A vida é labirinto

opinião

Ney Arruda Filho

Ney Arruda Filho

Advogado

Coluna com foco na essência humana, tratando de temas desafiadores, aliada à visão jurídica

A vida é labirinto

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Lajeado
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Eu não conheço o Vitor Ramil pessoalmente. Ao menos nunca tive a oportunidade de conversar com ele, de pedir um autógrafo e tal. Mas conheço a sua obra. Sou fã do cara. Nascido em Pelotas, numa família de musicistas e de compositores, acho que dá pra dizer que ele é o menos famoso, mas o mais talentoso do clã dos Ramil. Ao menos pelo meu gosto musical. Pela intimidade que tenho com as suas composições, me arrisco até a dizer que eu conheço a sua índole.

Escutando uma playlist, me deparei com a canção chamada “Labirinto”, parceria do Vitor com o Zeca Baleiro. Ouvi uma, duas, três vezes. A música me impressionou. Uma sequência de quatro acordes, numa melodia que se desenvolve sem repetições, que vai sempre em frente, quase que empurrando um ouvinte desatento pra frente. A letra começou a fazer sentido. “O amor é um estranho labirinto …” e por aí vai. Inicialmente escrita em inglês pelo Zeca, “I said the love is like an obscure maze” ou “eu disse que o amor é como um obscuro labirinto”, pareceu ao Vitor que a potência não seria sentida pela maioria dos ouvintes, atentos ou não. Propôs, então, fazer uma tradução/transcrição da letra para o português, na tentativa de manter a pungência e a sonoridade. E conseguiu manter tudo, harmonizando melodia e letra de maneira que a gente se sente meio perdido mesmo, dentro de um labirinto. Essa palavra, labirinto, que dá título à canção, pode designar uma construção, um conjunto de percursos intrincados, criados com a intenção de entretenimento, de diversão, desorientando quem os percorre. Num jardim ou numa folha de papel, sair do labirinto é um desafio a ser vencido, uma gostosa brincadeira.

Ouvindo e ouvindo de novo, se desenhou na minha mente um retrato destes tempos de pandemia. “Tô viajando em loucos descaminhos”, me pareceu uma tradução em linguagem poética dos tempos loucos nos quais vivemos. Negação da ciência, insanidade, descaminho, a falta de uma liderança segura a nos guiar.

Tentamos seguir na direção certa, mas o rumo que nos parecia certo não nos leva à saída. Voltamos e seguimos uma rota alternativa. Damos de cara na parede. “Lá fora a noite escura é o labirinto”. E o labirinto, quando não é de brincadeira, nos impede a visão, limita a percepção da realidade e não nos permite olhar para além das suas paredes, ainda que imaginárias. Seguimos na busca, alguns como “viajantes de um caminho extinto”, tentando encontrar respostas para perguntas que ninguém parece saber responder.

A vida, mais do que nunca, é mesmo um estranho labirinto.