opinião

Ney Arruda Filho

Ney Arruda Filho

Advogado

Coluna com foco na essência humana, tratando de temas desafiadores, aliada à visão jurídica

A arte do encontro

Por

Lajeado

O ano de 2020 se transformou num monstrengo que não caberia nem no mais “B” dos filmes japoneses de catástrofe. Não bastassem as desavenças, transformadas em desencontros e que tiveram origem na polarização extrema de posicionamentos políticos e ideológicos, o afastamento social provocado pela pandemia do coronavírus contribuiu ainda mais para afastar pessoas antes próximas.

Pois então, no último final de semana prolongado, li um artigo do professor de Direito da FGV, Oscar Vilhena Vieira, intitulado “A arte do encontro”. Ele se refere à encíclica do papa Francisco, Fratelli tutti, que numa tradução literal significa “todos irmãos”. O autor afirma que “estamos vivendo um momento marcado por uma forte polarização, pelo ressurgimento de um nacionalismo fechado, anacrônico e ressentido, onde a ameaça e a desqualificação do outro estão transformando a política numa guerra de todos contra todos.”

O Professor Vilhena destaca os argumentos do Papa, que faz uma leitura atenta do momento atual. Para muitos pseudo-líderes de hoje, “a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. Com várias modalidades, nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores, e assim a sociedade empobrece-se e acaba reduzida à prepotência do mais forte. Desta forma, a política deixou de ser um debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efémeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro. Neste mesquinho jogo de desqualificações, o debate é manipulado para o manter no estado de controvérsia e contraposição.” Tudo isso turbinado pelas redes sociais.

Confesso que eu nunca tinha sequer passado os olhos sobre uma encíclica papal. Agora fiz. E o que mais me surpreendeu, ao ler alguns parágrafos do documento, foi uma citação que o Papa Francisco faz de uma canção do Vinicius de Moraes: “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”. A cultura do encontro, para Francisco, é um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro de muitas faces, muitos lados: todas as faces, todos os lados, compõem uma unidade rica de matizes, porque “o todo é superior à parte”. Se a religião move multidões e motiva tanto as pessoas, se Deus está acima de tudo e o Papa se manifesta de maneira tão contundente, mas também tão equilibrada, dá pra pensar que existe uma saída. E ver Samba da Bênção citado num documento do Vaticano, só pode ser um sinal de evolução.