A esquerda no divã

opinião

Ardêmio Heineck

Ardêmio Heineck

Empresário e consultor

Assuntos e temas do cotidiano

A esquerda no divã

Por

Lajeado
Tudo na Hora - Lateral vertical - Final vertical

Um grande clube cair para a segunda divisão do futebol brasileiro é uma anomalia e denota problemas graves a corroerem suas entranhas. São muitos os exemplos. O mais recente, o Cruzeiro, de Belo Horizonte, e, os mais próximos, Grêmio e Inter. Um clube de futebol, tal qual partido político, tem características bem próprias: não tem dono, mas dezenas de milhares de donos, tomados por uma paixão sem fim. O purgatório da segunda divisão precisa levar à catarse, à introspecção e à reorganização, tudo precedendo às cirurgias necessárias para viver um novo tempo.

Pois a esquerda brasileira, cujo grande protagonista é o PT, nas últimas eleições municipais foi para a segunda divisão. Pensei muito se faria esta abordagem por ter muito amigos no PT. Masquei o freio nesta semana e optei por externar minha opinião. Justamente por aqueles petistas, de fé, sempre prontos para lutar por uma boa causa.

Como administrador do Banco do Brasil em Porto Alegre, vi o PT surgir na década de 80. Vi de perto o movimento “Diretas Já” – pelo reestabelecimento de eleições – os primeiros movimentos do MST e o ressurgimento dos movimentos grevistas. O PT, no Estado, foi criado no meio bancário. Negociei com Fortunati e Olívio Dutra (lideranças petistas proeminentes) situações particulares de funcionários do Banco do Brasil, nas greves. Conheci uma liderança petista emergente vinda de Santa Maria: Tarso Genro. Grande parte dos meus chefes de setor eram petistas, excelentes funcionários que me ensinaram à prática da gestão participativa. Mais recentemente, na organização do Instituto Gaúcho do Leite, tive a oportunidade de trabalhar próximo a Luiz Fernando Mainardi, secretário estadual da Agricultura do governador Tarso Genro. Dos melhores, senão o melhor titular desta pasta. Tinha uma visão clara do que tinha que ser feito e posição apolítica no atendimento das questões que o demandavam.

Vimos o PT ascender à presidência da República e ali permanecer por catorze anos, o que não é de graça. O foi pela soberana decisão da maioria dos eleitores. E, se assim o foi, havia méritos. Surge a dissidência do PSOL – um pouco por ideologia, outro pouco pela busca de protagonismo por seus líderes – e o híbrido PSDB. Mas o grande norteador da esquerda no Brasil continua sendo o PT que agora caiu para a segunda divisão, fato que talvez seja a sua redenção, pois precisará olhar para dentro de si. Interessante darem ouvidos àqueles petistas decepcionados com Lula pela oportunidade que perdeu de implantar no Brasil políticas desenvolvimentistas e de, assim, promover a inclusão social, conforme o ideário do partido.

Tal qual um clube de futebol que caiu para a segundona e que precisa cortar na própria carne para retornar fortalecido, espera-se que o PT o faça igual. O Brasil precisa dele, desde que um partido que consiga sacudir a poeira de velhas lideranças rotas, que não mais o servem mas dele se servem. Que reveja e modernize seu conteúdo programático, saindo, por exemplo, da velha prática do estado máximo que só leva à corrupção, à ineficiência econômica e à infelicidade social. A substitua pelo estímulo ao desenvolvimento através da iniciativa privada, continuando a dar atenção à sua política de inclusão social, mas através do usufruto, pelos brasileiros, da riqueza gerada por este desenvolvimento. Ao Estado, o papel de uma grande agência reguladora nacional.

O Brasil precisa de correntes políticas antagônicas, mas que se complementam e se fundem num inabalável sentimento de brasilidade. A busca constante da inovação nas ideias e programas, assim como nas lideranças, é recomendável a todas as agremiações políticas, esteio de democracia.