O que é preciso para que uma mulher seja ouvida?

opinião

Amanda Cantú

Amanda Cantú

Jornalista

Colunista do caderno Você

O que é preciso para que uma mulher seja ouvida?

Por

Lajeado

Confesso que ponderei bastante sobre abordar o assunto de hoje, afinal, talvez ele soe um pouco repetitivo se você costuma acompanhar esta colunista. Porém, acredito que, diante de algumas situações, não podemos mais nos calar.

Há algumas semanas, presenciamos as cenas grotescas do julgamento do caso Mari Ferrer. Quando escrevi sobre, o título do texto era “Por que elas não denunciam?” O título de hoje, infelizmente, poderia se chamar “por que elas não denunciam parte 2”.

A revista Piauí divulgou há alguns dias a edição de dezembro, que traz uma matéria repleta de relatos repugnantes de assédio moral e sexual nos bastidores do núcleo humorístico da Rede Globo. Para construir o texto, a Piauí ouviu o depoimento de 43 pessoas, entre vítimas e testemunhas.

Toda essa história iniciou a partir da coragem da atriz Dani Calabresa. Depois de inúmeros episódios de assédio vindos do próprio chefe, já com o psicológico bastante abalado, ela decidiu denunciar. A atitude foi o pontapé inicial para uma série de outras vítimas aparecerem.

No entanto, mesmo assim, a empresa fez o possível para esconder o caso. Os responsáveis por uma possível punição determinaram, inicialmente, que o agressor deveria apenas fazer terapia. Nenhuma advertência. Algum tempo depois, o agressor teve o contrato rescindido. Entretanto, a nota divulgada pela empresa não menciona o caso, só aponta uma decisão “em comum acordo”.

Se o caso Mari Ferrer nos mostrou que mesmo mulheres em situação de privilégio são desacreditadas ao denunciar, a forma como a denúncia de Dani Calabresa foi tratada sentenciou esta violência.

Por sua coragem, Dani chegou a ser acusada, nos bastidores, de estar “manchando a imagem da empresa”. Diziam que estava louca. Típico, não é?

No texto sobre Mari Ferrer, eu disse que “se você já se perguntou por que uma mulher não denuncia, a resposta é Mari Ferrer”. Hoje quero te lembrar que a resposta também é Dani Calabresa e todas as outras vítimas que apareceram depois dela. Também é todas as mulheres que não tiveram força para se libertar de relacionamentos e ambientes tóxicos, por diferentes motivos.

A resposta é, ainda, todas aquelas que, ao denunciarem casos de assédio no ambiente de trabalho, perderam seus empregos, tiveram suas carreiras boicotadas ou foram taxadas de loucas. Por fim, a resposta também é a postura da empresa, que representa um retrato perfeito da nossa sociedade lidando com um caso de violência contra a mulher.

Espero que nenhuma de nós precise, um dia, ser Dani Calabresa. Mas, se necessário, que não nos falte a sua coragem.