Disparada no preço dos insumos desafia a construção civil

EXPANSÃO EM XEQUE

Disparada no preço dos insumos desafia a construção civil

Produtos como o aço, que teve um aumento de quase 100% em um ano, atrapalham a reação do setor e podem impactar também no bolso de quem pretende investir em imóveis. Queda na produção e alta do dólar explicam índices elevados

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Disparada no preço dos insumos desafia a construção civil
Diversos insumos tiveram altas significativas no último ano, como a areia (Foto: Mateus Souza)
Vale do Taquari
CRON Previne - Lateral vertical - Final vertical

Um dos poucos setores a não sofrer impactos negativos com a pandemia da covid-19 no ano passado, a construção civil projetava um 2021 de expansão. Contudo, o otimismo deu lugar a apreensão neste começo de ano, devido à alta no preço dos insumos, algo que já havia assustado o setor no ano passado.

Em 12 meses, produtos básicos para a execução de uma obra tiveram aumentos acima do normal. É o que aponta a pesquisa do CUB-RS, realizada pelo Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS). O aço, por exemplo, registrou uma alta de 93,29% até janeiro deste ano.

A situação preocupa principalmente as construtoras, pelo alto custo para a aquisição dos produtos essenciais do setor. “Aumentou demais. Está fora do aceitável. E os que mais impactaram no bolso são justamente os mais utilizados, como o ferro, o aço, o tijolo e o alumínio. É o básico do básico”, lamenta o presidente do Sinduscon Vale do Taquari, José Zagonel.

Representantes do setor se mobilizam em todo o país, por meio da Câmara Brasileira de Indústria da Construção (CBIC), buscando soluções para o problema. “O Brasil inteiro está reclamando. As indústrias não puderam produzir por completo, começaram a faltar produtos e pegaram o gostinho de vender mais caro. A gente espera que haja um recuo, mas sabemos que não será significativo”, projeta Zagonel.

Sem obras paradas na construção civil

Apesar da preocupação com os altos custos dos insumos, Zagonel descarta que isso acarrete em paralisação de obras, ao menos no Vale do Taquari. “Pode ter pequenos atrasos na entrega dos empreendimentos, mas não chega a ter obra paralisada por conta disso”, afirma.

Ele lembra que os empresários do setor estão brigando pela importação de produtos do exterior, mas a burocracia emperra as negociações. “O ferro poderíamos buscar na Turquia. E não podemos admitir que o aço seja mais barato na Europa do que no Brasil”, comenta.

Empresários descartam interrupção de obras, mas veem como “inevitável” aumento para o consumidor final (Foto: Mateus Souza)

“As perspectivas ainda são boas”

O empresário Gustavo Schmidt, diretor comercial da Construtora Diamond, admite que a situação é preocupante, sobretudo porque o setor está em alta e as construtoras não deixarão de adquirir insumos para tocar obras que possuem prazo de entrega.

“A questão é que elas terão de repassar isso para o consumidor final. Não tem outra saída. As empresas tem que honrar com os seus compromissos”, afirma. Isso, conforme Schmidt, pode causar incertezas e afastar a população dos investimentos em imóveis. “Elas vão acabar segurando a compra e esperar”.

Ainda assim, Schmidt projeta boas perspectivas para 2021, como foi no ano anterior, mesmo em meio à pandemia. “Os aumentos ainda não foram repassados. Quem comprar agora, terá um preço melhor do que aqueles que deixarem para comprar depois. E acreditamos que isso voltará a um patamar mais aceitável, assim que as fábricas reorganizarem suas produções”, avalia.

Riscos para a construção civil

Segundo a CBIC, a alta dos insumos pode afetar sobretudo empreendimentos ligados ao programa Casa Verde e Amarela, para pessoas com faixa com renda mensal de R$ 2,5 mil a R$ 4,5 mil, pois representa menor margem de lucro para as empresas contratadas.

De acordo com a entidade, isso pode diminuir o “apetite das empresas” pela fatia de mercado voltada ao programa de habitação do governo federal. A sondagem da CBIC, que ouviu 1,2 mil consumidores, aponta aumento de 9,8% na compra de imóveis novos (apartamentos) e queda de 17,8% no número de lançamentos em 2020 na comparação com o ano anterior.

No país, as vendas tiveram aumento de 3,9% no quarto trimestre de 2020, na comparação com o trimestre anterior. Na comparação entre o quarto trimestre de 2020 e o mesmo período de 2019, as vendas subiram 6,7%.

“Quando um produto falta, a tendência é o preço subir”

O economista Eloni José Salvi vê dois fatores na alta dos insumos da construção civil: a queda na fabricação, que resulta na falta de produtos, e a desvalorização do real. É apenas revertendo estes cenários que a situação pode melhorar.

Por que ocorreu a disparada nos preços dos insumos da construção civil?
São dois motivos: um é a desmobilização inicial na pandemia e o receio dos fabricantes em retomar a produção a pleno. Isso inevitavelmente ocasiona na falta de material. Quando um produto falta, a tendência é o preço subir. E outra coisa foi o câmbio. O real foi desvalorizando e os preços dos produtos, que são na maioria internacionais, ficam mais caros. Então ele aumentou por essas razões.

O que essa alta pode ocasionar daqui para frente no setor?
Ela pode provocar um receio de novos lançamentos de empreendimentos, e até têm ocorrido de projetos serem engavetados, esperando o melhor momento. Esse é o principal reflexo que se percebe, pois os investidores ficam receosos.

Como o setor pode reagir em meio a essa situação? Há a possibilidade dos preços baixarem?
Para melhorar, teria que reverter os fatores que pressionam o custo. O principal deles é normalizar o fornecimento. E, claro, teria que haver um alívio na desvalorização do real.