Insanidade

opinião

Sérgio Ricardo Sant'Anna

Sérgio Ricardo Sant'Anna

Professor da Faculdade La Salle

Assuntos e temas do cotidiano

Insanidade

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Atualizado sábado,
30 de Janeiro de 2021 às 10:10

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Sou daquelas pessoas que procuram acreditar no outro. A expressão do ser humano é uma das mais belas manifestações desse mundo, então custa crer que dela provenham tamanhas impropriedades e atos tão de­preciativos para nossa espécie. Em se tratando do momento que vivemos, com o vírus entre nós sem previsão de saída, as atitudes deveriam ser diferentes. Mesmo assim, segue a novela da vacina. Fora a descrença de alguns e a inoperância e irresponsabilidade de muitas autoridades, os fura-fi­las escancaram o quanto ainda precisamos evoluir para uma sociedade ética.

A história há de registrar as incoerências desses anos e no futuro teremos, quem sabe, a vi­são bizarra dessa obra. Em 1904, no Rio de Janeiro, os protestos contra a obrigatoriedade da vacina para a varíola terminaram triunfantes com a chamada Re­volta da Vacina e o fim da obri­gatoriedade. Na época, diziam que feições de bovinos poderiam surgir naqueles que recebessem a dose. Ninguém virou vaca e em 1908 a cidade foi tomada por uma violenta epidemia da doença.Em A Metamorfose, de Franz Ka­fka, de 1915, me chama a atenção as reações do personagem Gregor que, ao acordar atrasado para o trabalho, se vê metamorfoseado em um inseto gigante. O realis­mo fantástico de Kafka capta as angústias do personagem preso aos limites das autoridades que o cercam (o pai, o trabalho, o tempo) e a falta de habilidade para lidar com a transformação por que passa. Embora trágico e excessivo para uma boa parte do público de hoje, a obra nos reme­te às questões da adaptabilidade e colaboração tão necessárias à atualidade.

Conforme pesquisa publicada pelo Salesforce Group, “O futuro do trabalho, agora”, estas são competências das mais relevantes para quem deseja crescer, tanto no ambiente digital quanto físico: adaptabilidade e colaboração. Segundo o estudo realizado com 20 mil pessoas (2 mil pessoas entrevistadas) em diversos países, inclusive no Brasil, as facilidades de acesso à informação por meio de tecnologia podem nos auxiliar a aprender novas habili­dades, mas precisamos também nos apoiar em competências, habi­lidades sutis ligadas diretamente às nossas atitudes e comporta­mento, as chamadas soft skills.

Nos próximos seis meses, al­gumas dessas soft skills serão as mais requisitadas por empresas e clientes: adaptabilidade e colabo­ração (96%), criatividade (95%), habilidades comerciais e análise de dados (93%). Outros exemplos de competências necessárias são a empatia, ética, liderança, reso­lução de conflitos, flexibilidade e a gestão de equipes.

O estudo não traz nenhuma novidade. Basta observar os resultados que alguns países, principalmente latino-america­nos, vêm alcançando na condução do combate à pandemia e fica clara a falta, tanto de habilida­des quanto de competências, no trato do problema. Mas tanto no macro quanto no microambiente, sem dúvida, elas são necessárias à nossa sobrevivência. A falta de habilidades e competências pode ser combatida com conheci­mento, treinos e desejo de fazer. Transformar-se em inseto ou qualquer bicho é pura insanidade.