opinião

Hugo Schünemann

Hugo Schünemann

Médico oncologista e diretor técnico do Centro Regional de Oncologia (Cron)

‘’Saúde não tem preço, tem pressa’’

Por

Lajeado

Este era o bordão de um personagem de um programa humorístico, há um ano. Ele estava meio certo, e meio errado.

Sim, temos pressa na saúde. Os esforços feitos pelo Estado e pelas instituições estão sempre aquém das necessidades. Faltam leitos, e as emergências estão lotadas. O exame demora, o resultado demora mais ainda. A burocracia complica.

Temos pressa. Num país que mais que duplicou a população em 50 anos, falta tudo. Faltam estradas, falta ensino, falta organização, falta hospital. O SUS perdeu, desde 2003, cerca de 42 mil leitos hospitalares.
E aí, quando menos se espera, surge uma pandemia… E já são mais de 165 mil mortos. Se por um lado houve um esforço para organizar um enfrentamento à pandemia, há uma negação por parte de setores da sociedade quanto à realidade que hora enfrentamos, e por outro lado, vemos autoridades anestesiadas e inalterantes ao problema. Fechar tudo, não é mais a solução. Mas qual é? Temos pressa, lembra?

Mas há outras questões. Câncer, diabetes, doenças cardíacas, doenças renais, Alzheimer e por aí afora… temos pressa. Temos um serviço de saúde pública que se esforça em estender seus braços e proteger a todos, por outro lado, mostra-se uma baleia encalhada na praia em várias ocasiões. Mas o que seria de nós sem ele?
Mas faltou a outra parte da frase. Saúde talvez não tenha preço, mas tem custo. E cada vez maior. A evolução da medicina tem essa característica. A cada degrau que se sobe, acrescentam-se custos. E alguns são estratosféricos! As vacinas para covid-19 estão estimadas em US$ 21,00 por unidade. Se vacinarmos 100 milhões de brasileiros, e se contarmos que a cotação do dólar está em R$ 5,30, podemos imaginar a montanha de dinheiro que só a compra da vacina vai custar ( e sem contar o custo de logística para a distribuição e aplicação da vacina num universo tão grande de pessoas ­– e lembrar que ainda estaremos excluindo do cálculo os outros 110 milhões de brasileiros). E este montante é apenas para fazer frente a um único item da lista de problemas de saúde enfrentados pelos brasileiros.

Apresentar soluções é complexo. E caro. Precisa ser estabelecido quem paga. Precisa ser estabelecido o que vai ser disponibilizado e de que forma. Enfim, é uma discussão longa, complexa e técnica. Num país que não gosta deste tipo de processo. Um país que gosta de soluções mágicas e que acha que tomar decisões não tem consequências nem custos. Aí, o que sobra é empurrar com a barriga, como sempre fizemos.
Saúde? Tem pressa e preço.