O Vale que conhecemos  não existirá após a covid-19

opinião

Adair Weiss

Adair Weiss

Diretor Executivo do Grupo A Hora

Coluna com visão empreendedora, de posicionamento e questionadora sobre as esferas públicas e privadas.

O Vale que conhecemos não existirá após a covid-19

Por

Lajeado

Lajeado figura entre as cidades mais ricas do país, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, divulgada nesta semana. Está na 9ª posição no estado do Rio Grande do Sul e na 41ª no país. Entretanto, o status glorioso pode estar com os dias contados. Por consequência, afetará toda a região do Vale do Taquari.

Políticos e líderes vaidosos não concordam com esta narrativa e preferem ufanar o potencial local como algo inabalável. Cuidado! O nosso arranjo econômico está ameaçado.

Ainda que a diversificação econômica – indústria – comércio e serviços – permeada pelo setor de alimentos, tenha pilares sólidos, o que chega pela frente é preocupante. Não é exagerado afirmar que “o Vale que conhecemos não existirá após a covid-19”, ao menos quando sabemos das transformações em curso.

Dois fatores vitais ameaçam nosso potencial regional: falta de mão de obra qualificada na área digital (o mundo novo) e as estruturas frágeis do nosso comércio perante gigantes como Amazon, Alibaba e outros players com robustos e eficientes sistemas de venda online.

“Os grandes tomarão conta, se não nos mexermos”, desabafou ontem o empresário Deoclides Pedó, em e-mail e telefonema a este colunista. Ele se diz “angustiado e obcecado pelo estudo e análise do que está diante da nossa porta, sem nos darmos conta”.

Uma mostra é a falta do profissional mais requisitado neste momento: o gerente de e-commerce. Falta inteligência para orientar e operar nas empresas um modelo assertivo e eficiente de vendas digitais. Ao mesmo tempo, nossos clientes e nós mesmos somos “bombardeados” diariamente por players do centro do país e, até internacionais, por meio de algoritmos e sofisticados sistemas robóticos, de onde compramos com alguns clics. E tudo com alta escala e competitividade.

Dizem que a natureza é sábia. Talvez por isso, a maioria das árvores renasce após cortada ou completar seu ciclo. Pode ser uma boa analogia para inspirar e reinventar nossos negócios. Foto: Divulgação

Na maioria dos casos, não é possível antever as dimensões das mudanças que se processam e nem o tempo que elas necessitam para nos impactar, reforça Pedó. Pressentir o potencial risco à manutenção do “status quo” regional é urgente , na opinião dele.

Concordo. A inércia e a descrença em relação às mudanças rápidas ainda persistem em muitos negócios locais e regionais. Os mais resistentes e com pouca flexibilidade serão os mais atingidos, talvez, “varridos” do mercado, em questão de alguns meses, para não dizer semanas.

A preocupação sobre o comércio tradicional ganha escala à medida que seus proprietários não conseguem ou não querem antever os desafios e ajustes que devem ser implementados. O risco de dormirem à noite e acordarem no outro dia sem condições para continuar aumenta ao passo que seus modelos de gestão e processos fiquem defasados.

Como mudar isso? Eis o desafio. Devemos estabelecer discussões exaustivas nas universidades, nas entidades de classe, nas escolas, nas empresas e até nas famílias. Não temos tempo para ranços, nem cochilos, egos ou vaidades. O momento é de adaptação, rápida e eficiente. Vamos abrir a cabeça.

E não falo apenas do comércio e da necessidade de implantar sistemas digitais ou de e-commerce. Nosso arranjo produtivo local galgado na produção e industrialização de alimentos também está ameaçado pela evolução produtiva da China, para citar apenas uma ameaça. Os produtos asiáticos invadiram o Brasil, o Rio Grande e estão cada vez mais dentro de nossas casas. Portanto, se a nossa gente se rende aos chineses, então imagina o que farão as outras regiões que sequer têm vínculos emocionais com nossos produtos.

Os desafios realmente são gigantes. Os grandes conglomerados estão organizados e vorazes. Devemos falar mais disso e agir. Precisamos ser rápidos e intensos, nos apropriar da inovação e das oportunidades competitivas. Torcer o nariz ou “esperar a pandemia passar” para então decidir algo novo, pode ser tarde demais.

Insisto: universidades, entidades de classes, empresas e famílias, todos alinhados na busca por soluções. E, por último, quebrar a saga do poder público pesado, arcaico e burocrático. Precisamos enfrentar os agentes políticos profissionais e exigir que tenham soluções inovadoras para nossas cidades e arranjos produtivos, sejam eles prefeitos, vereadores, secretários ou qualquer outro cargo que ocupem. Quem não tiver nesta sinergia, devemos “varrer” do cargo. Já esperamos demais.

O comentário pode soar duro, mas tem objetivo claro: agir enquanto é tempo.