METAMORFOSE

opinião

Sérgio Ricardo Sant'Anna

Sérgio Ricardo Sant'Anna

Professor da Faculdade La Salle

Assuntos e temas do cotidiano

METAMORFOSE

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Lajeado
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Nos encaminhamos para o final de 2020 com muitos de nós sem entender de verdade o que aconteceu e continua acontecendo neste ano. Algumas vezes, me vem à mente o filme alemão de 2003, intitulado “Adeus, Lênin!”, onde comédia e drama se misturam, em uma narrativa que mostra um jovem tentando esconder da mãe a queda do Muro de Berlim e todas as mudanças que se avizinhavam, naquele momento, do lado oriental da Cortina de Ferro, como o outdoor da Coca-Cola erguido quase defronte à janela do apartamento da família. Após passar oito meses em coma, a personagem não faz a menor ideia do que está acontecendo. E assim o filho pretende mantê-la. Assistam ao filme e vejam o desenrolar da história. Vale a pena.

Nosso caso, quisera tratar-se de ficção, mas não é! Por mais que tentemos entender o mundo olhando apenas para o nosso umbigo, podem ter certeza que não cabe aqui todos os sentimentos e a dimensão que as transformações que hão de vir nos impõem. Como ficará nossa economia, afinal de contas? Além da questão sanitária da pandemia, que segue sacolejando o mundo em segundas e terceiras ondas, sem que muitos ouçam de fonte segura o quanto seu contágio pode ser danoso ou letal, e com isso permaneçam aglomerando-se e curtindo o “verão” – sem máscara. Ainda que os impasses das bandeiras e da gestão atribulada do ‘volta às aulas’ tenham deixado de ser manchete durante as eleições.

Que o descaso desmedido de governantes com desmatamento, queimadas, racismo e assassinato não nos incomode, ainda assim, restamos nós diante do todo. Ou achas que seguirás impassível, intransformado? E não me venha falar de novo normal. Normal, quem? Quando?

Já em alguns meios, estabeleceu-se que entraremos num tempo em que o whatsapp regula o expediente, num relógio sem ponteiros, não porque seja digital, mas porque não há mais hora pra nada, ou as horas foram tomadas por tudo. Entenderam que só trabalhando, trabalhando, seremos capazes de superar a crise. Qual delas, a financeira? E a emocional, o que fazemos com ela? Empresas de ponta, como a Google, têm avaliado o desempenho de seus colaboradores e percebido a necessidade de incentivar que reservem horários para si, para evitar o stress da sobrecarga, da cobrança de si mesmo para alcançar resultados. A síndrome do esgotamento profissional ou síndrome de Burnout, identificada em 1970 pelo psicanalista alemão Freudenberger, não é ficção. O que tem início como extrema dedicação, pode virar imediatismo e individualismo; depois, procrastinação, isolamento, negacionismo, tristeza intensa, até o colapso físico e mental.

Não tenha dúvidas que o processo é de transformação e vai exigir muito de todos nós.  Mas lembre-se que cada um tem o seu tempo, a mudança não é algo comum a todos. Como já disse o profeta, “só admira lagarta quem é borboleta”. Vamos passar dessa para uma melhor, com consciência, respeito e cuidado com o outro, e no tempo certo. Não precisamos “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, nem outra qualquer, que não seja nossa. Talvez 2020 tenha deixado muitos de nós em um processo de metamorfose ambulante, como diria Raul Seixas. Pois digo, melhor assim do que pensar que o mundo que a gente habita é o mundo que a gente pensa ser. Adeus, Lênin, adeus, Trump. Que o mundo mude de verdade!