“Craques” em desfazer o churrasqueiro, sem experimentar o assado

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Adair Weiss

Adair Weiss

Diretor Executivo do Grupo A Hora

Coluna com visão empreendedora, de posicionamento e questionadora sobre as esferas públicas e privadas.

“Craques” em desfazer o churrasqueiro, sem experimentar o assado

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Lajeado
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Analisar os sentimentos e cotejá-los com a verdade nua e crua, desafia o ser humano ao longo da vida civilizada. Desde a infância até a juventude, nossas emoções costumam ser mais afloradas e, muitas vezes, se sobrepõem à razão. Rebeldia sem causa, ignorância inconsciente ou birra infantil, são características da nossa imaturidade. Todos nós, com raríssimas exceções, experimentamos estes comportamentos na primeira fase da vida.

O problema é quando esta fase não passa e adentra para gerações que, via de regra, deveriam possuir a capacidade de resiliência e conviver melhor com o contraditório. Por mais que não gostemos de algo, devemos nos esforçar para compreender que opinião, cada um tem a sua. Portanto, certa ou errada, quase sempre, ela depende do ângulo em que observamos.

A estruturação do pensamento é algo necessário e virtuoso no ser humano. Quando deixamos de fazê-lo, nos tornamos menos conscientes da realidade, ou daquilo em nossa volta. Corremos o risco de, exageradamente, descambar para as emoções e, assim, potencializar sentimentos e anular, completamente, nossa visão sobre quem pensa diferente. Por vezes, até cortar relacionamentos ou causar conflitos infantis.

Tenho percebido este fenômeno crescente, especialmente, nos grupos de whatsapp, dos quais já declinei de vários. “Verdades absolutas”, intolerância, falta de empatia e desinformação impedem cotejar a opinião alheia ou a própria realidade do fato em si. É mais ou menos assim: “se é o fulano quem disse, então não dou a mínima, nem quero ouvir, ler ou saber nada”. Simples e ignorante assim!

Este comportamento preconceituoso sobre as coisas, as pessoas e as circunstâncias elevam o grau de desinformação e nos deixam piores enquanto sociedade.

Ora escuto investidas contra a direita, noutra, críticas desmedidas contra setores da esquerda. Cada qual “agarrado” para acreditar na sua “verdade”. E o pior: tentando desfazer o outro com base no acúmulo de estímulos seletivos – verdadeiros ou falsos -, a ponto de desinteressar-se, completamente, pela outra parte.

Aqui cabe a analogia com o churrasco, para descontrair um pouco: desfazer o sabor do assado do churrasqueiro, sem experimentá-lo, é algo completamente sem noção. Ou, no mínimo, injusto.
Mas, ultimamente, a crítica ao sabor do churrasco mirou o churrasqueiro, simplesmente, por que alguém ouviu dizer, que o churrasqueiro não presta. Checar se é verdade, não importa…, muito menos o sabor do assado.

Ouço, vejo e leio sobre o impeachment do presidente Donald Trump nos EUA. De um lado, a narrativa de queda orquestrada; de outro, o veredito de que Trump não aceitou perder o cargo e quer dar um golpe na democracia.

Afinal, em quem acreditar, quando existem provas suficientes de erros e interesses em todos os lados.
Trump teve cassada sua conta no Twitter, quando milhares continuam a vociferar sem o mesmo critério; a grande mídia não transmite nada ao vivo, apenas frases seletivas do presidente. De repente, o homem mais poderoso do Planeta ficou sem canal de comunicação. Foi silenciado. Por quê, qual o medo? Se é tão ruim, então “dê corda para se enforcar”, recomenda o sábio ditado popular.

Verdadeiramente, não me sinto seguro, nem capacitado para emitir julgamento sobre o presidente americano. Estou impedido de pesquisar e ouvir seus argumentos, sejam eles bons ou ruins. A internet, “democrática” o bloqueou. Ou seja, minha possibilidade de emitir juízo de valor sobre o presidente agora será apenas com base no que os “outros” interpretam e me dirão.

Esta semana ouvi uma live do presidente Bolsonaro. Foi um exercício jornalístico e de cidadania. Assisti, atentamente, e pude saber de uma série de programas e projetos interessantes que o governo lançou. Diferente, na imprensa escutei, li ou vi quase nada sobre temas de grande interesse nacional. O que repetidas vezes pude ler ou ouvir foi “o Brasil está quebrado”. Isso repercutiu em todos os canais, só para citar um exemplo.

Não temo pela democracia republicana. Temo pela ignorância e intolerância social. Onde cada um quer acreditar no que lhe convém, ainda que muitas vezes se trate de completo absurdo. Afinal, não importa a realidade em si, mas o sentimento acerca dela.

E isso é perigoso, para dizer o mínimo.

Bom fim de semana a todos!