sempre soube o que tinha acontecido, todo mundo falava. Às vezes eu encontrava umas moedas diferentes e meu pai até encontrou ossos que não sabíamos se era de gente ou de animais”, conta Marcos Aurélio Frohlich. Há cerca de 50 anos ele mora na antiga Fazenda Pedreira, em Bom Retiro do Sul, que um dia serviu para a comercialização de escravizados, antes da Lei Áurea, que hoje completa 134 anos.

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A exemplo da fazenda, outros locais do Vale do Taquari também guardam a história da escravidão, que predominou em cidades como Taquari, Bom Retiro do Sul e Fazenda Vilanova. A Pedreira, no entanto, é a que preserva as maiores ruínas daquele tempo.

A estrutura indica que ali havia uma senzala. Parte da casa permanece de pé, com exceção do telhado, assoalho e do lado direito da estrutura de dois pisos, onde os escravizados dormiam. Frohlich diz que na propriedade também tem uma cisterna criada pelos escravizados, que nunca ficou sem água.

Além dos escombros

Hoje, depois de mais de um século do momento histórico, Lajeado recebe uma roda de conversa sobre a importância da resistência do povo negro para a abolição, organizada pelo grupo AfroBlack. O encontro será no Volúpia Bar e Espaço Cultural, às 19h e dá contexto ao 13 de maio.

“Se a gente não entender os quase 400 anos de escravismo, esse fato isolado, da assinatura da Lei Áurea, representa apenas a parte legal. Mas antes de 1888 já temos outras leis que foram conquistas dos escravizados”, explica a doutora e professora de história, Karen Pires.

Conforme Anna Bispo, uma das palestrantes no evento desta noite e participante do grupo AfroBlack, a data que importa para a comunidade negra é o 14 de maio. “Nos importamos com o dia seguinte. Existe um samba enredo que explica isso em uma frase: livre do açoite da senzala, mas preso na pobreza da favela”, reitera.

A escravidão no Vale

Durante o mestrado e doutorado, Karen estudou o trabalho dos escravizados no Vale do Taquari. Além de registros de cartórios e igrejas, ela também utiliza recortes do jornal O Taquaryense. Em uma passagem, mostra o debate sobre a concessão de cartas de liberdade condicional – em que o escravizado ainda trabalhava por determinado tempo para seu senhor – e incondicionais, quando tinha liberdade plena. Para a imprensa regional, as cartas condicionais prolongavam a escravidão, que aquela altura já era insustentável.

Na dissertação, Karen identificou, por meio do inventário de Antônio José de Moraes, herdeiro de um barão da época, um total de 112 escravizados na região, deixados como herança em 1876, nas fazendas da Conceição, Pedreira e Pinhal. A localização atual da Fazenda Conceição fica em Fazenda Vilanova.

O trabalho de Karen também apresenta 220 escravizados sem nacionalidade e dois declarados “pardos/crioulos”, em uma faixa temporal de 1857 a 1885. Muitos dos escravizados eram de locais do continente africano como Angola, Congo e Moçambique. A mão de obra era utilizada para trabalhos em fazendas, como os domésticos, nas lavouras e na lida do campo.

Referência e ancestralidade

Hoje, o Vale do Taquari preserva suas comunidades quilombolas: a Unidos do Lajeado, no bairro Planalto, e a São Roque, localizada no interior de Arroio do Meio. Elas foram criadas pelo ex-escravizado conhecido como Vovô Theobaldo, vindo de um quilombo de Moçambique.

Khauane Marques Ribeiro é bisneta do ex-escravizado e lembra dos encontros e ritos feitos na Comunidade Unidos do Lajeado, onde há ruínas de antigas construções. “Eram casas de taipa feitas pelos escravizados. Pelos estudos que estamos fazendo, acreditamos que era um casa para mulheres e uma para os homens”, conta.

Em cima dos escombros, cresceu um plátano que soma centenas de anos. Os quilombolas encontraram, também, artefatos que estão sendo estudados pela Univates, a fim de compor a origem escravocrata. Hoje, o local está coberto pela vegetação.

Para Khauane, achados como estes enriquecem a vivência da família que se descobriu quilombola em 2017. “Antes éramos só uma família com costumes diferentes. Agora, nós sabemos que temos algo a mais, então vamos fazer valer a pena”, destaca. Apesar de ter conhecido o bisavô apenas por fotos e histórias da família, a jovem entende a importância ancestral.

Libertos, mas sem amparo

Desde o descobrimento, o Brasil tem mais tempo de escravidão do que de liberdade. Além do mais, depois da Lei Áurea, não houve nenhum projeto que integrasse os escravizados, que não tinham direito a escola e a terras.

“Esses quatro séculos em que todas essas gerações não tiveram acesso à escola, e esse atraso no acesso à educação e às condições mínimas de moradia aparecem até hoje”, reitera Karen.

Para Anna, a participação dos negros no Vale do Taquari “é discreta”. “Não temos alto número de jovens negros na faculdade, por exemplo. Ele é mão de obra barata. Se você visitar lugares onde precisa de massa trabalhista, os negros estão ali”, comenta. Ela também reclama de apoio para novos eventos junto ao AfroBlack e demais organizações da comunidade.


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