Diferentes maneiras de ver o mundo

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Diferentes maneiras de ver o mundo

Autistas e famílias lutam pela inclusão e conscientização do transtorno

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Atualizado segunda-feira,
29 de Março de 2021 às 14:53

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O autismo é um transtorno que atinge cerca de 2 milhões de brasileiros, segundo estimativas da Center of Deseases Control and Prevention (CDC), instituição americana que estuda a doença no mundo. Com base nas pesquisas, acredita-se que 70 milhões de pessoas são acometidas pelo Transtorno do Espectro Autista (TEA), fato que levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a instituir o dia 2 de abril como data para conscientizar a população mundial sobre o problema.

Considerado uma síndrome neuropsiquiátrica, o autismo pode ser diagnosticado já no primeiro ano de vida, conforme a terapeuta ocupacional, Nainara Zambiasi. “Normalmente, é a família que percebe os primeiros sinais, mas o diagnóstico é feito pelo pediatra ou neuropediatra”, explica.

De acordo com Nainara, o TEA se caracteriza por dois aspectos principais, sendo eles a dificuldade de interação social e de comunicação. Em alguns casos, pode afetar a parte cognitiva e intelectual. “Não há só um tipo de autismo e eles se manifestam de maneiras diferentes em cada pessoa. Há casos que ele está associado há outras doenças”.

Mãe do pequeno João Pedro, Poliana Steinke, 36, conta que percebeu um comportamento diferente no menino logo após o primeiro ano de vida. A criança, que antes era ativa, estava retraída, perdeu a habilidade da fala e teve dificuldades em seu desenvolvimento.

“Inicialmente, perguntei às amigas se esse comportamento era normal. Algumas falavam que sim, deram exemplos e isso foi me consolando”, revela. Porém, as suspeitas continuaram e Poliana resolveu investigar mais sobre as atitudes do filho.

“As famílias, em geral, não desejam ou se programam para ter um filho com alguma deficiência. Quando se deparam com a situação, precisam se adaptar”, afirma.

E de fato, a terapeuta ocupacional revela que receber a notícia de um filho autista pode sim chocar os pais. “Hoje há vários estudos e tratamentos, as pessoas também estão falando mais sobre o transtorno. Acredito que isso ajude os familiares a prestarem mais atenção nas crianças e a buscar ajuda cedo”.

 

O conhecimento conscientiza sobre o autismo

Logo após a descoberta da doença de João Pedro, hoje com 2 anos, Poliana conta que buscou tratamentos e outras atividades que pudessem auxiliar o garoto.

Para ela, o que fez a diferença na evolução do filho foi a sua busca por informações sobre a doença. “O conhecimento te ajuda a dar empoderamento à criança e a lutar por condições melhores de vida, a fim de que não sejam adultos disfuncionais”.

Segundo Poliana, o maior desafio social é fazer com que a comunidade não encare o autismo como um rótulo. Por isso, informar e desenvolver projetos que possam auxiliá-los é fundamental. “No momento em que eu entendo o que é o transtorno e me encorajo, tenho recursos e armas para lutar”.

 

Os desafios da escolarização

Ana Emília Messer, 39, recebeu o diagnóstico do filho Miguel, 6, quando ele tinha pouco mais de dois anos. Assim como Poliana, ela precisou descobrir um novo universo e quebrar seus preconceitos e receios em relação a TEA.

De acordo com Ana, os autistas compreendem o mundo de forma diferente. Enquanto uma criança aprende através do exemplo e observa os colegas e professores, o autista não faz esse reconhecimento. “Ele dificilmente troca olhares. Então, se não olhar, não vai aprender a imitar”, afirma.

Mesmo assim, ela acredita que pessoas com TEA precisam ir à escola regular e aprender a se relacionar com os outros. “Falar em inclusão dentro de uma escola é preparar a sociedade. As crianças, convivendo com a diversidade, limitações e potencialidades de outras, constroem e reproduzem de forma diferente suas atitudes. Há menos preconceitos”, salienta.

Conforme a psicopedagoga, Genciane Oliveira, é possível sim que essas crianças frequentem a escola regular, mas os profissionais precisam estar atentos e preparados para o processo de aprendizagem dos autistas.

O ideal é que a família também procure instituições ou ONGs que ofereçam o apoio de uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, composta por fonoaudiólogo, psicólogo, médico neuropediatra e psicopedagogo.

Em todos os casos, a participação da família é fundamental e grande parte do sucesso deste desenvolvimento depende do auxílio dos pais. “São eles os primeiros a ensinar e depois reforçar a aprendizagem. Os pais e os especialistas devem fazer um trabalho sempre em conjunto, uma parceria para que a criança possa crescer e se desenvolver da melhor forma possível”, salienta.