Editorial

Conta que não fecha

A inflação oficial e o custo da alimentação às famílias sempre se torna motivo de dúvidas. Há muitos que não acreditam no cálculo do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), feito pelo IBGE.
Ainda que a tabulação tenha peculiaridades, que invoque mais produtos e serviços integrantes das despesas familiares, a associação entre salário e custo de vida recaí com mais ênfase sobre o básico. Neste caso, a alimentação em casa.
Pelos dados concretos, o acumulado da inflação no país é de 3,9%. Se pegar aqueles itens que mais fazem parte das compras mensais das famílias, o arroz, o feijão, carne, legumes, frutas, bebidas, todo o conjunto que compõe esse segmento, a elevação do preço de janeiro até outubro é quase quatro vezes mais, algo próximo dos 14%.
Essa conta não fecha para o trabalhador, que vê seu salário valer menos cada vez que vai ao supermercado. Economistas apontam que o custo nestes itens representa em média 20% do orçamento das famílias. É a maior despesa nos lares.

Importante ressaltar, quanto menor a renda, maior interferência das compras nos supermercados sobre o orçamento. Então entre a inflação oficial e o custo dos alimentos, se sustenta a grande dúvida: a inflação está mesmo controlada no país?
A década de 90, dos anos de hiperinflação, ainda está muito viva na memória, principalmente daqueles com mais de 40 anos. A variação nos preços era diária. Para muitos, itens como carnes, queijo, presunto, dificilmente entravam nos lares.
Especialistas em finanças repetem como mantra: brasileiros não têm educação financeira. Uma meia verdade. Afirmar que é preciso gastar menos do que ganha é uma matemática fácil para quem está na classe média alta.
Para a maioria do assalariado, aqueles que recebem um salário mínimo ou um pouco mais, conseguir fazer uma poupança é inviável. Como guardar dinheiro se tem o aluguel, vestuário, alimentação, água, luz, gás e transporte? Mesmo levando na ponta da caneta, o mês vai começar e essa é outra conta que não fecha.
Para além das análises econômicas, do mercado internacional, a renda se faz pelo trabalho. Difícil para o trabalhador e para a empresa contratante, pois além das variações de humor da cotação do dólar, do aumento nos custos de operação e da própria sobrevivência, há uma carga tributária que sufoca quem produz.
Na carteira de trabalho está um salário, mas para o empregador custa dois. É hora de se avançar no debate da desoneração da folha de pagamento para que haja mais dinheiro na mão do trabalhador.