Menos achismo, mais fatos

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Amanda Cantú

Amanda Cantú

Jornalista

Colunista do caderno Você

Menos achismo, mais fatos

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Opiniões também matam.

A afirmação faz parte de um dos artigos que integram a obra “Quem tem medo do feminismo negro?”, da filósofa Djamila Ribeiro. Apesar de ter sido escrito em 2014, o texto de Djamila continua atual. Talvez, mais atual do que nunca.

Durante a cerimônia de posse da Câmara Municipal de Porto Alegre, realizada no primeiro dia do ano, parlamentares negros se recusaram a cantar o hino riograndense. A atitude foi um protesto contra a frase “povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”, considerada racista.

Logo, a discussão ganhou as redes e os “especialistas em opinião” apareceram para defender o indefensável. Não vou citar exemplos porque você não merece presenciar tamanha ignorância.

Ler a obra de Djamila no momento em que essa discussão despertou caiu como uma luva. Sempre acreditei que, para opinar sobre algo, é preciso conhecer bem o assunto. Ignorar fatos para validar uma opinião ou crença é fútil e extremamente irresponsável. Nas palavras de Djamila, é síndrome de privilegiado.

Veja bem: não há problema em preferir azul a vermelho. Ou gostar mais de chá do que de café. No entanto, ao falar sobre racismo, por exemplo, falamos de vidas. De uma existência marcada pela desigualdade social e pela violência. Ficar no achismo diante disso é escolher o lado do opressor e compactuar com ele.

Você pode até achar que não existe mais racismo no Brasil. Isso não muda o fato de que, segundo o Atlas da Violência 2020, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pessoas negras representam 75,7% das vítimas de homicídios em 2018, para citar o exemplo mais recente.

Você pode achar também que não há machismo ou misoginia no nosso país. Porém, sua opinião não muda o fato de que, segundo a fonte citada acima, mulheres negras são as vítimas de 68% dos feminicídios ocorridos no Brasil durante o mesmo período.

No seu texto, Djamila ainda destaca a grande diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio. Se valer do direito à liberdade de expressão para disseminar preconceitos que ajudam a puxar gatilhos todos os dias é mais do que desrespeito com quem pesquisa, milita e vivencia as opressões na pele. É criminoso.

Então, antes de defender com unhas e dentes o hino riograndense, busque entender como se formou a sociedade e a cultura gaúcha. Antes de distribuir preconceitos e senso comum, busque olhar para o “achismo” com olhos críticos.

Estude. Tenha fontes confiáveis (WhatsApp não conta). Olhe para além da bolha do teu privilégio, seja ele qual for.

“A sua opinião não muda os fatos, mas os fatos deveriam mudar a sua opinião”.