opinião

Carlos Cyrne

Carlos Cyrne

Professor e vice-reitor da Univates

Assuntos e temas do cotidiano

O Empreendedorismo Social em tempos de pandemia

Por

Lajeado

Neste mês de setembro estamos, eu e o Prof. Marlon Dalmoro, lecionando uma disciplina no Mestrado em Sistemas Ambientais Sustentáveis e que entre as suas discussões está o Empreendedorismo Social. Diante dos efeitos sociais da pandemia, me parece que nenhum tema tenha maior relevância dado o momento que vivemos.

Dados do Sebrae referem de que o Brasil deve registrar, em 2020, o maior nível de empreendedorismo da sua história. Em boa medida este recorde é impulsionado pela crise gerada pela pandemia. Os brasileiros precisaram buscar na atividade empreendedora uma alternativa de renda. Infelizmente a maioria destes empreendimentos se dá em virtude da necessidade e não pela oportunidade. Em reportagem veiculada em um jornal de circulação estadual, uma colunista destacou que “O Rio Grande do Sul atingiu, em setembro, a marca de 120.087 novos microempreendedores individuais em 2020”.

São dados da Junta Comercial, Industrial e de Serviços do Rio Grande do Sul. A concentração se dá no setor de serviços com 62%, a indústria (que tem maior potencial gerador de empregos) representa somente 11%. Os dados do Ministério da Economia confirmam essa tendência. Somente no primeiro semestre de 2020, o número de microempreendedores individuais (MEI) no país cresceu 10,2%, na comparação com o mesmo período do ano passado. Sem uma análise mais aprofundada nos números, é arriscado afirmar, mas ainda assim especulo que poucos são os negócios de impacto social.

Os empreendimentos sociais buscam causar um impacto positivo em uma comunidade, ampliar as perspectivas de pessoas marginalizadas pela sociedade, além de gerar renda compartilhada e autonomia financeira para os indivíduos. Uma das particularidades de desse tipo de empreendimento é que eles são desenvolvidos considerando a viabilidade econômica da intervenção, com base em estratégias e modelos de negócios: ou seja, são soluções de negócios para problemas socioambientais, porém não estão dispensados de ser financeiramente sustentáveis. Hartigan (2006) define o empreendedor social como um tipo diferente de líder que, entre outras coisas, aplica soluções práticas a problemas sociais através da combinação da inovação, disponibilização de recursos e oportunidades.

O empreendedor social pensa no coletivo e sua medida de desempenho é o impacto social. Acredito que o maior fator de diferenciação entre os empreendedores sociais e os “tradicionais” é a intencionalidade, o desejo de promover um “negócio” que promova transformação social, mantém uma conexão real com a realidade local e compromisso com o desenvolvimento do território.

A análise da realidade social e seu contexto é fundamental para determinar o negócio de impacto social, é preciso conhecer a sua aldeia e suas necessidades, para só então empreender.

A questão central do nosso debate envolve o fato de que, além da criação de empreendimentos capazes de responder às necessidades individuais dos empreendedores, mitigar os impactos sociais da pandemia envolvem também a criação de empreendimentos que promovam impactos sociais positivos.
Fica o desafio: empreender tendo como principal motivação o impacto social, e não o lucro.