Persistência e informação para AMAMENTAR

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Persistência e informação para AMAMENTAR

O mês é chamado de Agosto Dourado para remeter à “qualidade ouro” do leite materno. Mulheres e especialistas falam sobre os benefícios e dificuldades da amamentação nos primeiros dias do recém-nascido

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Atualizado segunda-feira,
16 de Agosto de 2021 às 08:46

Persistência e informação para AMAMENTAR
Crédito: Carioca Fotografia
Vale do Taquari
OdontoCompany Estrela - Lateral vertical - Final vertical

As mãos pequenas de Gabriel hoje são mais fortes e ajudam a segurar o peito da mãe na hora de receber o leite materno. Com nove meses de idade, ele já come alimentos mais sólidos e frutas, mas também aguarda o momento em que Maitícia Gisele Rocha chega em casa do trabalho e o pega no colo para amamentar.

Hoje a rotina é mais tranquila e Maitícia se sente segura para dar o leite ao filho. Mas no início não foi assim. “Eu sempre quis amamentar, era uma vontade muito grande”, conta a mãe. Por isso, ela e o marido John Lenon Seibel procuraram uma consultoria na área para se prepararem para o nascimento do filho.

A gestação foi tranquila, mas com 34 semanas, Gabriel nasceu de forma prematura e ficou internado na UTI Neonatal de Estrela por sete dias. “Tudo o que a gente tinha planejado não aconteceu. A gente imaginava que ele ia nascer, ir para o quarto e eu já ia amamentar. Eu não pude ter esse contato desde o início”, relata a mãe.
Sem o filho no colo, o corpo também não produzia leite, e era preciso estimular. Assim, ela ia de três em três horas em um espaço dentro do hospital para retirar o líquido.

Quando Gabriel foi liberado, ele usava uma sonda e era preciso cuidado. “Foi bem diferente do que a gente imaginava. Ele era muito pequeno e não tinha muita força. Era sonolento, então tinha que mamar sentado”, lembra Maitícia.

A mãe também precisou da ajuda de um bico de silicone para dar leite a Gabriel. Já em casa, o recém-nascido passou por outro problema. Durante a amamentação costumava se engasgar e voltou à UTI por mais quatro dias.

Naquele momento ela deixou o bico de silicone de lado, e levou tempo para o filho se acostumar com a mudança. “Foi depois de muita insistência, porque eu não queria desistir, ele começou a pedir o peito aos pouquinhos, mas deu certo e até hoje ele está mamando”.

Rede de apoio

Seja para alcançar algum objeto ou buscar um copo de água, John fica ao lado de Maitícia nas madrugadas em que o filho acorda para ser amamentado. A irmã de 12 anos e a família também ajudaram no processo. A menina ia todos os dias ajudar a cuidar de Maitícia e Gabriel.

Tem dias mais difíceis do que outros, mas hoje amamentar se tornou um momento especial. “Nem todas as mães conseguem amamentar, mas para quem pode é um sentimento maravilhoso, é lindo saber que tu está alimentando o teu filho”, acredita.

Leite suficiente

Entre os benefícios do leite materno estão nutrientes e anticorpos essenciais para o desenvolvimento das crianças. E, apesar de um momento de conexão entre mãe e bebê, amamentar nem sempre é fácil. Muitas mulheres enfrentam dificuldades após o nascimento dos filhos. Outras não conseguem produzir leite.

De acordo com a fonoaudióloga e consultora em amamentação, Joanna Moraes, a partir da 30ª semana de gestação é importante a mulher procurar informação e se preparar para o momento.

Entre as dificuldades após o parto, está a pega incorreta do bebê no seio da mãe, além de dores no peito causadas por fissuras ou mastite. Elas também cometem erros comuns causados pela sensação de não produzirem leite suficiente.

“A mulher é induzida a dar um complemento ao leite materno por achar que o filho ainda está com fome. Mas as mamas são produtoras de leite, não armazenadoras, elas produzem quando estimuladas. Cada mãe tem leite suficiente para o seu filho”, ressalta Joanna.

A mulher é induzida a achar que o bebê está com fome. (…) Cada mãe tem leite suficiente para o seu filho”.

Joanna Moraes, fonoaudióloga e consultora em amamentação


Congelamento e banco de leite

  • Quando é preciso interromper a rotina de amamentação, as mães também podem congelar o leite para ele ser dado ao bebê quando não estiverem juntos. O ideal é não usar mamadeira, e sim um copo aberto ou uma colher dosadora.
  • O leite pode ficar refrigerado por até três dias e congelado por até três meses. “Mães de bebês prematuros também podem fazer o congelamento para que ele possa receber aquele primeiro leite, o colostro, depois o de transição e o maduro”, destaca Joanna.
  • O banco de leite mais próximo do Vale do Taquari fica em Porto Alegre. Mas, de acordo com a profissional, que atua na UTI Neonatal de Estrela há 10 anos, o Hospital de Estrela tem estrutura para receber um banco e a expectativa é que isso seja feito nos próximos anos.
  • Enquanto isso, Joanna já organizou duas campanhas com doadoras de leite. “Busquei frascos junto ao banco de leite de Porto Alegre e recrutei algumas mulheres da região. Deixei os frascos nas casa delas e depois de uma semana levamos para a capital”, conta.
  • Para este ano, a campanha para o Agosto Dourado será baseada em proteger a amamentação. Joanna organizou uma série de lives com histórias de mulheres que tiveram dificuldades e passaram por elas de cabeça erguida.

Uma corrente para o bem

Desde abril de 2014, o Projeto Soffya Valentina, antes chamado de Corrente do Bem, ajuda famílias de crianças da UTI Neonatal do Hospital Bruno Born (HBB). Ao lado do marido e da filha, Carline Sell Ariotti ganhou o apoio da comunidade com campanhas mensais para viabilizar a atividade, com valores arrecadados no Brechó do Bem.
Depois de cinco anos, com mais voluntários, outro projeto saiu do papel, o Mamãe e Bebê. Ele visa reformar ou construir uma sala de amamentação dentro de uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) no Vale do Taquari.
“Amamentar em um espaço adequado, silencioso, confortável e exclusivo só para a mãe e seu bebê é um direito. As diretoras nos relatam que muitas mães deixam de amamentar porque o espaço oferecido não deixa o bebê tranquilo para mamar”, conta Carline.
Para dar continuidade do projeto, as voluntárias contam com a ajuda da comunidade com doações de valores ou materiais nos pontos de coleta, via pix, ou na sede do Brechó do Bem, na Rua Carlos Spohr Filho, 3231, no bairro Moinhos D’Água.

 

Amamentar em um espaço adequado, silencioso, confortável e exclusivo só para a mãe e seu bebê é um direito”.

Carline Sell Ariotti, voluntária