opinião

Amanda Cantú

Amanda Cantú

Jornalista

Colunista do caderno Você

Não somos todos iguais

Por

Você sabe o que é lugar de fala? A expressão se popularizou há alguns anos, em especial, depois do lançamento da obra “Lugar de Fala”, da filósofa, escritora e ativista negra Djamila Ribeiro. Na obra, Djamila explica que pensar o lugar de fala de cada sujeito é fundamental para oferecer visibilidade a grupos cuja voz foi desconsiderada durante muito tempo.

Assim, enquanto pensava em qual troca teríamos aqui esta semana, refleti muito sobre como falar do Mês da Consciência Negra sendo uma mulher branca. Qual seria o meu lugar de fala neste contexto?

Como já disse algumas vezes aqui, gosto de falar sobre aquilo que vivencio, o que sinto na pele. Escrever não é um processo fácil e escrever sobre algo que não é nossa realidade é ainda mais difícil, por mais empatia e solidariedade que se possa ter.

Por isso, visto que falar sobre racismo é fundamental, ainda mais nos tempos em que vivemos, decidi refletir sobre nosso papel, como pessoas brancas, neste cenário.

Do meu ponto de vista, observar a minha responsabilidade como pessoa branca em uma sociedade racista, e usar o meu espaço de privilégio para promover uma reflexão sobre isto, é o lugar de fala que tenho neste contexto.

Para ajudar, questionei ao professor Gilson dos Anjos, que é historiador, militante da causa negra e um dos entrevistados da edição deste fim de semana do Caderno Você, qual ele considera ser o papel da pessoa branca diante de uma sociedade racista.

Finalizo a coluna com as palavras do Gilson, mas antes, reforço a importância de nós, pessoas brancas, nos reconhecermos como criadores e perpetuadores de uma cultura racista, que nos privilegia de inúmeras formas, todos os dias.

O primeiro passo é deixar de pensar que o “até tenho amigos negros” basta para se considerar não racista. Ou então continuar distribuindo o discurso “somos todos iguais” e negar o abismo que existe entre ser branco e ser uma pessoa não branca.

Nossa cultura é racista. Somos racistas. Nos beneficiamos do racismo. Aceitar este fato e ouvir o que pessoas não brancas têm a dizer, não só sobre racismo, mas sobre qualquer assunto, é o mínimo a fazer. Reconhecer e usar do seu privilégio branco para tentar mudar o sistema, também.

Para Gilson, “as pessoas brancas que ocupam os espaços de poder têm a obrigação de investir com equidade os recursos públicos. Observamos que muitos gestores investem quando demandados pela sociedade civil organizada, valores insignificantes só para dizer que investiram, entretanto, outras organizações culturais não enfrentam as mesmas situações de penúria. As pessoas brancas mestiças precisam se reconhecer como brasileiros e como viajantes do mesmo barco, respeitando e enxergando as pessoas como Martin Luther King, que pregou nos anos 60 julgar as pessoas por sua personalidade e não pela cor da sua pele”.

A entrevista completa com o Gilson dos Anjos você confere na página do Caderno Você aqui no portal.